Em estudo com alunos, 37% disseram acreditar que há racismo na escola

Uma pesquisa feita por um professor do curso de Direito da Universidade Federal Fluminense (UFF) evidenciou que alunos têm a percepção de que há racismo no Brasil. No estudo, feito com 213 alunos de cinco escolar particulares escolhidas de forma aleatória, da cidade de Niterói, 86,9% dos participantes afirmaram acreditar que as práticas de preconceito de cor são uma realidade no país.

Dos entrevistados, apenas um respondeu não. O restante, (27 alunos) reconheceram a existência do racismo, porém a partir da resposta “mais ou menos”, o que geraria uma interpretação de eles acreditam que o preconceito existe, mas, que não seria tão evidente.
O estudo foi feito pelo advogado especializado em Direito Educacional e doutor em Política Social pelo Programa de Pós-Graduação em Política Social da Universidade Federal Fluminense (UFF), Carlos Alberto Lima de Almeida. Os principais resultados serão apresentados nesta quinta-feira, dia 19, no evento da Série Justiça e Pensamento, que será realizado a partir das 19h no Centro Cultural Justiça Federal.
Na pesquisa, os estudantes receberam um formulário em que informavam uma situação na qual presenciaram algum tipo de atitude que pode ser considerada racista. A partir das respostas, o pesquisador as agrupou, definindo categorias. Entre os casos enquadrados como “nomeação genérica”, a mais frequente na pesquisa, por exemplo, estavam piadas sobre cor da pele, situações em que um alguém era chamado de “negrinho”, atribuição de apelidos em função da cor da pele, entre outras.
A pesquisa também procurou verificar se os alunos se consideram racistas. Neste caso, a maioria respondeu que não: 82,2%. Só dois alunos admitiram ser preconceituosos e outros dois não quiseram responder. A contradição entre as respostas às duas perguntas estratégicas do estudo (se existe racismo no país e se a pessoa se considera racista), segundo o doutor Carlos Alberto Lima de Almeida, mostra que um aspecto importante da visão que a sociedade em geral possui a respeito do preconceito racial. “Tal constatação converge para o discurso de que o problema do racismo não está em cada um de nós, mas no outro”, declarou o pesquisador.
Outro dado preocupante da pesquisa é sobre a visão dos entrevistados a respeito do racismo no ambientes escolar. Segundo o professor Carlos Alberto Lima de Almeida, mais de um terço responderam que já presenciaram ou tomaram conhecimento de alguma situação de racismo na escola. Para o autor do estudo, é um indicador que deve motivar a reflexão das instituições de ensino sobre o que fazer para fortalecer uma cultura de paz no dia a dia dos estudantes.
“É expressivo o percentual alcançado pelo fato de que a pergunta contextualizava a hipótese de racismo nas escolas em que a pesquisa foi realizada. As informações agrupadas oferecem, em resumo, um rico material para exame e reflexões sobre possíveis estratégias para abordagem do tema com os alunos em sala de aula”, destacou o especialista em Direito Educacional.
Palestra discutirá problemática das relações étnico-raciais
O advogado especializado em Direito Educacional e doutor em Política Social pelo PPGPS-UFF, Carlos Alberto Lima de Almeida, é o convidado da Série Justiça e Pensamento, no Centro Cultural Justiça Federal, nesta terça-feira, dia 19, às 19h.  Neste evento, organizado pela Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe) e pela Associação Federal dos Juízes Federais do Rio de Janeiro e Espírito Santo (Ajuferjes), com entrada franca, o advogado ministrará a palestra/debate: “Vamos colocar o Preto no Branco? A percepção dos alunos sobre racismo, antirracismo e a Lei 10.639/2003″.
Na palestra/debate, coordenada pela juíza federal Angelina de Siqueira Costa, o advogado Carlos Alberto apresentará fatos com base no resultado da pesquisa de campo, obtido a partir das respostas oferecidas por alunos do 9º ano do ensino fundamental, revelando suas percepções sobre o racismo nas escolas e as atitudes adotadas pelos profissionais da educação em situações concretas.  Um dos objetivos do debate é oferecer a professores, coordenadores, e diretores de escola interessados no tema, a oportunidade de refletirem sobre a realidade das relações interpessoais travadas no ambiente escolar.
FOLHA DIRIGIDA – Qual a importância de estudantes, pais e profissionais de educação discutirem e refletirem sobre a questão do racismo, dentro e fora das escolas?
Carlos Alberto Lima de Almeida 
– Esta tese discute, a partir de reflexões relacionadas à alteração instituída na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, por intermédio da Lei 10.639/2003 (que alterou a Lei 9.394/1996 para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”), a problemática das relações étnico-raciais no ambiente escolar, revelando a importância do tema no campo da política social brasileira.
Quais os objetivos principais desta pesquisa?
A pesquisa teve como objetivos gerais contribuir para a produção de conhecimentos relativos à operação do racismo na sociedade brasileira, em especial no campo da política de educação; e verificar as estratégias que os profissionais da educação, tais como professores, coordenadores e diretores de instituições de ensino vêm utilizando para enfrentar o problema.
Quantas escolas, alunos e profissionais da educação estiveram envolvidos na pesquisa?
O trabalho de campo envolvendo a pesquisa foi realizado a partir de uma direção metodológica voltada para a produção, organização e análise de dados quantitativos, por meio da criação de um banco de dados, porém, sem qualquer pretensão de representatividade estatística nem em relação às escolas escolhidas, nem no que se refere aos alunos que responderam ao questionário. A amostra envolveu cinco escolas particulares. Foram aplicados questionários a 213 alunos do 9º ano do ensino fundamental. Também foram entrevistados 30 profissionais envolvidos com a educação escolar, sendo sete envolvidos com a gestão da escola, entre direção administrativa e/ou pedagógica, sete coordenadores, entre de coordenação geral e/ou de segmento, e 16 professores, sendo quatro de história, dois de Português/Redação/Literatura Portuguesa, três de Matemática, seis de Geografia e um de Filosofia. As entrevistas foram realizadas de acordo com a disponibilidade apresentada pelas instituições de ensino e profissionais presentes, considerando o período em que foi feita a coleta de dados em cada escola.  No debate da Série Justiça e Pensamento apresentarei especificamente dados da pesquisa relacionados aos alunos.
Como foi definida a amostra? 
Foram considerados dados estatísticos relacionados ao município de Niterói, no Estado do Rio de Janeiro, centrando o esforço numa amostra envolvendo alunos do 9º ano do ensino fundamental de escolas da rede privada, situadas no bairro de Icaraí, na Região das Praias da Baía, onde se encontra, segundo dados extraídos de pesquisa realizada pela Fundação Getúlio Vargas com base nos dados demográficos do CENSO 2010, um recorte de concentração da elite de renda no município de Niterói, onde em tese estão matriculados os filhos daqueles que supostamente estão neste contexto de renda familiar elevada. Neste sentido, o conjunto de ideias e informações sobre temas como raça/cor, racialismo, racismo à brasileira e discriminação racial, bem como os conceitos extraídos do Estatuto da Igualdade Racial, tais como discriminação racial ou étnico-racial, desigualdade racial, desigualdade de gênero e raça, população negra, políticas públicas e ações afirmativas, foram enfrentados na pesquisa realizada.
Folha Dirigida