OBSTÁCULOS À ALFABETIZAÇÃO

A capital federal abriga 85 mil pessoas que não sabem ler e escrever. Apesar de o índice ser o menor do país, o DF enfrenta dificuldades para erradicar o problema

Fonte: Correio Braziliense (DF)

A sensação de olhar para um amontoado de letras sem que nada faça sentido é de angústia. Para 85 mil brasilienses, esse sentimento se revela um incômodo constante. Pelo menos 3,3% dos moradores do Distrito Federal com mais de 10 anos são Analfabetos e enfrentam dificuldades para preencher documentos, pegar ônibus e, principalmente, conseguir emprego sem saber ler nem escrever. Mesmo assim, a capital do país é a unidade da Federação com o menor percentual de Analfabetos do país — a média nacional é de 9%.

Apesar de ostentar o título de cidade com a maior taxa de Alfabetização, os dados do Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o DF avança lentamente rumo à erradicação do problema. Em 2000, 4,9% dos moradores locais eram Analfabetos. Ou seja: houve uma redução de apenas 1,6 ponto percentual ao longo de uma década. Se o governo não conseguir acelerar esse ritmo, será necessário esperar mais 20 anos para que Brasília chegue perto da eliminação do Analfabetismo.

O sistema de Educação de jovens e adultos (EJA) disponível no Distrito Federal não é suficiente para acabar com o Analfabetismo. Os Alunos iletrados entram no primeiro segmento do programa, equivalente às séries iniciais do Ensino fundamental. Para tentar ampliar a oferta, o governo lançou neste ano o DF Alfabetizado, que prevê a abertura de turmas para cidadãos que não sabem ler ou escrever. Até agora, foram oferecidas 3.040 vagas, número ainda pequeno diante do universo de Analfabetos na capital federal.

Para compreender a gravidade dessa falha educacional, basta ouvir os relatos de pessoas sem nenhuma intimidade com as letras. A doméstica Maria Lúcia Silva, 41 anos, conta que não saber ler é como a cegueira. “Eu olhava placas, letreiros de ônibus, receitas de comida, e era como se eu estivesse vendo uma folha em branco. Eu me sentia sem visão”, relata a paraibana, que chegou em Brasília há 11 meses e agora busca ajuda em uma turma de Alfabetização de adultos.

Maria Lúcia aprendeu a escrever o próprio nome e lê algumas palavras. “Eu tinha muita vergonha, por isso, decidi voltar a estudar. Já perdi vagas em fábricas e em restaurantes porque era analfabeta”, conta a doméstica, que voltou às salas de aula graças a uma iniciativa do Centro de Voluntariado do DF, que oferece turmas para adultos. “No ano passado, fui visitar João Pessoa de avião. Consegui andar pelo aeroporto sem pedir ajuda, só lendo as placas, bem devagarzinho. A sensação foi muito boa, me senti vitoriosa”, revela.

Idosos
A maior parte dos Analfabetos do DF tem mais de 60 anos. Nessa faixa etária, 13,3% da população não sabe ler e escrever. Planaltina abriga o maior percentual: 8,2% dos habitantes com mais de 10 anos. Já no Lago Sul, só 1,2% dos moradores acima dos 60 não domina a leitura e a escrita. Assim como acontece no Brasil, o problema é mais grave nas zonas rurais do DF. Isso ocorre por causa da distância entre as Escolas e as residências e também porque muitas crianças ainda trocam os bancos Escolares pelo trabalho no campo. Em Planaltina, que concentra boa parte dos núcleos rurais da capital, 28,6% dos idosos acima de 60 anos são Analfabetos.

O lavrador aposentado Joaquim Ricardo Rabelo, 75 anos, sofre com a falta de intimidade com as letras. Ele entrou na Escola neste ano e cursa o primeiro segmento da Educação de jovens e adultos no Centro de Ensino nº 3 de Ceilândia. Em quatro meses de aula, aprendeu a escrever o próprio nome. “Eu trabalhava muito duro na roça, no interior de Minas Gerais, e nunca tive tempo de aprender. Agora, que já estou encostado, o meu filho insistiu para eu entrar na Escola, e eu decidi que era a hora de estudar”, revela um entusiasmado Joaquim. O sonho dele é enviar uma carta para os parentes que ficaram em Minas. “A minha mulher ainda está lá, assim como outros familiares. Quando eu aprender a escrever algumas palavras, vou botar tudo em um papel e mandar para eles verem”, diz.

A doméstica Raimunda Nonata dos Santos, 42 anos, abriu mão dos estudos para ajudar a família na roça. Ela nasceu em Ingá, no interior do Maranhão, e teve que ajudar os pais, trabalhadores rurais. “Não tinha tempo de estudar, a vida era só trabalho. Acabei deixando de lado, mas, no fundo, guardava o sonho de aprender a ler”, revela.

A maranhense veio para Brasília há 15 anos e começou a trabalhar como cuidadora de idosos. “Eu conhecia as letras, mas não sabia juntar uma com a outra”, relembra. No início deste ano, a patroa de Raimunda viu um cartaz em uma igreja que anunciava turmas de Alfabetização para adultos. Estimulou a empregada a retomar os estudos. “Agora, vou ao supermercado e consigo ler algumas coisas”, comemora.

Nordeste
A unidade da Federação com o maior percentual da população analfabeta é Alagoas. No estado, 22,5% dos moradores com mais de 10 anos não sabiam ler nem escrever, de acordo com dados do censo do IBGE. A região do semiárido nordestino também sofre com o problema: 24,3% dos habitantes são Analfabetos. Entre eles, 65% eram pessoas maiores de 60 anos de idade.

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