O Plano de Educação e o papel da escola

É preciso que os deputados entendam e estimulem esse papel de formação do ambiente escolar

Na última quinta-feira, 5, os deputados estaduais do Ceará tiveram uma maratona de votações. Numa das sessões mais longas da Assembleia Legislativa, os parlamentares aprovaram três projetos controversos: um empréstimo de US$ 350 milhões para amortização da dívida pública no triênio 2016/2018, a redução de ICMS para a instalação de termelétricas e o Plano Estadual de Educação (PEE), de cuja redação foram retirados trechos que fizessem referência a gênero.

Ao longo de 12 horas, manifestantes ocuparam as galerias da Casa em protesto, sobretudo contra a supressão dos termos que aludiam à orientação sexual, mas também no esforço de impedir a aprovação de emenda que propunha veto ao uso de nome social por estudantes travestir e transexuais. De autoria do deputado e pastor David Durand (PRB), a emenda foi aprovada por 10 votos a 9.

Num cenário em que, no mundo inteiro, a matriz energética é tema de debates aprofundados, com destaque para alternativas a energias “sujas” das quais as termelétricas são exemplo, natural que um projeto que propugne a concessão de benefícios para atrair usinas do tipo seja contestado. Do mesmo modo, é também salutar que, em ambiente de crise econômica e risco de insolvência da máquina pública, a contratação de empréstimo seja alvo de questionamentos.

Entretanto, nada chamou mais a atenção dos deputados do que a preocupação em retirar do PEE, sob patrocínio da bancada evangélica, quaisquer menções ao respeito à diversidade sexual. Donde se conclui: os parlamentares cearenses toleram o investimento em um modelo de geração de energia que degrada o meio ambiente, mas não o debate sobre igualdade na escolas.

É inadmissível que o documento que fixa as bases para a educação em toda a rede estadual do Ceará não contemple todos os desafios ao pleno desenvolvimento – moral e ético – dos estudantes neste início de século XXI. A escola é, em essência, espaço de diversidade. É também onde todos aprendemos, desde cedo, a não discriminar o outro. A escola não é lugar para alimentar obscurantismos. É preciso que os deputados entendam e estimulem esse papel de formação do ambiente escolar, tão caro a qualquer sociedade entre cujas preocupações esteja o amplo convívio com as diferenças.

Fonte: O Povo Online