A educação na era dos Tablets

Por Gabriel Coelho – gabriel.coelho@folhadirigida.com.br

O uso da tecnologia no mundo da educação vai, aos poucos, deixando de ser promessa para se tornar uma realidade nas instituições de ensino do  país. Depois do computador e, em vários casos, dos notebooks e netbooks, são os tablets que estão cada vez mais presentes nas salas de aula. O que antes era motivo de preocupação para os professores, por conta da dispersão da atenção da classe, agora é visto por muitos como um eficiente meio de gerar interesse dos alunos com conteúdos interativos, imagens e vídeos.
São várias as vantagens da utilização de tablets em sala. Com a ele, o professor pode substituir o conteúdo escrito no quadro negro por arquivos digitais, economizando tempo de aula, além de ser um atrativo para os estudantes. Jogos e exercícios também começam a serem utilizados, o que faz com que alunos se sintam mais motivados. Além disso, a economia de papel é um importante benefício trazido pela tecnologia.
Aos poucos, livros, que antes só eram disponibilizados na versão impressa, estão passando por um processo de digitalização. O uso dos chamados e-books (livros virtuais) faz com que o peso do material escolar diminua consideravelmente, facilitando a vida dos alunos e professores. O Ministério da Educação (MEC), inclusive, anunciou recentemente o edital para livros didáticos das escolas públicas em 2015 no qual consta a inserção de obras multimídias.
O MEC também planeja que, até o fim de 2013, 600 mil tablets sejam distribuídos entre alunos e professores da rede pública. O crescimento da oferta de cursos de educação a distância e o fato dessa tecnologia estar se tornando mais acessível no país são outros indícios do novo momento que a educação está passando.
Falta de infraestrutura nas escolas é obstáculo
Fernando Mota, presidente da Associação Brasileira de Tecnologia Educacional (ABT), acredita que a nova ferramenta já é uma realidade. Para ele, os educadores precisam se adaptar. “É preciso entender que é necessário compreender a linguagem do aluno. Ou as instituições aceitam isso, ou vão conviver com alunos que sempre terão a visão de que a educação é algo desinteressante”, diz o professor.
A chegada dos tablets abre possibilidades para novas metodologias de ensino. Além de ter a oportunidade de realização de pesquisas durante as aulas e de maior agilidade na busca de informações que circulam em jornais e revistas, o professor poderá levar para a sua classe jogos e aplicativos que podem dinamizar o ensino.
“Em escolas com rede de internet, o tablet é um grande aliado da educação. Todas essas novas funções que ele traz para a aula geram um interesse maior dos alunos. Aliás, os próprios estudantes podem ajudar o professor na aula, participando, sugerindo temas, criando. Hoje, todos estão se comunicando, interagindo. A escola precisa acompanhar isso”, diz Fernando Mota.
No entanto, inserir a tecnologia nas escolas, principalmente as da rede pública, ainda é um desafio. O alto custo dos equipamentos, a capacitação dos professores e a falta de estrutura física para a implementação do ensino em rede são as principais dificuldades para que essa nova realidade se torne mais presente nos colégios.
Diante deste quadro, realizar altos investimentos em tablets e em projetores multimídias (data show), sem possuir acesso à internet pode tornar a utilização dos equipamentos algo sem sentido. E não são poucas as escolas que não possuem estrutura para esse novo método de ensino. Para Fernando Mota, caso a inserção não seja bem conduzida, a iniciativa pode se tornar motivo de chacota.
“Muitos professores, quando são informados que receberão os tablets, questionam o porquê da decisão. Se não existe dinheiro para a melhoria das condições de aula e de trabalho, além de não ter para uma melhor remuneração, como pode existir verba para esses aparelhos? Junto com a distribuição desses aparelhos, é preciso melhorar a estrutura e a revisão dos salários dos educadores”, explica o presidente da ABT.
“Os tablets vieram para ficar”, diz especialista
Os professores estão no centro dessa mudança no ensino. Por serem os coordenadores dos novos processos educacionais, eles precisarão de especialização para desempenhar melhor a função. Esse é mais um desafio, uma vez que grande parte profissionais da educação não possui tempo para realizar cursos de especialização na área. Para o presidente da ABT, os professores já deveriam ser capacitados durante a formação.
“Já existe o movimento para capacitação para a utilização de todos os dispositivos tecnológicos, mas é complicado você pôr um profissional para fazer estes cursos aos sábados e domingos, dias de descanso, ou depois do seu trabalho. Acredito que as universidades deveriam inserir a formação digital em seus cursos. O que temos hoje é pouca coisa. Uma outra medida poderia ser que esses cursos fossem feitos no próprio local de trabalho dos
professores.”
Fernando Mota salienta que ainda que apesar dos desafios serem consideráveis, a educação tende a ganhar com a utilização das tecnologias. “É preciso entender que estamos em uma transição. Somos nativos que aprenderam a ser digitais e estamos lidando com uma geração de nativos que já nasceram no mundo digital. A linguagem e os tempos são outros. Os tablets vieram para ficar na educação.”

Escola no Rio muda material e infraestrutura para usar Ipads
No Sistema MV1 Total, a partir deste ano, os professores utilizarão Ipads no seu trabalho em sala de aula. Através de uma parceira com a UNO internacional (empresa ibero-americana de educação), a rede iniciou um projeto que conta com o suporte de empresas como Apple, Discovery Education, Cambrigde Esol, Avallia e outras instituições, e que atende 4 mil alunos de 7 unidades diferentes.
Os professores da escola passaram por treinamento e a intenção do colégio é dinamizar as aulas através de vídeos, notícias da internet, aplicativos e outras ferramentas que o Ipad oferece. Com isso, a instituição conseguiu trazer a atenção dos alunos novamente para as aulas. Essa é o grande benefício do novo sistema, segundo a presidente do Sistema MV1 Total, Daniela Teixeira.
“É uma mudança completa no formato da aula. Ter o equipamento simplesmente para substituir o livro não é algo eficiente. Podemos passar um texto para o Ipad, mas isso não tornaria a aula dinâmica. O diferencial é o conteúdo interativo que o professor leva para a aula, os aplicativos, os vídeos e pesquisas. Existem complementos fantásticos disponíveis. O aluno deixa o celular de lado e passa a se interessar pela aula”, diz Daniela.
Segundo ela, cerca de 60% do material didático foi alterado, cursos de capacitação para os professores foram realizados e mudanças na estrutura física do colégio foram efetuadas. A presidente da rede explica que o investimento é alto e que problemas tiveram de ser superados, mas que, avaliando os resultados, existem mais pontos positivos que negativos.
“Tivemos problemas. Alguns educadores não tinham domínio dessa tecnologia ou não sabiam explorá-la da maneira mais eficiente. Outros não acreditavam que o projeto pudesse sair do papel. Foi muito difícil, também, encontrar empresas para fazer as adaptações nos prédios para que pudéssemos utilizar a tecnologia. Esses foram nossos desafios que, felizmente, foram superados”, conta Daniela Teixeira.
A professora de Física Elaine Sabbatini, das turma de ensino médio da escola, também aprovou as mudanças. Para a educadora, a nova realidade traz uma facilidade maior para a transmissão de conhecimento para as turmas. Todos os recursos adicionais tornam mais simples a tarefa de educar. A economia de tempo e de esforço são importantes características deve novo modo de ensinar.
“O professor, hoje, pode ligar o conteúdo dado em aula com vídeos e gráficos. Isso tudo em questão de segundos. A mudança é gradual, mas existe muita troca de informações entre os professores também. Para os alunos, visualizar é o que faz a diferença e dá para perceber que a turma está mais envolvida com a aula”, diz a professora.
O aluno Victor Braz Cabral, do 2º ano do ensino médio, tem opinião semelhante à da professora de educação física. Para ele, o estudante consegue visualizar melhor a matéria com a tecnologia nova. “Nós ficamos entretidos com as animações, com os gráficos. É um mundo que os alunos estão acostumados a transitar”. Colega de Victor, João Victor Weber, de 15 anos, acredita que a interatividade é o ponto positivo da entrada do Ipad nas aulas. “A explicação da matéria fica mais dinâmica. Antes, alguns  pontos do conteúdo dado para a turma eram de difícil compreensão. Bastou ter contato com vídeos e gráficos que tudo se tornou mais simples”, diz o estudante.

Uso inadequado dos tablets pode prejudicar a visão do aluno
A cada ano que passa, a tecnologia vem se tornando mais presente na vida dos estudantes. Os benefícios são inúmeros, mas toda mudança requer adaptações. Conviver com tablets, smartphones e netbooks pode gerar alguns problemas de saúde caso o aluno não tome alguns cuidados. Os casos de problemas visuais em jovens vêm crescendo proporcionalmente à invasão das novas tecnologias.
O tempo de exposição dos olhos em frente aos equipamentos, o local onde está instalado a plataforma, a luz do ambiente e a distância do aluno em relação ao objeto devem ser avaliados. Não ter atenção a esses aspectos pode resultar em uma fadiga do globo ocular. O problema é denominado “Síndrome do Computador”.
O oftalmologista do Hospital Oftalmológico de Brasília (HOB), Mário Jampaolo, explica melhor o problema. “Em frente ao computador, esquecemos de piscar os olhos. É inconsciente. Essa alteração leva ao desgaste da superfície ocular. Essa área fica exposta, sem lubrificação. Por isso, a pessoa se queixa do cansaço visual, da ardência e da vermelhidão”.

O problema pode levar o paciente a ter náuseas, dores de cabeça e redução da capacidade de reter informações. Para que as tecnologias sejam aliadas, e não inimigas dos alunos, algumas medidas simples podem e devem ser tomadas.

A primeira é descansar os olhos durante as atividades. A cada 50 minutos de leitura, parar por três minutos e ir até a janela para olhar o horizonte ajuda a relaxar a musculatura interna do globo ocular. A iluminação adequada do local é outro fator importante.
O ideal é que leituras sejam feitas durante o dia, mas caso não seja possível, a alternativa é uma boa iluminação. Uma lâmpada de 60 watts colocada à 50 centímetros de altura da área de leitura já é suficiente, desde que a luz ilumine a parte interna da mão que o estudante utiliza para escrever, o que evita o aparecimento de sombras.

Folha Dirigida