UM TERÇO DOS ESTUDANTES DO ENSINO MÉDIO ESTUDA À NOITE

Um terço dos estudantes do Ensino Médio estuda à noiteDados de 2011 mostram que total de alunos estudando no período noturno ultrapassa 2,7 milhões

Mariana Mandelli

O Brasil tem um terço de seus alunos matriculados no Ensino Médio estudando à noite. A taxa, de 32,7%, corresponde às matrículas nas redes públicas e privada, no ensino regular, Normal (magistério) e técnico integrado. No total, são mais de 2,7 milhões de jovens brasileiros frequentando a escola no período noturno.

Especialistas em Ensino Médio afirmam que, apesar de a taxa estar caindo progressivamente – há cinco anos, era 40,7% –, o número de jovens estudando à noite ainda é alto. De acordo com eles, o índice é preocupante porque é o noturno que apresenta as maiores taxas de abandono, especialmente entre os alunos mais velhos.

Segundo os pesquisadores, o cansaço é o principal inimigo de alunos e professores nesse horário. “A qualidade de ensino nesse período, se comparada à manhã e à tarde, é obviamente inferior. Uma prova disso está nos resultados das avaliações nacionais: os alunos da noite apresentam desempenho inferior”, lembra Wanda Engel, superintendente executiva do Instituto Unibanco. “É uma das piores formas de Educação que existe, porque professor e alunos estão exaustos.”

De acordo com Wanda, um dos fatores que explicam o grande número de matrículas no noturno, além de ser um aspecto cultural do Brasil, a pressão social que o jovem sofre para iniciar a vida no mercado de trabalho.

“Alguns jovens, mesmo desempregados, preferem se matricular à noite porque têm em mente a possibilidade de conseguir um trabalho em breve. Muitas famílias já começam a questionar os filhos para ajudar em casa”, explica ela. “É por isso que precisamos oferecer alternativas de geração de renda dentro da própria escola para esses jovens, como é a o caso da monitoria: ele permanece dentro dela, aprende e recebe remuneração.”

Além da monitoria, Wanda cita os agentes jovens de desenvolvimento social (do governo federal), que atuam nas próprias comunidades, e o investimento em programas de jovens aprendizes com turnos de 4 horas, como possibilidades de empregos para os jovens que precisam trabalhar. “Dessa forma, eles conseguiriam estudar de manhã ou à tarde, sem a necessidade de migrarem para o noturno”, defende.

Infraestrutura
Uma pesquisa da organização não governamental Parceiros da Educação, realizada em 2011 com 3.249 estudantes de 18 escolas de São Paulo, revelou que metade daqueles que estudam à noite não trabalhavam.

A principal conclusão do levantamento é que os jovens só estão matriculados nesse período porque não há vagas nos outros horários devido à falta de espaço físico e ao aumento de um ano no Ensino Fundamental – o que “tomou” salas e períodos do Ensino Médio. A pesquisa foi feita com as escolas nas quais a ONG atua.

“É claramente um problema de infraestrutura: faltam prédios, salas de aula e docentes”, explica Olavo Nogueira, do Parceiros da Educação. “Além disso, o Ensino Fundamental de nove anos teve grande impacto nisso – há escolas com o 9º ano funcionando à noite, já que não há espaço durante o dia.”

Segundo ele, é comum o clima do noturno não apresentar a sensação de se estar dentro de uma escola. “Não parece aula. Há muitas faltas de alunos e de professores. Por isso, muitas vezes, o foco acaba sendo apenas o término da escola, e não o aprendizado”, explica Nogueira.

A pesquisa também revelou que o desempenho do noturno é inferior ao das turmas diurnas no exame estadual da rede paulista. “Já esperávamos que o noturno não funcionasse e que os resultados fossem inferiores, mas o Idesp (Índice de Desenvolvimento da Educação do Estado de São Paulo, aferido pelo fluxo escolar e a nota da escola na avaliação estadual) foi de quase metade”, afirma Nogueira.

Distorção idade-série
O Ensino Fundamental também tem milhares de alunos à noite. Em 2011, eles totalizam quase 416 mil estudantes e uma parcela de 1,3% do total de matriculados nessa etapa. Assim como no Ensino Médio, essa taxa vem caindo: em 2007, ela era de 6,1%.

No ano passado, mais da metade (cerca de 259 mil) das crianças e jovens do Ensino Fundamental que frequentavam a escola noturna estão nas redes municipais. A região do País que concentra mais alunos no noturno é a Nordeste, com mais de 252 mil crianças e jovens nessa situação. Os números incluem matrículas de turmas do Ensino Fundamental de 8 anos e de 9 anos.

Mais de 94% dos alunos da noite estão no ciclo II – ou seja, são alunos mais velhos, sendo que grande parte tem a idade ideal para cursar o Ensino Médio. “É justamente por conta da distorção idade-série que ainda temos o Ensino Fundamental noturno. São alunos que já passaram da idade de cursar essas séries”, destaca Isabel Santana, da Fundação Itaú Social.

Todos Pela Educação