Dislexia afeta 7% das crianças

Jonathan Campos/ Gazeta do Povo / Tatiane Cardoso Dorte, 29 anos, com o filho Yan: recuperação rápida após diagnósticoQuanto antes for identificado o transtorno, menores os prejuízos acadêmicos, sociais e psicológicos para crianças e suas famílias

ADRIANA CZELUSNIAK

Quando a mãe de Yan, 7 anos, descobriu que o filho tinha dislexia, o menino já havia mudado de escola três vezes por causa de dificuldades no aprendizado. A identificação do problema foi o caminho para que ele finalmente começasse a evoluir nos estudos. Refeitas com um novo método, suas provas que antes tinham notas baixas hoje têm 9 ou 10, resultados que restituíram o interesse pela escola e a aceitação dos colegas.

A história de Yan não é um caso isolado. A dislexia afeta cerca de 7% das crianças, a maioria meninos. Apesar da grande incidência, muitas escolas e professores ainda não estão preparados para lidar com esse transtorno, de difícil diagnóstico. De origem neurobiológica e genética, a dislexia pode comprometer o desenvolvimento das habilidades de escrita, decodificação e pronunciação das palavras. Se tratado a tempo, no entanto, o distúrbio não chega a prejudicar a aprendizagem das crianças.

Bê a bá da Dislexia

Confira os sinais mais comuns desse transtorno de aprendizagem nas crianças:

– Na escrita, troca letras, junta palavras que são escritas separadas e separa as que são escritas juntas. Copiar do quadro ou do livro é desgastante.

– O disléxico tem prejuízo da coordenação motora fina, letra feia e irregular e dificuldade para passar da letra de forma para a de mão ou cursiva.

– É mais complicado para aprender Matemática, decorar a tabuada e entender os enunciados de problemas. É difícil conseguir a compreensão e reter informações na leitura.

– A compreensão de textos é difícil, a criança se sai melhor quando ouve a história e também se expressa melhor oralmente que na escrita.

– Como tem confusa a relação entre as partes, não consegue montar quebra-cabeças com a mesma destreza que outros da sua idade.

– É desatenta e dispersa. Cansa e abandona ações antes de completá-las. Tem vocabulário pobre.

– Demonstra má vontade na hora de ir para a aula. Pode faltar e esquecer propositalmente materiais em casa para que não percebam que não conseguiu fazer a tarefa.

– Aprender inglês é muito difícil, disléxicos do mundo todo sofrem com isso. Já com idiomas como italiano e espanhol o aprendizado é mais fácil, pois é mais coerente a relação entre som e grafia.

– Se a pessoa cresce sem ser diagnosticada, geralmente começa a investigar o que está atrapalhando seu desenvolvimento no trabalho, na faculdade ou quando vai prestar vestibular e concursos.

– Tem dificuldade com rimas, para soletrar, separar e sequenciar sons ou em discriminar fonemas homorgânicos (p-b, t-d, f-v, k-g, x-j, s-z).

Conheça mais

Confira sites e livros que abordam o tema:

Sites:

Associação Nacional de Dislexia:http://www.andislexia.org.br/

Associação Brasileira de Dislexia:http://www.dislexia.org.br/

Livros:

A vida secreta da criança com dislexia, de Robert Frank

A dislexia em questão, de Giselle Massi

Aprendizado e suas desabilidades – Como lidar?, de Abram Topczewski

Manual dos Transtornos Escolares, de Gustavo Teixeira

Diagnóstico

Todos os meses cerca de 2 mil pessoas procuram a Associação Brasileira de Dis­lexia (ABD), em São Paulo, em busca de mais informações sobre o transtorno. Em geral, os pais decidem investigar o problema quando a criança já teve alguns anos de escolarização, com desempenho escolar ruim, dificuldades de socialização e baixa autoestima. Nesse cenário, a descoberta de que a criança poderá superar esses obstáculos é um alívio para muitas famílias.

“O disléxico evolui de forma consistente se conta com um acompanhamento adequado”, diz a neuropsicóloga da ABD Maria Inez Ocanã De Luca. De acordo com a especialista, o estudante com dislexia deve estar inserido na sala de aula comum, com pequenas mudanças. “A prova escrita, por exemplo, não é o melhor método. É mais indicado fazer o exame em uma sala em separado, com alguém lendo as questões e com tempo maior para que elas sejam respondidas”, afirma.

Assim como os óculos auxiliam quem não enxerga bem e as muletas são importantes para quem tem mobilidade reduzida, os disléxicos também precisam de instrumentos pedagógicos para enfrentar seus limites. A neuropediatra Mauren Bodanese explica que esse entendimento é fundamental no acompanhamento dessas crianças, e que as escolas precisam estar dispostas a ajudar. “Enquanto a criança não adquirir a habilidade da leitura e interpretação, como vai ser avaliada no que não sabe fazer? Não é como colocar o cadeirante no colo, mas disponibilizar uma rampa para ele subir”, diz.

Além do acompanhamento adequado, família e escola precisam trabalhar juntas. Na opinião de Fátima Minetto, mestre em Educação e doutora em Psicologia, é necessário que os responsáveis pela criança compreendam a dislexia e saibam como agir. “Não saber do diagnóstico do filho faz com que a criança se construa pelo olhar da angústia dos pais. Isso dificulta que um adulto com dislexia tenha uma vida normal e capaz”, alerta.

Acompanhamento

Com a suspeita de dislexia, a criança precisa de atendimento especializado. Veja o que fazer:

– Para a Associação Brasileira de Dislexia, o ideal é que a criança seja levada a atendimento especializado após o início da escolarização, quando ela começa a ter dificuldades para escrever ou na compreensão de textos.

– Descartada a falha pedagógica da escola, é preciso buscar ajuda profissional. A orientação de um neuropediatra é importante para descartar outros problemas, como deficiência intelectual.

– Em uma avaliação multidisciplinar, exames de exclusão devem ser feitos, como os que verificam deficiências auditivas e visuais, lesões cerebrais e desordens afetivas. Vários profissionais fazem esse trabalho, como fonoaudiólogos e psicopedagogos. Quando há prejuízo emocional, o acompanhamento psicológico é fundamental.

– Além de contar com um ambiente de leitura adequado em casa, silencioso e sem distrações no entorno, as crianças devem saber que têm a dislexia. Assim, podem entender o motivo de suas dificuldades e saber reagir perante as prováveis dificuldades com os estudos e colegas.

– A escola deve atender de forma diferenciada os alunos com dislexia, como é previsto por lei. As modificações vão desde a oferta de tarefas e avaliações diferenciadas, às vezes em forma oral, até mais tempo para a resolução.

– Os pais precisam ser os principais aliados. Além de terem paciência nos momentos de lição de casa e de incentivarem o aprendizado, especialistas sugerem que os pontos positivos da criança sejam elogiados, como os desenhos bonitos que faz, o comportamento atencioso com colegas, a ajuda em casa etc.

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