Projetos substituem séries e disciplinas em escolas brasileiras

Os 820 alunos da Escola Municipal de Ensino Fundamental Desembargador Amorim Lima, no Butantã, zona oeste de São Paulo, não sentam em fileiras. Eles não estudam para provas e dificilmente acompanham uma explicação no quadro-negro. Realizam suas atividades em um grande salão e, com as tarefas em dia, têm tempo para participar de oficinas que vão de aulas de dança à produção de um jornal. Baseado em princípios como cidadania, autonomia e responsabilidade, o trabalho busca desenvolver habilidades que vão além do currículo tradicional. “Nós queremos formar pessoas conscientes de seu dever na sociedade”, diz a diretora, Ana Elisa Siqueira.

 

Depois de alfabetizados, os alunos são divididos em dois salões – de 3º a 6º anos e de 7º a 9º -, onde realizam tarefas propostas por meio de roteiros. Um exemplo: para aprender sobre personalidades da história mundial, devem ler um texto sobre o músico brasileiro Pixinguinha, no livro de português; observar pinturas de Debret na parte de história; responder a questões a respeito de Brasília e Oscar Niemeyer, propostas na apostila de geografia. Em 15 dias, cumprem cerca de 18 objetivos – todos desenvolvidos com base nos livros didáticos indicados pela Secretaria de Educação de São Paulo. Como resultado, escrevem uma espécie de relatório sobre o que aprenderam, que é entregue e analisado pelo tutor.

 

É o aluno que decide qual o próximo roteiro a ser executado. “Ele faz a opção dentro de um leque de possibilidades. Isso não significa que outras coisas não devam ser propostas. Essa liberdade não significa fazer o que quer, mas querer o que faz. O fato de haver a opção por determinado assunto torna o aluno mais responsável, porque é uma decisão dele”, diz Ana Elisa. Concluídos todos os roteiros previstos para o ano, é possível partir para a proposta da série seguinte. Quem não consegue não é reprovado: a criança inicia um novo ano terminando as atividades que deixou pendentes, para então acompanhar o restante da programação. Além das atividades de salão, há aulas de português, matemática e inglês – ministradas em uma sala com quadro-negro -, além de educação física.

Essa liberdade não significa fazer o que quer, mas querer o que faz. O fato de haver a opção por determinado assunto torna o aluno mais responsável, porque é uma decisão dele

Ana Elisa Siqueiradiretora de escola

 

Ainda que estejam em fase de desenvolvimento, a diretora, Ana Elisa, garante que os alunos têm consciência de suas responsabilidades. “As crianças passam a compreender o processo pessoal de aprendizagem. Elas vão aprendendo a lidar com as questões de tempo, espaço, quantidade de trabalho. Não é um processo individual, mas pessoal”, diz. O primeiro ano, em fase de alfabetização, tem aula em uma sala convencional, mas já começa a viver experiências próprias do trabalho criado na década de 1970, na Escola da Ponte, em Portugal.

 

Nos salões, que existem desde 2004, circulam professores de diversas disciplinas, orientados a auxiliar alunos nas suas dificuldades. As crianças e jovens ficam sentados em grupos de quatro, não necessariamente da mesma faixa etária. Uma vez por semana, reúnem-se com um dos tutores, que ficam responsáveis, cada um, por cerca de 20 estudantes. Todos os dias, há um momento reservado para uma roda de conversa, quando alunos e professores relatam experiências, trocam informações e resolvem possíveis dilemas da rotina escolar.

 

Márcia Carini é mãe de um dos alunos que agora vai para o ambiente conhecido como salão. A jornalista, que conheceu a escola por meio de uma amiga, chegou ao Amorim para ministrar uma oficina de produção jornalística. “O método é muito democrático. As outras escolas costumam excluir quem não consegue acompanhar, mas a ideia é um ajudar o outro. Com isso, os alunos que são bons se sentem estimulados, porque ajudam quem tem dificuldade, enquanto quem tem dificuldade é amparado por um colega. Existe um espírito de cooperação”, diz.

O método é muito democrático. Os alunos que são bons se sentem estimulados, porque ajudam quem tem dificuldade, enquanto quem tem dificuldade é amparado por um colega

Márcia Carinimãe de aluno

 

O fato de se tratar de uma escola pública também chamou a atenção de Márcia. Ela acredita que seu filho, antes matriculado em uma escola particular, convivia com um grupo bastante homogêneo. A nova realidade diversificou seu círculo social. “Meu filho não pediu um brinquedo sequer no ano passado. Essa convivência com pessoas diferentes o fez entender que lápis e borracha não dão em árvore. Ele se vê valorizado e valoriza também”, destaca.

 

Um exemplo na esfera privada é o da escola Lumiar, também de São Paulo, que atende crianças e jovens de quatro meses a 14 anos. Lá também não há divisão por séries, e todas as semanas os alunos participam de assembleias para tratar se assuntos relacionados à escola. Assim como no Amorim, todo o aprendizado é embasado pela legislação, mas ele acontece por meio de projetos. “Os padrões são muito mais abertos em comparação a escolas ou livros didáticos tradicionais. Há muita flexibilidade para trabalhar os conteúdos”, explica a diretora pedagógica do Instituto Lumiar, Célia Maria Piva Cabral Senna.

 

Ela acredita que saber buscar a informação é mais importante do que decorá-la. “Hoje em dia é ilusão achar que alguém vai saber todos os conteúdos. Hoje o acesso a informação é fácil, mas isso não significa aprendizado”, diz. A diretora pedagógica reconhece que alguns alunos possam ter problemas quando partem para escolas diferentes. “Alguns relatam um pouco de dificuldade em disciplinas de maior memorização, mas isso não causa nenhum grande trauma”, afirma.

 

Família precisa estar alinhada com os valores da escola
Sem uma rotina de testes e provas, a adaptação de um aluno à metodologia de uma escola convencional do ensino médio ou ao vestibular é um questionamento comum entre quem conhece as diretrizes de instituições inspiradas na Escola da Ponte. Para a professora da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Orly Zucatto Montovani de Assis, a resposta está na bagagem acumulada durante os anos de aprendizado alternativo. “Esses alunos têm consciência de como se constrói o conhecimento, eles sabem que método pode utilizar porque vêm de um aprendizado em que um erro corrigido vale mais do que um acerto imediato”, afirma. Na opinião da especialista, um dos grandes acertos de instituições como a Escola da Ponte e a Amorim Lima está no fato de que a proposta prevê que os próprios alunos corrijam seus trabalhos junto ao professor, reconhecendo seus erros.

Hoje o acesso a informação é fácil, mas isso não significa aprendizado

Célia Maria Piva Cabral Sennadiretora pedagógica

 

Ainda assim, existe uma preparação para vestibulinhos de escolas técnicas, por exemplo. No Amorim, pais de alunos ministram oficinas com simulados e dicas para as seleções. O método fora do convencional causa estranheza em algumas famílias. Para a diretora, a reação é natural. “Normalmente, o pai que coloca o filho em uma escola pública pensa que é tudo igual. O Amorim cria um diálogo com a família desde o início. Tivemos vários casos de famílias que não concordaram com o projeto e levaram o filho para outro lugar”, diz. Ana Elisa acredita que o projeto familiar é o que define como será a adaptação do aluno ao ambiente. “Há quem prefira colocar seu filho em uma sala com classes enfileiradas, em que muda o professor quando o sinal toca e a lousa está cheia de conteúdo. Se a família busca formar alguém competitivo, que queira ser o melhor, precisa buscar outra proposta”, acrescenta.

 

Idealizador da Escola da Ponte explica projeto
Em uma realidade tão diferente daquela com a qual a maioria dos alunos está acostumada, o papel dos professor é fundamental. Idealizador da Escola da Ponte, que inspirou as instituições brasileiras, o educador José Pacheco explica que a ideia é que os projetos não sejam preparados apenas pelo educador, mas que a construção seja feita em conjunto. “O educador não faz planejamentos de aula; ensina os alunos a planejar e a se planejar. Ele não prepara materiais para os alunos. Os alunos é que criam os materiais com os professores, à medida em que vão produzindo conhecimento e os desejam partilhar”, diz Pacheco, que hoje vive no Brasil e coordena um projeto dentro da mesma linha.

 

Ensinar a pesquisar e mediar os processos de aprendizagem são as outras tarefas de quem trabalha em escolas como a Ponte, o Amorim e a Lumiar. Na escola pública do Butantã, a formação dos professores fica por conta da rotina. Ana Elisa afirma que os educadores não recebem capacitação antes de chegar à instituição, mas que as questões são debatidas diariamente, em horas de estudo. “Existe um enfrentamento por conta de expectativa de polivalência, já que todos têm de lidar com vários conteúdos. Mas eles têm acesso a todo o material e trocam experiências constantemente”, explica.

 

Pacheco reconhece problemas e propõe questionamentos ao trabalho realizado. “Os nichos de inovação e mudança ainda são construídos à custa da dedicação e sacrifício. As escolas continuam expostas à incompreensão, à burocracia. Apesar de já contar quase 40 anos de projeto, a Ponte não é exceção”, diz. Confrontar-se com o insucesso de alunos deve ser, em sua opinião, outro estímulo para buscar soluções que vão muito além de colocar a culpa no sistema. Para isso, é preciso construir em comunidade novas formas de construir o conhecimento.

 

Cartola - Agência de Conteúdo - Especial para o TerraCartola – Agência de Conteúdo – Especial para o Terra