Número de matrículas cai 16% em três anos

Sem confiar na escola pública, pais preferem fazer sacrifício e inscrever os filhos em entidades particulares

Quando a rede pública de ensino não atende o desejo dos pais em relação à qualidade, assiduidade dos professores ou à estrutura física, muitos acabam sacrificando-se para pagar uma escola privada. Segundo dados da Secretaria Municipal de Educação (SME), a rede privada supera a pública em relação a quantidade de alunos matriculados no Ensino Fundamental.

A SME atribui a redução de alunos ao desajuste do calendário escolar municipal; a última aula do ano letivo de 2012 foi na manhã de ontem Foto: Viviane PinheiroEntre os anos de 2010 e 2013, o ensino fundamental da rede pública municipal de Fortaleza perdeu 28.368 alunos. Conforme a SME, enquanto em 2010 as escolas públicas registraram 168.079 estudantes, em 2013, o número de matrículas caiu para 139.711. Uma redução de 16%. Em 2012, eram 147.784 estudantes em escolas particulares, enquanto que na pública eram 143.031. O que representa 3,3% a menos. Esta realidade, de acordo com a SME, está relacionada ao calendário escolar desajustado nas unidades municipais.

Para a dona de casa Maria Eronilza Roque Paixão, mãe de Fabrício Roque, 17 anos, a opção de retirar o filho da escola pública e matriculá-lo na rede privada vai muito mais além das greves e calendários atrasados. Ela ressalta que a qualidade do ensino, a carência de professores e o baixo desempenho do filho na escola fez com que ela o matriculasse em uma instituição particular.

“O Fabrício reprovou duas vezes o 9º ano. Ele não tinha interesse em ir para a escola, contava que faltavam professores e passava meses sem assistir aulas de uma determinada disciplina devido à carência. Por isso, precisei mudá-lo de colégio”. Ela conta que não se arrepende de ter tomado essa decisão, apesar do sacrifício que faz para pagar a mensalidade.

“A mudança no comportamento do meu filho é visível. Depois que ele entrou na escola particular, eu descobri que ele tinha déficit de atenção e ele já está fazendo tratamento. As notas melhoraram, ele está mais estimulado e mais feliz”, afirma.

Segundo Reginaldo Pinheiro, vice-presidente do Sindicato dos Professores do Estado do Ceará (Apeoc), o desajuste no calendário escolar não é a única razão da migração. Para ele, a estrutura deficitária das escolas e a fuga de profissionais devido aos baixos salários também contribuem bastante para redução na qualidade do ensino.

“Eu penso que muitos pais fazem essa opção devido à ausência de professores especializados nas escolas públicas municipais. E isso não acontece porque eles simplesmente faltam o trabalho, mas porque não existe estímulo. Diante disso, eles desistem do magistério no meio do ano letivo”, pondera.

Medidas

Conforme o secretário de Educação do município, Ivo Gomes, infelizmente, a escola pública municipal de Fortaleza vem perdendo sua credibilidade e sofrendo muitos desgastes. “Isso faz com que os pais de alunos comecem a retirar os seus filhos da rede pública e matricule-os na rede privada. Os professores reclamavam do difícil ambiente de trabalho com o ´clientelismo´, o ´amiguismo´ que era aplicado anteriormente na SME”, diz.

Além disso, ele reconhece que as aulas não começavam no horário e terminam antes das quatro horas previstas. “Iniciaremos, a partir do ano letivo de 2013, a propiciar uma hora a mais de aula para alunos do 1º e 2º ano do Ensino Fundamental, garantindo a eficácia dessas aulas. Os professores já estão sendo qualificados para isso. Também teremos uma política de valorização do professor, com uma política de valorização salarial contínua”, garante.

Ainda de acordo com Ivo Gomes, será investido na melhoria da infraestrutura das escolas. Ele afirma que, no início de fevereiro, equipes de engenharia visitaram todos os prédios para fazer um levantamento de como estavam as estruturas. Algumas escolas, inclusive, chegaram a ser interditadas. “A partir desse levantamento, já iniciaremos, na próxima semana, reformas nas escolas e nos Centros de Educação Infantil. Também estamos licitando R$ 20 milhões para a compra de equipamentos para as escolas, como carteiras, ônibus, ar condicionado”, diz.

Calendário

O Centro de Defesa da Criança e do Adolescente do Ceará (Cedeca) ingressou com uma ação civil pública na 2ª Vara da Infância e da Juventude questionando a redução do ano letivo referente a 2012.

Ontem, por decisão da SME, os estudantes da rede pública tiveram o último dia de aula. A Secretaria informou que só iria se pronunciar depois de ser notificada oficialmente sobre a ação.

Diferença

3,3% alunos a menos estudavam na rede de ensino municipal em comparação com a rede privada em 2012. Enquanto esta tinha 147.784, aquela possuia 143.031

KARLA CAMILA
REPÓRTER

Diário do Nordeste