Para pesquisador, rótulo de dislexia é usado como desculpa pelos pais

Segundo psicólogo inglês, pais de classe média usam distúrbio para encobrir falhas como preguiça e dificuldade na aprendizagem


Crianças participam de roda de leitura em escola pública no Ceará
Foto: Jarbas Oliveira / Agência O Globo
Crianças participam de roda de leitura em escola pública no Ceará Jarbas Oliveira / Agência O Globo

RIO – A dislexia é um rótulo sem sentido. A afirmação é do psicólogo educacional e ex-professor de necessidades especiais Julian Elliott, que considera o distúrbio uma espécie de desculpa usada pelos pais de classe média para encobrir falhas como preguiça e dificuldade na aprendizagem por parte de seus filhos. Entretanto, o especialista da Universidade de Durham, na Inglaterra, não nega que algumas crianças possuem, de fato, problemas complexos de leitura.

Para Elliott, a definição de dislexia é tão ampla que torna impossível fazer qualquer separação significativa de outras pessoas que apresentem diferentes dificuldades em leitura. Em entrevista para o “Mail Online”, ele defende que, no lugar de submeter as crianças a testes diagnósticos caros e demorados, as escolas devem se concentrar em identificar desde cedo aqueles que lutam para ler e tratar todas as pessoas com problemas iguais.

“Você tem uma longa lista de sintomas para Dislexia, como ansiedade ao ler em voz alta. Mas isso pode ser esperado de qualquer criança que está aprendendo a ler”, exemplificou o professor Elliott . “Você mostra a um pai esta lista de sintomas e eles dizem: ‘Você tem razão, eu não sabia que meu filho era disléxico’.”

Para ele, enquanto os pais só quererem o melhor para seus filhos, acabam sendo “lamentavelmente enganados sobre o valor de um diagnóstico de dislexia”.

Na opinião do professor, como as crianças diagnosticadas com a condição podem obter mais ajuda no ensino individual e tempo extra para fazer exames, os pais também se beneficiam com o rótulo. De acordo com o especialista, diagnósticos de dislexia são mais difundidos entre famílias mais ricas, já que os pais de classe média tendem a procurar esse tipo de avaliação, com medo de que seus filhos sejam julgados como lentos ou preguiçosos.

“A maioria dos pais está muito satisfeita com o rótulo”, disse o professor à reportagem. “Profissionais me disseram que concordam, mas eles ainda usam o termo, porque ele faz as pessoas felizes.”

Em 2009, um inquérito do Comitê em Alfabetização concluiu que a definição de dislexia era demasiado ampla para ser significativo. O comitê também acusou o governo britânico de ceder à pressão do “lobby dislexia” na formulação de sua política educacional.

Por outro lado, a reportagem também mostrou que as instituições de pesquisa defendem que a dislexia tem valor científico e educacional. A Associação Dislexia Britânica estima que 10% dos britânicos sofrem do distúrbio, que provoca dificuldade em aprender a soletrar, ler e escrever.

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