Aproveitar recursos tecnológicos é uma das boas práticas docentes no ensino de matemática, aponta pesquisa

Aproveitar recursos tecnológicos é uma das boas práticas docentes no ensino de matemática, aponta pesquisaEstudo inédito da Fundação Victor Civita acompanhou aulas de professores da disciplina na rede estadual de São Paulo

Mariana Mandelli

Explorar a lousa e as ferramentas digitais, utilizar erros e dúvidas para construir conhecimento e contextualizar o conteúdo. Essas são algumas das boas práticas no ensino de matemática identificadas por uma pesquisa inédita no País. Além dessas três formas de ensinar, o levantamento da Fundação Victor Civita, realizado pela Fundação Cesgranrio com apoio do Instituto Unibanco e do Itaú BBA, apontou mais nove práticas consideradas eficientes na hora de ensinar os conteúdos numéricos aos estudantes da Educação Básica.

A seleção das melhores maneiras de efetivar o aprendizado na disciplina partiu da observação in loco do trabalho de 68 professores de matemática da rede estadual de São Paulo, que lecionam do segundo ciclo do Ensino Fundamental (5º ao 9º) ao Ensino Médio.

Dominar o conteúdo, empregando a linguagem correta; estruturar a aula, sempre retomando a anterior; respeitar o tempo de aprendizagem da diversidade dos alunos e promover o uso de estimativas também aparecem entre as doze experiências eficientes identificadas.

Além delas, a pesquisa mostra que comunicar o conteúdo com clareza; interagir com a turma; promover a interação dos estudantes; corrigir a lição de casa e incentivar as relações entre procedimentos também são modos indicados de melhorar a aprendizagem dos conteúdos matemáticos.

“É difícil medir o que é uma boa prática docente. É complicado captar os efeitos delas, porque envolvem fatores como motivação, crença na turma e gostar do que faz. Tudo isso pesa na qualidade do professor. Basear-se no desempenho dos alunos é um caminho e foi o que fizemos”, afirma a coordenadora da pesquisa, Nilma Fontanive, consultora da Fundação Cesgranrio.

Para chegar aos docentes que seriam observados, a pesquisa identificou os professores de matemática que apresentaram bom desempenho no processo de promoção por merecimento da rede estadual paulista em 2010. Dessa pré-seleção, cerca de 1.350 profissionais tinham as melhores notas.

O passo seguinte foi analisar o desempenho das turmas desses alunos em três edições do Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (Saresp): 2008, 2009 e 2010. O Saresp é uma prova aplicada anualmente na rede pública do Estado, em determinadas séries do Ensino Fundamental e Médio, para medir os conhecimentos dos estudantes em língua portuguesa, matemática e ciências humanas, essencialmente.

Após o cruzamento dos dados, os pesquisadores chegaram a um total de 120 professores de matemática, do qual 68 aceitaram que suas aulas fossem gravadas e acompanhadas. Esses docentes lecionam em diversas cidades do Estado de São Paulo, como Campinas, Bauru e Ilha Solteira, entre outras.

A equipe que fez o trabalho de campo, observando, relatando e gravando as práticas docentes contou com dez pesquisadores, entre estudantes de mestrado e doutorado em matemática e ensino da disciplina. “Precisavam ser pessoas que dominassem o conteúdo e conseguissem identificar se ele estava sendo bem transmitido aos alunos”, explica Nilma. Ao longo de cinco meses, foram gravadas 1.035 horas-aulas para serem analisadas.

Foram observados e levados em conta aspectos como: as condições da sala (material didático e infraestrutura); estrutura da aula (tipo de aula, por exemplo) e clima do ambiente (relacionamento do professor com a turma, interação e engajamento dos alunos).

Foram contratados especialistas no ensino de matemática para assistirem todo o material, selecionarem as boas práticas e, assim, ajudarem na edição de um vídeo que mostra os principais pontos do estudo.

Caminhos
A matemática é a disciplina que apresenta os mais baixos índices de desempenho dos alunos, em todo o País. Um exemplo é o preocupante dado do De Olho nas Metas 2011, relatório anual de acompanhamento das Metas do Todos Pela Educação, de que 11% dos estudantes terminam o Ensino Médio com o aprendizado adequado dos conteúdos.

Segundo Nilma, os exemplos identificados na pesquisa podem ajudar a inspirar outros professores. “Vimos poucos docentes que estimulam a interação entre os estudantes. O excesso do ensino frontal e a frequência na escrita no quadro – o que significa ficar de costas para a sala – também precisam ser repensados”, explica ela. “Além disso, poucos professores usam recursos tecnológicos. É perceptível que, quando há esse tipo de ferramenta em sala, os alunos participam mais.”

Todos Pela Educação