Abandono escolar recua, mas ainda é desafio da rede pública

A redução nos números revela que a educação, garantida por lei a todos os brasileiros, vem se tornando prioridade

Colaborou Emanoela Campelo de Melo

A necessidade de ingressar no mercado de trabalho para garantir o sustento da família enquanto ainda se é estudante, a dificuldade de acompanhar as disciplinas que se ramificam e se aprofundam com o passar dos anos, a violência – que já não mais existe só além dos portões das instituições, mas chega aos pátios escolares – são motivos reconhecidos e frequentemente ditos pelos estudantes quando o tema é o abandono da vida estudantil.

Apesar das causas expostas, os índices de permanência dos alunos nas escolas revelam que, a cada ano, a educação, garantida por lei a todos os brasileiros, sobe ao topo das prioridades. Em contrapartida, assegurar presenças fixas das crianças e adolescentes na rede pública do Ceará, assim como no restante do Brasil, é desafio para gestores.

Em quatro anos, de 2011 a 2014, conforme os dados disponibilizados pelo Ministério da Educação (MEC), há uma visível redução nos números de abandonos escolares no ensino fundamental, assim como no ensino médio das escolas cearenses. Há cinco anos, em 2011, a média de abandono, no Brasil, do ensino fundamental era de 2,5% e 9,5% do ensino médio. No mesmo ano, o Ceará apresentava números próximos aos das médias nacionais: 2,6% dos estudantes do Estado abandonaram o ensino fundamental e 11,5% desistiam de cursar a 1ª, 2ª e 3ª série.

De lá para cá, já em 2014, ano do último levantamento, as médias nacionais e estaduais reduziram. Com 192.365 alunos atualmente matriculados nas instituições da Prefeitura de Fortaleza e 388 mil inscritos em escolas do Governo do Estado, é maior a permanência dos estudantes dentro das salas de aula.

Hoje, o percentual de abandono no ensino fundamental do Ceará (1,8%) é inferior à média brasileira (2,2%). Em contrapartida, os cálculos referentes ao ensino médio local (7,9%) permanecem em superioridade aos do Brasil (7,6%).

Conforme o coordenador da Coordenadoria de Avaliação e Acompanhamento da Educação (Coave) da Secretaria de Educação do Ceará (Seduc), Rogers Mendes, o índice ainda é considerado alto e pode ser explicado pela “cobrança em trabalhar no auge da juventude”.

“Os meninos de 15 anos já têm uma cobrança em estar no mercado de trabalho. Dificilmente, os que abandonam estão na idade adequada e têm o domínio da leitura e do raciocínio lógico. Esse perfil está associado às questões individuais do sujeito e o maior motivo para o abandono ainda é pedagógico. Em Fortaleza, talvez as Regionais I e V tenham mais problemas, já que a renda familiar influencia”, afirmou o coordenador.

Tempo

Aos 17 anos, enquanto frequentava o 1º ano, Elivania Vieira se viu em um dilema recorrente entre quem precisa garantir o próprio sustento: continuar a estudar ou abandonar a escola para trabalhar em tempo integral? A decisão veio de pronto. “Decidi abandonar porque eu morava no Eusébio e tive que vir para Fortaleza. Dei preferência ao trabalho por necessidade”.

As palavras de Elivania vêm seguidas de um sonho não deixado para trás. Hoje, aos 19 anos, ela deixa nítida a vontade de voltar a se dedicar aos estudos. “Queria fazer Direito. Acho que em 2016 vou conseguir voltar a estudar à noite. Eu avisei aos professores que não ia mais poder ir, aí eles disseram que eu continuasse estudando, que eu era uma menina muito boa”.

Para o professor do programa de Pós Graduação de Educação da Universidade Estadual do Ceará (Uece), Jacques Therrien, as “pressões externas” influenciam diretamente e há a necessidade de investir altos valores para proporcionar melhores condições de aprendizagem. “A rua não é um ambiente tão conveniente para adolescentes, mas à medida que ela é mais forte do a escola, atrai os jovens. Quando cortam verbas da educação, vemos piores condições de aprendizagem. É preciso formar sujeitos para a vida, onde há uma variedade de espaços e convivência”, afirmou o especialista. Já Rogers Mendes conta que devido ao “ritmo acelerado imposto na primeira série do ensino médio”, há a necessidade de promover reajustes que ajudem na permanência dos estudantes. “No 1º ano entram novas disciplinas. Muitas vezes, os alunos não têm uma boa preparação básica. A gente tenta ofertar o EJA Médio (Educação de Jovens e Adultos) como uma proposta alternativa em um tempo de duração menor”.

Município

O coordenador do ensino fundamental do Município, Carlos Eduardo Araújo, ressalta a posição da Secretaria Municipal da Educação (SME) de Fortaleza: em 2014, a maior taxa de abandono no ensino fundamental acontece no 6º ano (5,4%). O número reduziu consideravelmente se comparado ao ano de 2007, quando 20,7% dos alunos desistiam de estudar assim que ingressavam na 2ª parte do ensino fundamental.

Enfrentar o trabalho infantil é considerado como desafio constante, conta o coordenador, ao avaliar o período em que a criança se torna adolescente. “Percebemos que há um impacto quando a criança chega ao 6º ano. Conseguimos localizar alguns casos e estabelecemos o Peteca, programa de enfrentamento do trabalho infantil baseado na Pedagogia com a promoção de várias atividades de incentivo e encantamento dos alunos”.

A exemplo da desistência nesta fase está a manicure Silvia Marta Ferreira. Hoje com 53 anos, ela se orgulha de ter voltado a estudar e de ter conseguido concluir o ensino médio. “Eu era da escola da Prefeitura e abandonei os estudos na 6ª série. Na época, tive a necessidade de trabalhar para começar a ganhar dinheiro. Vinte anos depois voltei a estudar, mas não porque tivesse a vontade de fazer uma faculdade, eu tive curiosidade de continuar e queria o convívio com colegas de classe”.

O retorno aos bancos escolares fez com que Marta, hoje mãe de professora, se engajasse novamente e tivesse forças, apesar da necessidade de continuar trabalhando. “Quando voltei, fiz o EJA para terminar logo o ensino fundamental. Depois me matriculei no ensino médio e frequentei direitinho. O problema que encontrei foi o de, com o passar dos anos, muitas coisas já terem mudado, e eu já não ter a mesma facilidade para aprender, mas, com apoio dos profissionais, consegui terminar em 2012”, diz.

Projetos

De acordo com a Seduc e a SME, diversas políticas públicas foram adotadas para reduzir os números de abandono escolar. Dentre elas está o Luz do Saber. Promovido pela Prefeitura, o projeto faz uso de uma metodologia informatizada com softwares educativos com conteúdos complementares ao que é exposto pelos professores em sala.

Sobre a violência existente além dos portões das escolas, a SME tem Célula de Mediação de Conflitos. A parceria é feita junto ao Ronda do Quarteirão e visa não deixar que os alunos fiquem fora da escola nos horários que acontecem às aulas. O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) também é estímulo para alunos se manterem nos estudos, garante a Seduc. Com a maior intenção e chance de ingressar em universidades, o aluno opta por completar a 3º ano e prestar o exame.

FIQUE POR DENTRO

Inep diferencia abandono de evasão escolar

Abandono e evasão escolar se referem a momentos escolares diferentes, é o que garante o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Quando o aluno, em algum momento do ano letivo, deixa de frequentar às aulas e acaba reprovando devido ao excesso de faltas, a situação se configura como abandono.

É comum ainda que o estudante atinja as médias suficientes para aprovação, mas já tenha reprovado pela ausência na sala de aula. O estudante passa a fazer parte das estatísticas de evasão escolar quando, mesmo que não tenha reprovado, não efetua matrícula no ano posterior em qualquer escola da rede pública.

Diário do Nordeste