Trava na educação

Folha de S. Paulo

A notícia de que a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo está convocando para atuar como professores temporários docentes que não conseguiram acertar nem a metade das questões do último processo seletivo da pasta tem duplo significado.

Em primeiro lugar, é bem-vinda a admissão, pelas autoridades educacionais, de que a realidade existe. Quando o modelo de teste para temporários foi introduzido, em 2009, a secretaria dizia que a prova seria eliminatória; agora a classifica como “classificatória”.

Não é preciso ser nenhum mestre do empirismo para constatar que o salário e as condições de trabalho oferecidos às pessoas incumbidas de educar as próximas gerações de paulistas não estão atraindo multidões. Como, por definição, o Estado só pode contratar quem está disposto a aceitar o cargo, a utilização dos “reprovados” torna-se uma necessidade prática. A alternativa seria deixar milhares de alunos sem determinadas aulas, o que é provavelmente pior do que ter um mau professor.

A segunda mensagem é mais inquietante: dos 139 mil temporários que se submeteram ao último exame, no fim de 2012, 39 mil (28%) tiveram um desempenho ruim, acertando menos de 50% das questões, que, vale observar, não visavam a selecionar Prêmios Nobel. São pessoas que já atuavam no sistema e nele deverão permanecer. Mais do que isso, é gente formada pelo sistema.

Considerando que existe um grande corpo de pesquisas em educação mostrando que o nível do professor é uma das mais importantes, se não a principal, variável a impactar na excelência do ensino, nós chegamos a um ponto em que a má qualidade do sistema se tornou sua própria trava.

Sair dessa armadilha não é trivial e exige tempo. O horizonte é o de gerações, não administrações. O que preocupa, porém, é que não se percebe nas autoridades atitudes resolutas para começar a reverter o quadro.

HÉLIO SCHWARTSMAN