Os tablets como quebra de paradigma pedagógico

CORREIO BRAZILIENSE – MARIA LUCIA WILLEMSENS

Uma das principais publicações mundiais sobre o uso de tecnologia em salas de aula é a NMC Horizon Report, publicada pela New Media Consortium em conjunto com a Educause Learning Initiative. Em seu relatório de 2012, perguntava-se sobre as principais tecnologias que modificarão o ensino-aprendizagem nos próximos cinco anos. O uso de tablets eletrônicos e de outros dispositivos móveis figuravam como o próximo passo a ser dado pelas instituições de ensino.

Como explicar essa tendência? É muito simples: observe a seu redor. Os tablets estão cada vez mais presentes no cotidiano das crianças. Fica cada vez mais claro que sua presença em sala de aula é inevitável. A NMC Horizon Report prevê que isso deverá acontecer em até dois anos. Para as instituições de ensino, fica o desafio: vão precisar investigar e refletir sobre como o tablet poderá ser incorporado ao ensino de forma prática e eficaz. Neste momento, são muitas as perguntas levantadas e cabe aos profissionais do mundo de ensino procurar respondê-las. O potencial para a sala de aula é imenso.

Hoje não é incomum observarmos crianças que olham para revistas e tentam passar a mão sobre a imagem na tentativa de mudar de página, da mesma forma que se passa a mão na tela de um tablet (a chamada swipe technology). A interação da criança com a tecnologia indica claramente a facilidade de uso desses aparelhos entre crianças e jovens. Só esse fato isolado (o elemento lúdico como fator motivacional) sugere que a adoção de tablets em salas de aulas será grande facilitador no processo do ensino/aprendizagem.

Todas as características reunidas num só aparelho certamente são um conjunto de recursos que podem viabilizar inúmeras atividades pedagógicas, facilitar a visualização de conteúdos cognitivos, além de estimular atividades cooperativas e o desenvolvimento de projetos. No entanto, qual seria a implicação da adoção da nova tecnologia na sala de aula para o professor e a pedagogia?

Alguns estudos comprovaram a necessidade de interação adulto-criança na aprendizagem. Aqui, vale lembrar que interativo não significa educativo. Do ponto de vista educacional, a aprendizagem é sempre mediada: tal qual na tradição socioconstrutivista, que acredita na necessidade de um “expert” guiando o “novato” para levar o processo além da chamada “zona de desenvolvimento proximal” do aluno.

É bem provável que o papel do professor fique consolidado verdadeiramente como um facilitador da aprendizagem, com toda a importância que o termo atribui à função do profissional, à medida que entendamos a importância da tecnologia como auxiliar do processo. Ser um facilitador exige grande empenho do professor. Ele deverá ser alguém que conhece bem os alunos e consegue promover a aprendizagem norteada pelo sucesso, pela realização, criatividade e inovação mediante a colaboração entre os alunos e ele próprio. Nesse modelo educacional, o aluno passa a ser o principal agente da aprendizagem.

O uso do tablet na escola exige um professor preparado, dinâmico e investigativo, pois as perguntas e novas situações que surgirão durante a implementação dessa tecnologia em sala de aula fogem do controle preestabelecido do currículo. Isso nos remete também ao papel insubstituível do professor: elaborar estratégias que deem significado à porta que se abre para o universo do conhecimento.

A adoção de tablets em sala de aula poderá promover a experiência da aprendizagem através da resolução de problemas, além de contribuir para desenvolver o pensamento criativo entre alunos. Esse é o maior desafio. Dentro dessa perspectiva, é vital que as instituições educacionais possam entender que esta é nova questão para todos – e tratá-la como tal. O processo de implementação traz este desafio: nem sempre poderemos acertar com as tentativas de implementação da nova tecnologia em questão. As escolas precisam de tempo e oportunidades para errar e aprender com os erros e, assim, seguir rumo à redefinição de escopos.

*MARIA LUCIA WILLEMSENS Diretora-superintendente da Cultura Inglesa.