Alunos desmotivados

“O importante, portanto, é a motivação para aprender, o desejo de aprender”

Uma avaliação escolar de grande renome – o Programa de Avaliação de Estudantes Internacionais (Pisa) – mostra com toda evidência que alunos socioeconomicamente privilegiados, cujos pais têm uma escolaridade elevada, possuem uma boa aprendizagem escolar e que alunos socioeconomicamente carentes têm um baixo nível de participação e engajamento na escola, um baixo nível de motivação e dedicação aos estudos e uma baixa autoestima com, portanto, uma aprendizagem deficiente. Mas essas características não possuem uma força absolutamente determinante. Alguns alunos, 6%, apresentam um alto grau de resiliência e conseguem quebrar esses condicionantes e igualar-se a alunos com alto grau de sucesso. Isso significa que além de fatores externos ao aluno, tais como, escolaridade dos pais, situação de classe socioeconômica, ambiente social, há fatores internos, próprios à criança e ao adolescente que os levam a desenvolver uma intensa vontade de aprender.

Essas observações se aplicam com muita força ao Ceará e ao Brasil. Além de outros achados do Pisa, ficou comprovado ainda que alunos dentro de um sistema escolar altamente estratificado conseguem resultados escolares inferiores a alunos em um sistema escolar menos estratificado. Como o sistema escolar cearense e brasileiro são estratificados ao extremo, com a divisão entre escolas particulares e escolas públicas, escolas particulares “top” recrutando alunos grandemente avantajados socioeconomicamente e escolas também, particulares, que recebem alunos de famílias menos abastadas, torna-se fácil compreender as iniquidades de nosso sistema escolar e suas insuficiências para o desenvolvimento do estado e do país.

Assim, o grande divisor d´água parece ser a motivação para a aprendizagem. A criança e o adolescente criados em famílias com pais escolarizados e abastados recebem deles a motivação necessária para o estudo e um acompanhamento diário e severo ao ponto de se poder escrever que não são as escolas particulares que são boas, mas são as famílias que proporcionam a atitude necessária a uma boa aprendizagem. Ao preconizar uma divisão de classe entre alunos e escolas (colégios), a sociedade (todos nós) somos responsáveis por nossa pobreza educacional, privando-nos, portanto, da possibilidade de criticar de fora a “fraqueza” da escola pública, obra nossa.

O importante, portanto, é a motivação para aprender, o desejo de aprender. A distinção entre “alunos motivados” e “alunos desmotivados” existe também dentro do sistema público de ensino. Há escolas estaduais de ensino médio em que os alunos são extremamente motivados e apresentam uma dedicação heroica aos estudos, com resultados escolares positivos. Há outras, a maioria, em que o grau de motivação dos alunos é tão baixo que o diretor da escola passa a maior parte de seu tempo “tangendo os alunos” para dentro das salas de aulas sem clima para um ensino sustentado. Onde há motivação, há organização, disciplina, tempo letivo plenamente utilizado, tarefas de casa cumpridas, interesse redobrado dos professores e a aprendizagem flui. O questionamento e o desafio número um de uma política educacional são: como motivar alunos que não são motivados pelo meio familiar e social e não encontram dentro de si uma motivação resiliente aos obstáculos externos (família e meio social)?

André Haguette
haguette@superig.com.brcom.br
Sociólogo e professor da Universidade Federal do Ceará (UFC)

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