Bullying: um mal que atormenta as escolas

Este início de abril marca a primeira edição da Semana Estadual de Combate ao Bullying. Criada a partir de um projeto de lei sancionado no ano passado. É uma boa oportunidade para reunir estudantes, pais e professores e falar sobre um dos mais graves problemas enfrentados pelas escolas brasileiras atualmente.

Até o próximo dia 7, estará em vigor, no Estado do Rio, a semana de combate ao bullying. Ela é fruto de uma lei, criada no ano passado, com o intuito de incentivar escolas públicas e privadas a discutirem o tema com seus alunos. O mês de abril não foi escolhido por acaso: foi no dia 7 deste mês, há dois anos, que ocorreu a tragédia da escola Tasso da Silveira, em Realengo, na qual 12 crianças foram assassinadas por um ex-aluno, vítima de bullying quando estudou no mesmo colégio.
Há muito o termo bullying é conhecido dos educadores. Ele significa uma forma de violência, física ou moral, praticada de forma recorrente contra um indivíduo. Em geral, as vítimas são pessoas que não se encaixam nos padrões mais valorizados na sociedade. A perseguição pode ocorrer por motivos físicos, ou seja, por que o estudante é gordo ou magro demais, por ser baixinho, adotar um penteado ou usar roupas fora do comum, ou mesmo por ser portador de algum tipo de deficiência física. Pode ocorrer também por questões comportamentais. Nestes casos, os alvos preferidos são os mais tímidos, que conversam pouco e têm dificuldades de relacionamento social. Isto sem falar nos casos em que o constrangimento motivados por preconceitos de natureza étnica, religiosa ou relacionados à opção sexual.
O bullying vem assumindo proporções tão assustadoras que, para alguns educadores, como psicopedagoga e especialista em dificuldades de aprendizagem, Bianca Acampora, trata-se de um dos maiores desafios que as escolas enfrentam, atualmente. Para ela, o problema é agravado pelo fato de que a maior parte das instituições de ensino ou desconhecem o problema, ou não sabem como enfrentá-lo, ou, o que é pior, procuram não admitir a ocorrência do bullying entre seus alunos.
“Esse tipo de agressão geralmente ocorre em áreas onde a presença ou supervisão de pessoas adultas é mínima ou inexistente. Quando não ocorre uma efetiva intervenção contra o bullying, o ambiente fica contaminado e os alunos, sem exceção, são afetados negativamente, experimentando sentimentos de medo e ansiedade”, comentou a educadora, que também é pós-graduada em em Educação Infantil, em Arteterapia e em Educação e Saúde, além autora do livro Psicopedagogia Clínica: o despertar das potencialidades (Editora WAK).
São os dados sobre o tema, no país. Em 2009, a Ong Plan Brasil fez um estudo nacional com estudantes da educação básica, no qual 70% dos alunos afirmaram ter visto, pelo menos uma vez, algum colega ser maltratado no ambiente escolar. Dos entrevistados, cerca de 20% afirmaram terem presenciado agressões recorrentes a estudantes, o que seria um indício de presença de bullying.
Também de 2009, a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (Pense), do IBG, junto aos estudantes do 9º ano (8ª série) do ensino fundamental, trouxe indicadores sobre alunos que sentiram-se humilhados por provocações de colegas nas escolas. Do total, 25,4% afirmaram sofrer com este problema “raramente ou às vezes”. Dos entrevistados, 5,4% disseram passar por isso “quase sempre ou sempre”, sendo que, neste caso, a incidência maior é entre os meninos, com 6,0%, contra 4,8% das meninas.
Apesar dos poucos estudos sobre o assunto no país, a sensação é de que os casos de bullying têm crescido no ambiente escolar. Para Beatriz Acampora, uma das causas está no processo de desestruturação e de mudança de perfil pelo qual passaram as famílias, nas últimas décadas. Com a necessidade de pais e mães trabalharem fora, paulatinamente foi sendo passada só para as escolas o papel de cuidar, orientar e conscientizar jovens e crianças para o bom convívio. “A escola tem cada vez mais um número crescente de alunos advindos de famílias desestruturadas ou que não dão apoio emocional à suas crianças. E os autores das agressões geralmente são pessoas que têm pouca empatia, pertencentes a famílias desestruturadas, em que o relacionamento afetivo entre seus membros tende a ser escasso ou precário”, afirmou a especialista.
Escolas têm papel importante
para identificar casos de bullying
O bullying, que vem causando muita dor de cabeça em diretores, pais e professores, é um problema que ganha mais notoriedade a cada revelação feita por um aluno que sofre alguma agressão frequente, em especial, na escola. O enfrentamento deste problema, caracterizado pela perseguição sistemática a um indivíduo considerado diferente dos demais, é dificultada pelo medo que os estudantes têm de revelar que estão sofrendo algum tipo de ataque.
Cabe então, aos professores, ficarem atentos aos sinais de possíveis casos que estejam acontecendo em segredo. No caso dos alunos, segundo Beatriz Acampora, a pior saída é o silêncio. Já aos professores, ela recomenda atenção, principalmente, aos estudantes mais retraídos. “Os pais devem procurar sempre perguntar ao filho se tudo está ocorrendo bem na escola e sentir se a criança esta feliz, se gosta de ir ao colégio, se tem amigos”, salientou a educadora.
Beatriz Coutinho, coordenadora pedagógica do 6° ao 9° ano do colégio Paranapuã, localizado na Ilha do Governador, que na última quarta, dia 27, promoveu uma palestra sobre o tema junto a seus alunos, diz que, na escola, o passo inicial é dado em sala de aula. “O primeiro acompanhamento é feito em sala, com a ajuda do professor, porque ele possui um contato maior com os alunos. Os casos revelados são levados à coordenação e nós tentamos trabalhar da melhor forma possível”, comenta Beatriz.
Ela acredita que o papel da escola é manter uma relação estreita com os estudantes e mostrar o caminho certo, a partir de modelos corretos de comportamento, aos alunos que agem de maneira agressiva com os colegas. “Quando trabalhamos em grupo, principalmente com adolescentes, devemos sempre indicar o jeito certo de agir com bons exemplos.”
Para a professora de Português Mônica Jogas, há duas formas básicas do problema: o que ela chama de bullying direto, quando a vítima é diretamente atacada pelo agressor, e bullying indireto, a seu ver até mais grave, quando o agressor utiliza de rumores e fofocas para atingir. Para a professora Mônica, o bullying nunca esteve tão em evidência. Por isso, ela acredita que esse é o momento para enfrentar este mal. “Isso sempre existiu, porém, mascarado. Nós só víamos os reflexos, pessoas crescendo com problemas, agindo violentamente por conta disso. Agora temos uma boa chance em mãos.”
O professor Walter Alencar, coordenador do Colégio Paranapuã, afirma que alguns casos de bullying acontecem na infância, mesmo que a criança não tenha conhecimento do que a expressão significa. Segundo ele, a exclusão nessa idade não é feita por maldade. “Há pessoas que fazem isso de uma forma muito ingênua, quando estão brincando e proíbem que um colega participe. Ela não faz isso de forma articulada, mas apenas porque naquele momento ela não está disposta a interagir com aquele amigo, e se ela exerce uma postura de liderança, ela acaba convencendo os outros.”
Para o professor de música Julio Paredes, muitas crianças encontram na arte uma forma de se ver livre da perseguição, encontrando ali, seus semelhantes. “Durante algum tempo trabalhando nessa área, pude observar que existem pessoas que são discriminadas em sala de aula por serem mais tímidas e retraídas. Esse preconceito existe. Porém, quando essas pessoas encontram uma manifestação artística com que se identificam, elas passam a ser mais queridas por aquilo que estão fazendo.”
Folha Dirigida