Ensino superior e o futuro na China

Por KEITH BRADSHER 


HANJING, China — Wu Yiebing desceu em poços de mina de carvão praticamente todos os dias úteis de sua vida, manipulando uma furadeira elétrica por US$ 500 por mês na poeira sufocante de túneis claustrofóbicos, com um único objetivo em mente: pagar pela educação de sua filha.
Sua mulher, Cao Weiping, trabalha em pomares durante a temporada da maçã, ganhando US$ 12 por dia para amarrar saquinhos ao redor das frutas para protegê-las de insetos. No restante do ano, ela trabalha como balconista em uma loja, ganhando alguns dólares por dia. Tudo o que ganha vai para a educação de sua filha.

Mas um diploma de faculdade não garante mais um emprego bem remunerado, porque o número de formados na China quase duplicou na última década.
Wu e Cao lutaram durante suas vidas inteiras. Por quase duas décadas, eles viveram em uma casa de 18,5 metros quadrados com teto de palha. Nunca tiveram um carro. Não tiram férias.
Sua filha, Wu Caoying, hoje tem 19 anos e está no segundo ano da faculdade. Ela é um dos milhões de estudantes chineses que foram muito além do que seus pais poderiam sonhar quando eram jovens. Apesar de todo o trabalho duro do pai e da mãe de Wu, porém, eles não têm certeza se o esforço valerá a pena. Sua filha tem dúvidas sobre continuar na escola, cuja anuidade e despesas de hospedagem e de alimentação custam mais da metade da renda anual combinada de seus pais. Uma estudante ligeiramente acima da média, ela pensa em deixar a faculdade, encontrar um emprego e ganhar dinheiro.
“Eu digo: ‘Você tem de continuar estudando para cuidar de nós quando ficarmos velhos’”, disse Cao. “Ela diz: ‘Isso é pressão demais!’.”
As experiências de Wu, cuja família o “New York Times” acompanha há sete anos, são uma janela para as oportunidades em expansão e os obstáculos enfrentados em toda a China, onde 8 milhões de estudantes recebem diplomas anualmente de universidades e faculdades comunitárias.
Para uma família rural na China, cada ano de educação superior custa de 6 a 15 meses de trabalho.
Um teste da capacidade da China de manter o rápido crescimento econômico e preservar a estabilidade social e política acontecerá quando Wu e outros jovens terminarem a faculdade e procurarem trabalho.
Filha de mineiro
Cao, hoje com 39 anos, aprendeu a ler alguns caracteres chineses na primeira e na segunda séries em sua aldeia. Mas as séries posteriores eram ensinadas em outra escola, em uma aldeia maior na outra extremidade do vale, uma caminhada de 11 quilômetros, e Cao desistiu.
Seu marido, 43, cresceu em uma aldeia igualmente pobre e não frequentou a escola.
Cao tinha 20 anos quando nasceu a filha Wu. O casal ganhava apenas US$ 25 por mês. Temendo que ela inevitavelmente abandonasse a escola cedo se tivesse de caminhar tanto para ir às aulas todos os dias, eles decidiram deixar sua aldeia ancestral e suas famílias, como fizeram centenas de milhões de chineses nas últimas duas décadas. “Todos os pais da aldeia querem que seus filhos frequentem a faculdade, porque só o conhecimento muda seu destino”, disse Cao.
Quando Wu chegou à escola secundária, a família tinha se mudado para Hanjing, uma comunidade de mineração de carvão nas planícies do norte da província de Shaanxi.
O próprio Wu construiu a casa de tijolos com dois cômodos para a família. Ficava do outro lado da estrada de uma pequena mina de carvão, onde ele aprendeu a manobrar uma furadeira elétrica de 20 quilos, ganhando US$ 200 por mês pelo trabalho.
Wu Caoying estava na sétima série, estudando geometria, álgebra, geografia, história e ciência. Seu problema era o inglês, uma matéria cada vez mais importante para alunos que quisessem se qualificar para qualquer coisa que não fosse as piores universidades do país.
Wu começou a estudar inglês na quarta série. Mas então a professora foi embora. Ela continuou as aulas na sétima série, mas sua mãe estava preocupada e começou a contratar professores particulares.
Cao disse que estava convencida de que isso ajudaria sua filha a ser a primeira pessoa da família a frequentar uma faculdade. “Se não tivéssemos vindo para cá, ela precisaria ficar em casa para ajudar a cozinhar e cortar lenha”, disse Cao.
Mas seus sacrifícios financeiros estavam apenas começando.
No segundo grau, Wu começou a estudar em um internato do governo, um esquema comum que permite que os governos locais cobrem taxas elevadas. A matrícula era de US$ 165 por semestre. Comida, livros, manuais e taxas de exames eram pagos à parte.
Wu acordava às 5h30 todas as manhãs para estudar. Depois ia às aulas das 8h30 às 12h30, das 13h30 às 17h30 e das 19h30 às 22h30.
Quando a mina de carvão fechou, o senhor Wu conseguiu um emprego a 13 horas de distância, em uma mina em um deserto no norte. Ele dobrou sua renda e trazia o salário de volta a cada dois meses.
A principal preocupação do casal era o desempenho acadêmico de sua filha. Eles achavam que ela não se esforçava o suficiente. Wu estava em 16° lugar em uma classe de 40.
Probabilidades
Como poucas crianças de famílias pobres têm as melhores notas nos exames nacionais, elas são relegadas a escolas de qualidade inferior, que recebem menores subsídios do governo. Afinal, elas acabam pagando mais.
O resultado é que a educação superior está perdendo seu papel de nivelador social. “As pessoas que recebem educação superior tendem a ser relativamente mais ricas”, disse Wang Jiping, diretor-geral do Instituto Central para Educação Vocacional e Técnica da China.
Cerca da metade de todos os estudantes de terceiro grau hoje frequentam um número crescente de escolas politécnicas de três anos, menos prestigiosas. Enquanto o governo central oferece bolsas prolongadas, com base na necessidade, e empréstimos para estudantes nas universidades de quatro anos, há pouca ajuda para estudantes de politécnicas pagarem as anuidades mais altas.
O exame nacional de admissão favorece fortemente as crianças ricas das cidades. As principais universidades, concentradas em Pequim e Xangai, dão preferência a alunos de colégios locais. Os estudantes rurais têm de tirar notas mais altas para entrar.
Para Wu, o desafio seria grande demais.

Estudar na cidade grande
Wu passou no exame nacional de admissão por pouco. Ela frequenta uma politécnica na metrópole de Xi’an, capital da província de Shaanxi.
Seu ponto fraco foi o inglês. Wu tentou se sair bem o suficiente para se transferir para a universidade de quatro anos, cuja anuidade é 25% menor.

“Eu digo a minha filha para estudar mais para que ela possa diminuir as taxas escolares”, disse Cao.
A grande pergunta é o que Wu fará depois que se formar. Ela escolheu como carreira principal  logística —aprender a distribuir produtos.
Mas essa disciplina é a mais procurada em sua escola, fato desanimador em um momento em que os jovens formandos na China têm quatro vezes mais probabilidade de estar desempregados do que os jovens que frequentaram apenas a escola elementar.
Entre os que se formaram na última primavera em sua escola politécnica, “50 ou 60% ainda não têm emprego”, disse Wu.
Cao já está preocupada. O trabalho de seu marido está ficando mais difícil. A filha é a única esperança dos pais.
“Eu só tenho uma, por isso tenho de garantir que ela cuidará de mim quando ficarmos velhos”, disse Cao. “Minha cabeça dói de tanto pensar. E se ela não conseguir um emprego depois que gastamos tanto em sua educação?”

 O Povo