Um profissional que faz falta nas escolas brasileiras

Por Renato Deccache – renato.deccache@folhadirigida.com.br

Crédito: DivulgaçãoSegundo Marcos Pereira, muitos professores ainda consideram o supervisor educacional como um “intruso”, nas equipes pedagógicas

Uma das causas da má qualidade do ensino em diversas escolas, segundo especialistas, é a falta de profissionais de apoio para o magistério. Em boa parte das escolas brasileiras, em especial no setor público, os professores podem, no máximo, interagir com outros docentes, em relação a dúvidas sobre atividades e práticas pedagógicas.No entanto, como as relações no ambiente estudantil são cada vez mais complexas, em função de uma série de fatores internos e externos à escola, a interação com profissionais como psicólogos, pedagogos e orientadores educacionais pode contribuir e muito com o trabalho dos docentes. E um dos componentes da equipe pedagógica que, com sua atuação, qualifica o processo de ensino é o supervisor educacional.

Mestre em Educação, especialista em Administração, Supervisão e Orientação Educacional, o professor Marcos Pereira dos Santos há muito dedica-se a estudar o papel dos supervisores educacionais na escola. E uma das constatações a que chegou é que um dos impactos da falta desses profissionais é a sobrecarga no trabalho dos gestores escolares e dos, que ficam sem a devida assistência técnico-metodológica. “Isso provoca enormes fissuras principalmente no âmbito da aprendizagem e na estruturação do projeto político-pedagógico escolar”, ressaltou o especialista.

Autor do livro História da Supervisão Educacional no Brasil: Reflexões sobre Política, Pedagogia e Docência (Editora WAK), Marcos Pereira dos Santos, nesta entrevista, fala sobre o papel destes profissionais para a qualidade do ensino, os problemas que eles enfrentam nas escolas, a contribuição que podem trazer para o processo de ensino aprendizagem as mudanças na formação dos profissionais, entre outros aspectos. Estudioso da formação do magistério no país, o educador também salientou os principais problemas nesta área.

“A desvalorização dos profissionais da educação, o aligeiramento na formação inicial de professores, a carência de recursos materiais e financeiros, a mercantilização da educação no sentido de valor de uso, a qualidade dos cursos ofertados, o praticismo pedagógico e a fragmentação da profissão docente no contexto das políticas públicas educacionais do Estado capitalista se configuram como os principais elementos geradores das lacunas no processo de formação de educadores.”

FOLHA DIRIGIDA — O senhor é autor do livro “História da supervisão educacional no Brasil: reflexões sobre política, pedagogia e docência”. Pode nos falar sobre o papel que o supervisor educacional tem para o trabalho de uma escola?
Marcos Pereira dos Santos — 
Em linhas gerais, pode-se dizer que o trabalho realizado pelo supervisor educacional na escola brasileira de educação básica, principalmente nos dias atuais, têm se configurado como essencial e de extrema importância para o desenvolvimento das atividades escolares concernentes às questões didáticas, pedagógicas, curriculares, metodológicas e técnico-administrativas como um todo. Nesse sentido, a supervisão educacional ocupa lugar central no processo ensino-aprendizagem, uma vez que objetiva assessorar os professores em sua prática docente de sala de aula, tendo-se em vista o alcance de resultados satisfatórios no que diz respeito ao rendimento escolar dos educandos.

Que problemas acontecem, hoje, nas escolas, em razão da falta de supervisores educacionais?
A possível ausência de supervisores educacionais em algumas escolas brasileiras de educação básica, sejam elas de pequeno, médio ou grande porte, é decorrência de lacunas e ranços históricos existentes no campo das políticas educacionais. Dessa forma, os problemas causados por esses fatores atingem diretamente o aspecto didático-pedagógico da escola, sobrecarregando o trabalho dos gestores escolares e deixando os professores sem a devida e necessária assistência técnico-metodológica quanto às melhores formas de conduzir sua atividade docente em sala de aula. Isso provoca enormes fissuras principalmente no âmbito da aprendizagem e na estruturação do projeto político-pedagógico escolar a partir da unidade teoria-prática.

Com o passar do tempo, esse profissional passou a ser mais ou menos valorizado nas escolas? Por quê?
Não se trata exatamente de menor ou maior valorização desse profissional da educação. O supervisor educacional, diferentemente de muitas décadas anteriores, passou a não mais desenvolver um trabalho isolado, técnico e essencialmente fiscalizador-burocrático junto à escola e ao corpo docente. Com o advento da globalização, as mudanças nas legislações educacionais e, consequentemente, com a nova estruturação dos próprios cursos de Licenciatura em Pedagogia, o supervisor exerce, hoje, uma função de co-responsabilidade e parceria ativa para com os demais profissionais da educação (diretor escolar e orientador educacional) que integram a chamada “equipe de coordenação pedagógica” ou “equipe gestora da escola”; visando assim ressignificar seu trabalho e pensar-fazer a instituição-escola muito mais em termos qualitativos do que quantitativos.

Que problemas acontecem, hoje, nas escolas, em razão da falta de supervisores educacionais?
A possível ausência de supervisores educacionais em algumas escolas brasileiras de educação básica, sejam elas de pequeno, médio ou grande porte, é decorrência de lacunas e ranços históricos existentes no campo das políticas educacionais. Dessa forma, os problemas causados por esses fatores atingem diretamente o aspecto didático-pedagógico da escola, sobrecarregando o trabalho dos gestores escolares e deixando os professores sem a devida e necessária assistência técnico-metodológica quanto às melhores formas de conduzir sua atividade docente em sala de aula, o que provoca enormes fissuras principalmente no âmbito da aprendizagem e na estruturação do projeto político-pedagógico escolar a partir da unidade teoria-prática.

De que forma a falta de supervisores educacionais prejudica o trabalho das escolas? Isso sobrecarrega os professores? De que forma?
Sem a presença do profissional supervisor é praticamente impossível que a escola realize um trabalho didático-pedagógico de qualidade. Digo isso, porque acredito ser o supervisor educacional o elemento-chave, o orientador-mediador das ações práticas da escola e do trabalho docente como um todo; sendo o principal responsável, em grande parte, pelos êxitos e possíveis fracassos verificados no processo ensino-aprendizagem escolar, seja a curto, médio ou longo prazo.

Como o senhor avalia a qualidade da formação dos supervisores educacionais, hoje em dia? Tem piorado, ao longo dos últimos anos?
Primeiramente, faz-se necessário destacar que a formação de supervisores educacionais deve ocorrer necessariamente em cursos de graduação em Pedagogia. Embora no início da década de 1990 os cursos de Licenciatura em Pedagogia, no Brasil, tenham passado por um amplo processo de reformulação em termos de grade curricular, fundamentação teórica, carga horária destinada à prática de estágios supervisionados, perfil do profissional para o mercado de trabalho entre outros fatores; considero ser bastante arriscado e ainda cedo demais para afirmar em que sentido e grau de intensidade tais modificações têm afetado a qualidade dos cursos de Pedagogia e, consequentemente, a prática profissional dos supervisores-pedagogos em espaços escolares e não escolares de ensino. Entretanto, tenho observado como docente em cursos de formação inicial e continuada de professores que os supervisores educacionais e demais profissionais da educação têm procurado, salvo raras exceções, realizar um trabalho eficiente e significativo em prol da construção de uma sociedade cada vez mais justa, equânime e democrática.

Com o passar das últimas décadas, as competências didático-pedagógicas e técnico-metodológicas do supervisor educacional mudaram? De que forma?
Para ser mais incisivo, diria que tanto as competências quanto as habilidades e formas de pensar-fazer Educação têm sofrido profundas e significativas alterações por parte do supervisor educacional no desenvolvimento de suas atividades didático-pedagógicas e técnico-metodológicas no âmbito da escola, principalmente a partir dos anos 90, quando da transposição do trabalho de uma SUPERvisão gerencial-empresarial burocrática para uma superVISÃO gestora escolar democrática. Tais modificações, por sua vez, podem ser observadas em aspectos teóricos e práticos, ou seja, desde o perfil curricular dos atuais cursos de licenciatura em Pedagogia ofertados pelas instituições de ensino superior até o trabalho final efetivamente realizado pelos supervisores educacionais nos diferentes níveis e modalidades de ensino da educação básica.

Para a elaboração de seu livro, o senhor acompanhou o trabalho de supervisores educacionais? Entre os que estão em atividade, quais os principais problemas que eles enfrentam no dia a dia?
O livro de minha autoria é fruto de intensa pesquisa bibliográfica e documental, aliada a relatos de experiências de supervisores educacionais em atividade na educação básica e vivências pessoais de minha parte enquanto formador de formadores em cursos de Licenciatura em Pedagogia. Nesse sentido, posso afirmar categoricamente que muitos avanços foram conquistados pela categoria profissional dos supervisores educacionais ao longo dos tempos. Entretanto, um ranço bastante latente ainda pode ser verificado em relação à identidade do curso de Pedagogia e ao papel do supervisor-pedagogo na escola brasileira, uma vez que professores de diferentes áreas do conhecimento tendem a considerar esse profissional da educação como uma espécie de “intruso”, mandatário e fiscalizador burocrático da atividade docente, e não como alguém que deve estar na escola para assessorar os educadores nas questões didático-pedagógicas da docência e esclarecer suas dúvidas em relação ao uso de técnicas e metodologias alternativas de ensino, procedimentos interventivos no combate às dificuldades de aprendizagem dos alunos entre outros fatores relacionados ao saber-fazer docente em sala de aula.

Uma de suas linhas de pesquisa é a formação de professores. Quais os principais problemas que ainda existem no processo de formação de nossos docentes, em especial, na educação básica?
No Brasil, de modo especial, os problemas verificados em cursos de formação inicial de professores são decorrentes de embates ideológicos e fatores de ordem política, econômica, social e também cultural. É uma questão complexa e ainda bastante polêmica, visto que envolve rupturas paradigmáticas nos diferentes sistemas educacionais de ensino. Em linhas gerais, pode-se dizer que a desvalorização dos profissionais da educação, o aligeiramento na formação inicial de professores, a carência de recursos materiais e financeiros, a mercantilização da educação no sentido de valor de uso, a qualidade dos cursos ofertados, o praticismo pedagógico e a fragmentação da profissão docente no contexto das políticas públicas educacionais do Estado capitalista se configuram como os principais elementos geradores das lacunas no processo de formação de educadores, tanto via educação presencial quanto na modalidade a distância.

A seu ver, o que precisaria mudar nos cursos de formação de professores?
Entendo que os atuais cursos de formação de professores estão, de certa forma, bem estruturados em termos de filosofia de trabalho e linhas de ação. Todavia, necessitam ainda estar mais voltados à realidade concreta da escola brasileira, a qual carece de melhorias urgentes em sua infraestrutura e organização do trabalho didático-pedagógico. Além desse fator, acredito também que os cursos de Licenciatura precisam investir mais na formação de professores-pesquisadores, bem como na reflexão acerca da importância do profissional da educação na sociedade contemporânea e na indissociabilidade existente entre teoria e prática, sem correr o risco de efetuar o “esvaziamento” de uma em detrimento de outra dimensão do processo educativo.

Muitos defendem que os problemas no ensino brasileiro estão diretamente relacionados à má qualidade da formação de nossos professores. O senhor concorda? Ou há outros fatores mais determinantes, como infraestrutura das escolas, salários pagos aos docentes e condições de trabalho inadequadas?
Os problemas da educação brasileira têm raízes históricas e constituem um espectro de fatores determinantes que estão, direta ou indiretamente, relacionados em algum contexto. Digo isso porque assim como não existe possibilidade de dissociar a teoria da prática, não há também como pontuar os problemas do ensino brasileiro sem que se faça menção aos agravantes de ordem social, econômica, política e cultural; os quais afetam a universidade e a instituição-escola de forma bastante intensa, ocasionando ranços na formação inicial e continuada dos docentes, na infraestrutura escolar, nos planos de carreira, nas condições de trabalho dos professores e na implementação de políticas públicas educacionais em níveis de intensidade e dimensões circunstanciais notadamente variáveis.

Tem sido cada vez mais comum a implantação de programas nos quais os professores recebem computadores, notebooks ou mesmo, no caso mais recente, tablets, do governo federal. Ações com essa, efetivamente, produzem resultados positivos?
Não há como desconsiderar a importância das ferramentas tecnológicas no contexto educacional contemporâneo. No entanto, é preciso que as tecnologias de informação e comunicação sejam utilizadas de forma adequada por professores e alunos no processo de ensino e aprendizagem, respectivamente. Elas se configuram como excelentes recursos didáticos na medida em que são entendidas enquanto meios auxiliares à prática pedagógica do professor e instrumentos ‘facilitadores’ do aprendizado na escola. Não basta apenas possuir a disposição uma variada gama de tecnologias digitais. É necessário, em primeiro lugar, avaliar em que circunstâncias elas poderão efetivamente contribuir para a conquista de uma educação de qualidade, de forma que o professor não venha a deixar de ter voz e vez nas relações que se estabelecem entre ensino, pesquisa e aprendizagem no âmbito escolar.

O senhor possui experiência profissional na educação infantil, no ensino fundamental, no ensino médio e na educação superior pública e privada. Na sua opinião, em qual segmento as condições de trabalho para o professor são piores? Por quê?
De modo geral, todos os níveis e modalidades de ensino, nos setores público e privado, apresentam algumas carências e mazelas específicas. Não há como ocultar essa realidade, infelizmente. Todavia, entendo que a educação básica como um todo seja o nível escolar que mais enfrenta obstáculos e desafios no atual momento histórico, dada a falta de recursos materiais e verbas públicas que atendam às reais demandas da escola, os entraves na contratação de professores a cada início de ano letivo, a crescente disseminação da violência escolar, a ausência de uma participação mais ativa da família junto à escola, a baixa remuneração salarial dos docentes, o desinteresse de muitos alunos pela aprendizagem entre tantos outros fatores que dificultam sobremaneira o trabalho dos professores, fazendo assim com que a Educação continue sendo relegada a segundo plano; embora muitas vezes o discurso teórico apresentado insista em afirmar o contrário.

Folha Dirigida