Livro infantil não é só educativo, diz presidente de associação de escritores e ilustradores

Elaine Patricia Cruz – Agência Brasil

 São Paulo – Crianças leem em livraria de São Paulo (Marcelo Camargo/ABr)

São Paulo – Monteiro Lobato, Ziraldo e Ruth Rocha são alguns dos grandes escritores que ficaram conhecidos no país por suas histórias destinadas ao público infantil. Mas apesar de tão conhecida, a literatura infantil ainda é um mercado novo no Brasil, na opinião do presidente da Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil (Aeilij), Hermes Bernardi Jr.

O escritor e ilustrador de livros infantojuvenis acredita que só recentemente o mercado brasileiro entendeu que livro infantil não é sinônimo de livro educativo ou pedagógico. “Livro infantil não é só para educar a criança, mas para envolvê-la, com sensibilidade, a alguns aspectos que fazem parte da vida tais como o jogo, a relação, a brincadeira, o medo e o conflito”, disse ele em entrevista à Agência Brasil.

Bernardi Jr lembrou que a descoberta de que o livro infantil não tem que ser especificamente utilitário e pedagógico é recente. “Apesar de termos, lá atrás, [escritores como] Monteiro Lobato, Ziraldo, Ruth Rocha e Sylvia Orthof, [responsáveis] por momentos marcantes da literatura infantil e juvenil brasileira, [há apenas] uns dez ou 15 anos, vivendo esse outro momento, [de considerar o livro infantil como lúdico]”.

Para o escritor e ilustrador, o livro infantil não é apenas um objeto que tem uma função específica: é um objeto de arte. “Ele lida com dois elementos de narrativa, um deles, a palavra e o outro, a imagem, que qualificam o leitor em seu olhar diante do mundo”. Bernardi Jr lembrou que a literatura infantil não é escrita tão somente para crianças. “A criança para a qual eu escrevo habita um corpo. Mas a idade desse corpo não me interessa. Todos temos, dentro de nós, uma criança. Podemos escrever livros infantis para crianças de qualquer idade”.

Segundo ele, o setor tem se renovado nos últimos anos, favorecido, entre outros fatores, pelo uso da tecnologia. “Isso colaborou para que tivéssemos parques gráficos mais ousados e bem equipados no Brasil. E aí os artistas da palavra e da imagem começaram a ficar um pouco mais ousados e a recriar esse espaço e esse universo do livro, criando, inclusive, esse produto que chamamos de livro-brinquedo, que tem textura, cheiro etc”.

Mas a principal renovação do setor, para ele, está em outro aspecto fundamental: “Como há muitas pessoas do design e da publicidade envolvidas na feitura de um livro infantil e juvenil, ele está começando a virar um produto com muito mais arte”.

“Descobrimos há pouco a literatura infantil e juvenil brasileira e todos os recursos que podemos criar ali, principalmente de cor, de encadernação. Há pouco tempo as editoras brasileiras estão fazendo livros com capa dura, o que na Europa já se faz há centenas de anos”, citou.

O mercado de livros infantojuvenis cresceu no país nos últimos anos, disse Bernardi Jr. “De fato tem aumentado o número de escritores de livros infantis no Brasil e também de ilustradores. É um mercado que cresceu muito principalmente por causa de todos os programas de governo de aquisição de obras para as bibliotecas escolares e públicas”. Mas apesar desse crescimento, o brasileiro ainda lê e consome poucos livros.

“O Brasil precisa, na verdade, consumir mais livros na livraria. O brasileiro precisa ir à livraria e comprar livros de autores e ilustradores brasileiros”, defendeu. Para ele, esse problema ocorre principalmente “porque o brasileiro não vê o livro como uma necessidade básica” e encara o livro, muitas vezes, como um objeto apenas didático. “O brasileiro precisa pensar melhor no livro, como um objeto de arte, onde ele se descobre, onde vê um outro modo de ver e de perceber o mundo”. Outro problema apontado por Bernardi Jr. é o fato de o país ter poucas livrarias e bibliotecas disponíveis nos municípios.

Por essa razão, Bernardi Jr. vê com bons olhos, por exemplo, iniciativas como as que pretendem incluir livros na cesta básica do brasileiro. “Isso seria um grande ganho para a sociedade como um todo. Receber um livro junto com a cesta básica e os alimentos já seria uma possibilidade de acesso”. Outra proposta que ele defende é a comercialização de livros a preços populares.

Para o presidente da associação, o hábito da leitura deve ser incentivado desde cedo. “A primeira relação que se estabelece com o livro, se ela for mediada com sensibilidade, [pode fazer] a criança estabelecer uma relação muito forte com o livro”. Bernardi Jr considera a mediação uma parte importante na criação do hábito. “Se houver uma boa e bem realizada mediação pela família, em primeiro lugar, e depois na escola e nas relações de amizade, o livro passa a ser um companheiro inseparável na vida de qualquer sujeito”.

No ano passado, durante a 22ª Bienal do Livro, em São Paulo, uma pesquisa feita para o Instituto Pró-Livro mostrou que a média de livros lidos por crianças e adolescentes é superior à dos adultos. A média geral anual de leitura em 2011 foi quatro livros por brasileiro; na faixa etária de 5 a 10 anos foram lidos 5,4 livros; na de 11 a 13 anos, 6,9 livros e na de 14 a 17 anos, 5,9 livros.

Pesquisa da Associação Nacional de Livrarias, feita entre julho e outubro do ano passado, revelou que 74% das livrarias pesquisadas comercializam livros infantis, número que só é menor do que o total de livrarias no país que comercializam livros religiosos (76%).

Edição: Tereza Barbosa