Renda na Capital é a 5ª mais comprometida com dívidas

A dívida total das famílias de Fortaleza, segundo a Fecomércio, somou R$ 518 milhões no ano passado

As famílias fortalezenses comprometeram, no ano passado, uma média de 34,1% de seus rendimentos com o pagamento de dívidas. O percentual é o quinto maior dentre todas as capitais brasileiras, abaixo apenas de Aracaju, Teresina, Maceió e Natal, todas nordestinas. O dado está presente no estudo intitulado “Radiografia do Endividamento das Famílias nas Capitais Brasileiras”, elaborado pela Fecomércio-SP (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo de São Paulo).

Cartão de crédito é um dos meios de pagamento que mais leva ao endividamento FOTO: NEYSLA ROCHA

Conforme a pesquisa – que tem como objetivo detalhar os efeitos da política de crédito do governo federal – em 2010, a quantidade de dinheiro que a população da capital cearense reservou para as contas era de somente 30,6%, 3,5 pontos percentuais a menos.

A dívida total das famílias de Fortaleza, segundo a Fecomércio, somou R$ 518 milhões em 2011, contra R$ 460,7 milhões do ano anterior, um avanço de 12,4%. Na média, esses débitos são de R$ 1.190 por residência, montante que também cresceu entre 2010 (quando era de R$ 1.029) e o ano passado.

Acima do ´prudente´

A fatia da renda que a população de Fortaleza direciona exclusivamente para pagar seus compromissos está acima do que os analistas consideram prudente. Para alguns, somente 25% do que se ganha em um mês podem ser comprometidos; outros defendem que isso pode representar, no máximo, um terço (ou cerca de 33%) da renda.

De acordo com o assessor técnico da Fecomércio-SP, Guilherme Dietze, o maior comprometimento dos salários está relacionado à oferta de crédito ainda recente e também à falta de educação financeira.

Educação financeira

“Esse é um mercado novo de crédito. Os bancos estão se expandindo para a região Nordeste. As famílias precisam desse crédito, já que a renda é um pouco inferior em relação a outras regiões. Então, há necessidade para a complementação com crédito, e isso faz com que as famílias se endividem mais. Talvez por ser um novo mercado, em que a educação financeira ainda não está tão forte, o Nordeste tem um nível mais significativo de dívidas do que a região Sul, por exemplo”, analisa Dietze.

Para o representante da Fecomércio-SP, no entanto, os números não causam alarme. “O importante é que as dívidas dos nordestinos estão sendo pagas, a economia está se desenvolvendo. Ainda há um potencial muito grande para crescer e isso faz com que aumente, cada vez mais, o nível de renda e emprego e consequentemente os pagamentos de dívida”, pondera.

Em atraso

Já quando o assunto são as dívidas em atraso, 24,15% das famílias de Fortaleza se enquadram. O percentual está abaixo de uma série de outras cidades, como Aracaju (42,1%), São Luís (36%), Macapá (36%), Porto Alegre (33,3%), Rio de Janeiro (30,8%), dentre outras. Entre 2010 e 2011, a Capital cearense conseguiu reduzir esse número, que superava 28%.

Conforme detalha a Fecomércio, a análise ganha importância ao comparar os dados de dois períodos bastante distintos em termos de ações da política de crédito nacional: 2010, quando o Banco Central tomou atitudes expansivas; e 2011, quando ocorreram restrições com as medidas chamadas de macroprudenciais, com claro intuito de conter as pressões inflacionárias decorrentes do consumo aquecido. Já em 2012, o governo voltou a adotar medidas expansionistas, reduzindo juros e estimulando a tomada de crédito por parte da população.

435 mil famílias endividadas em 2011

Mais de 435 mil famílias possuíam algum tipo de dívida a pagar em Fortaleza, no ano passado, de acordo com a Fecomércio-SP. Esse contingente é o sexto maior do Brasil. Quem lidera é São Paulo, com mais de 1,6 milhão de residências com compromissos financeiros.


Entre 2010 e 2011, uma porção menor da população fortalezense adquiriu compromissos financeiros, de acordo com a Fecomércio-SP FOTO: KID JÚNIOR

Apesar de ainda expressivo, o número fortalezense apresentou redução em relação a 2010, quando 447 mil famílias estavam endividadas.

De acordo com o levantamento, aproximadamente 62% da população da Capital do Ceará tinham dívidas em 2011. No ano anterior, percentual atingia mais de 65% das famílias, conforme mostra a Fecomércio.

No País

A proporção de famílias endividadas no País cresceu 6,39% entre 2010 e 2011 e passou de 58,58% no fim de 2010 para 62,5% no encerramento do último ano. No período analisado, o volume da dívida teve um aumento de 11,57% nas capitais, passando de R$ 145,1 bilhões em 2010 para R$ 161,9 bilhões no encerramento de 2011. O valor do último ano equivale a R$ 13,5 bilhões em dívidas por mês. O rendimento das famílias endividadas no período também aumentou, passando de R$ 491,5 bilhões para R$ 549,2 bilhões, ou R$ 45,8 bilhões por mês.

O crescimento de 11,7% no rendimento permitiu que o brasileiro, apesar de endividado, comprometesse parcela ligeiramente menor da renda com dívidas. Na média das capitais, a parcela de renda comprometida passou de 29,53% para 29,49%. De acordo com a FecomercioSP, os economistas mais conservadores consideram saudável ter até um terço da renda comprometida com dívidas. O levantamento também indicou que o número de famílias inadimplentes foi 2 pontos porcentuais menor, passando para 22,9% do total. Além disso, houve retração no total de famílias que afirmaram não ter condições de pagar as dívidas total ou parcialmente. (VX)

NE é único a apresentar recuo

A região Nordeste foi a única onde houve redução do número de famílias endividadas entre 2010 e 2011. De acordo com a “Radiografia do Endividamento das Famílias Brasileiras”, da FecomercioSP, 2,38 milhões (70,66%) das 3,37 milhões de famílias da região encerraram 2011 com dívidas. O resultado representa um recuo de 2,14% em relação a 2010, quando havia 2,43 milhões de famílias endividadas. O cenário, entretanto, varia bastante de um Estado para outro. Os números de São Luís e Natal destoaram do resultado geral da região.

Segundo o levantamento, a capital brasileira que apresentou a maior redução na quantidade de famílias endividadas foi Aracaju, que tem 116.764 (75,84%) de suas 153.965 famílias nesta situação. Uma retração de 11,11% no total de famílias com dívidas no período. A Assessoria Técnica da Fecomercio-SP destaca que, em 2010, Aracaju era a cidade com o maior porcentual de famílias endividadas: eram 86,41%.

Salvador

Contudo, quando se fala em números absolutos, Aracaju não é a capital em que mais famílias quitaram suas dívidas. Este título cabe a Salvador, que viu 58.354 famílias acertarem suas contas e, agora, conta com 573.330 (66,25%) de suas 865.443 famílias endividadas. Uma queda de 9,24% em relação a 2010, quando 631.683 famílias se enquadravam nesta categoria.

Victor Ximenes
Repórter

Diário do Nordeste