O diploma e o emprego

Não são poucas as evidências que começam a mostrar-se nas dobras do milagre econômico celebrado nestes últimos anos. Baixa produtividade, excessivo peso tributário, juros elevados, carência de mão de obra especializada são espectros sempre presentes. Alguns indicadores, entretanto, preocupam e não podem ser omitidos.

Há um divórcio canhestro e persistente entre as exigências do emprego e a formação profissional que incumbiria à universidade gerar. Mas não é sobre a relação entre universidade e mercado, para alguns incestuosa, de que pretendo ocupar-me.

A Fundação Getúlio Vargas divulgou estudo revelador: “A universidade e você no mercado de trabalho”. Foram pesquisadas as carreiras universitárias, com o objetivo de fixar a relação existente entre profissionais com melhor remuneração, os que trabalham mais, as taxas de ocupação e os que têm melhor proteção trabalhista. Aqui, dados referentes ao Ceará, de graduados entre 30 e 35 anos, em algumas carreiras selecionadas.

Eis, em seguida, as profissões analisadas segundo: a) nível de remuneração; b) horas de trabalho; c) taxa de ocupação, e d) proteção trabalhista. Medicina: R$ 4.848; 39,63h; 97,13%; 89,3%. Odontologia: R$ 3.998; 37,87h; 96.17%; 80,56%. Engenharia Civil e de Construção: R$ 3.305; 39,8h;
95,81%; 85,19%. Computação: R$ 2.179; 38,69 h; 94,04%; 87,83%. Direito: R$ 2.679,31; 37.24 hs.; 92.86%; 74.96%. Formação de professores: R$ 1.387; 34,36h; 94,25%; 87,66%. Agronomia: R$ 2.254; 34,65 h; 92,08%; 77,28%. Comunicação Social: R$ 2.153; 37,07h; 92,77%; 78,23%.

A mostra sugere algumas conclusões óbvias e outras inquietantes. Os melhores salários e a taxa mais elevada de ocupação estão com os médicos, muitos deles acumulando vários contratos para compor a sua renda. A menor remuneração corresponde aos professores, evidência do descaso da sociedade e do Estado com a Educação. Agrônomo, salvo as exceções não contempladas pela pesquisa, que trabalha com a média dos salários, não alcança o patamar de quatro salários mínimos. O mercado não sorri para jornalistas e comunicadores.

As competências e habilidades profissionais de nível superior são mal remuneradas no Brasil. A profusão de diplomas, cursos e faculdades, sem a presumível qualificação para o exercício profissional, contribuirá inexoravelmente para o desprestígio dessas atividades e o abastardamento da sua remuneração.

Em algumas profissões, de maior ou menor prestígio social, a salvação está nas oportunidades oferecidas pelos concursos públicos. Queiram ou não os observadores mais ortodoxos, o principal determinante isolado da renda é a educação. A boa educação, a competência sem “pistolão”, e os caprichos do mercado fazem a diferença. Vivemos, afinal, a idade heterodoxa da economia do conhecimento.

Paulo Elpídio de Menezes Neto

pedmn@globo.com

Cientista político

O Povo