O valor do diploma

Primeiro foram os médicos, agora, os advogados. O Ministério da Educação parece disposto a controlar na unha o fenômeno da concentração de profissionais liberais nas regiões mais ricas do país. Algumas semanas atrás, o MEC anunciou que novos cursos de medicina só poderão ser abertos em áreas carentes de profissionais de saúde. Na quinta passada, disse que considera tomar a mesma providência em relação a faculdades de direito.

Parece-me uma tremenda de uma bobagem, uma tentativa canhestra de dizer que o governo está fazendo alguma coisa e, de quebra, quem sabe até ganhar alguns pontos com as duas corporações, preocupadas que estão com o excesso de mão de obra e a hiperconcorrência nas cidades mais abastadas. É evidente, entretanto, que o alcance da medida é, na mais generosa das hipóteses, limitado. E ainda bem, poderíamos acrescentar, já que o principal entrave ao sucesso da diligência está o fato de o Brasil ser um país livre.

Com efeito, atos dessa natureza até poderiam funcionar na extinta União Soviética, onde as pessoas precisavam de passaportes internos para viajar pelo país e dependiam de licenças especiais para fixar residência nas grandes cidades. Como, por aqui, cidadãos podem morar e trabalhar onde bem entenderem, tende a ser inútil tentar regular a oferta de serviços profissionais através do licenciamento de novos cursos universitários.

O recém-lançado estudo “Demografia Médica no Brasil 2”, patrocinado pelo Conselho Federal de Medicina, traz dados que deveriam bastar para fazer o MEC desistir da ideia. Dos mais de 30 mil médicos que saíram de sua cidade natal para cursar medicina entre 1980 e 2009, apenas 27% ficaram na nova cidade. Os 73% restantes se dividiram em dois blocos mais ou menos iguais: 35% retornaram para o município de origem e 38% migraram para outras localidades.

Mario Scheffer, o coordenador do estudo, resume bem a situação: “A escola de medicina não está fixando o médico. Essas escolas de interior funcionam mais como repúblicas de estudantes que saem dos grandes centros e depois voltam”.

Não conheço nenhum trabalho semelhante para advogados, mas é improvável que as coisas sejam muito diferentes.

O que eu gostaria de comentar de maneira um pouco mais aprofundada hoje é o aspecto da titulação universitária. Por que confiamos em diplomas? O médico ou o advogado que frequentou uma faculdade sabe realmente mais dos que os velhos práticos e rábulas?

Para socorrer-me nessa empreitada, convoco o psicólogo Geoffrey Miller, autor do excelente “Darwin Vai às Compras”. Miller dedicou grande parte de sua carreira a estudar a sinalização conspícua, que é como os biólogos se referem a determinadas facetas do mundo animal que desafiam o bom-senso e a lógica. O exemplo clássico é a cauda do pavão. Por que diabos um bicho desenvolveria um apêndice tão custoso em termos energéticos e que ainda lhe atrapalha enormemente a vida, dificultando o voo e servindo de chamariz para predadores? E a resposta é muito simples: sexo, sexo e sexo.

A cauda do pavão fala diretamente ao coração das pavoas. E o que ela diz é “meu portador é dotado de genes tão excelentes que pode dar-se ao luxo de me manter e continuar como membro ativo do mundo dos vivos”. Vantagem adicional: o que a cauda diz é verdade. É relativamente difícil falsificar uma sinalização conspícua. Pavões com genes inferiores são sistematicamente excluídos da pavonidade.

Seres humanos não pertencemos à família dos fasianídeos, mas também somos bichos e nos reproduzimos, o que nos permite utilizar essa forma de comunicação com o sexo oposto. Se eu uso um Rolex estupidamente caro, estou dizendo “tenho dinheiro o bastante para desperdiçá-lo com supérfluos, donde se depreende que sou rico, um sinal de minhas aptidões físicas e/ou intelectuais e, portanto, da qualidade superior de meus genes”.

E, se você achava que Freud via sexo em tudo, é porque não conhece bem Miller. Para ele, a sinalização conspícua entre humanos (leia-se sexo) não se limita às instâncias mais óbvias, como joias, maquiagens e carros possantes. Para o autor, diplomas universitários também entram nessa categoria. Eles são um jeito dispendioso de informar ao mundo (em especial ao outro gênero) que seu portador é dono de um QI elevado.

Nas palavras de Miller: “Se eu digo, no segundo encontro, ´os bordos de Harvard ficavam tão lindos no outono`, estou basicamente afirmando que ´minhas notas no SAT [espécie de Enem dos EUA] foram altas o suficiente (entre 720 e 800 pontos) para que eu fosse aceito, então, meu QI é superior a 135, e eu ainda apresento conscienciosidade, estabilidade emocional e abertura intelectual o bastante para ter sido aprovado nos cursos. E ainda consigo reconhecer uma árvore`. O conteúdo informativo é o mesmo, mas, enquanto a primeira formulação soa poética, a segunda parece rude”.

No caso das escolas de elite americanas, o título custa uns US$ 160 mil. No Brasil, as instituições mais reputadas tendem a ser gratuitas para o aluno, mas essa é uma ilusão passageira, já que, para ingressar numa delas, o candidato via de regra precisou cursar 12 anos de caros colégios particulares no ensino básico. OK. Isso diz mais a respeito das qualidades dos pais dos alunos do que deles mesmos, mas, como estamos falando de genes, que se transmitem de uma geração para a outra, a distinção fica menos importante.

Temos aqui, porém, um interessante paradoxo. Como aponta Miller, o credencialismo universitário poderia ser substituído, com grande economia, por um teste de QI. Eles são feitos em duas horas e medem a inteligência do candidato com mais precisão do que os quatro anos de estudos superiores. Eles também preveem com alto índice de acerto qual será seu desempenho profissional. Na verdade, podemos até afirmar que as universidades roubam um pouquinho, já que selecionam seus alunos através de provas como o SAT, nos EUA, e o Enem e os vestibulares no Brasil. E esses testes nada mais são do que uma forma menos objetiva de medir o QI do estudante.

Apesar dessa incongruência, ninguém ousa propor que empregadores troquem os títulos universitários por testes de QI. Se um empreendedor destemido o fizesse, provavelmente teria problemas com sindicatos, universidades, Ministério Público etc. Precisaria de um pouco de sorte para escapar da cadeia.
Embora nem todos os estudantes concordem, faculdades não servem apenas para conferir diplomas. Elas também agregam alguma coisa à formação do aluno, aumentando seu capital humano. A ideia central é que a transmissão de um determinado núcleo de ideias valorizadas pela sociedade nos torna cidadãos melhores e mais sábios. Há, além disso, a questão técnica. Médicos e engenheiros não nascem prontos. Eles precisam ser treinados.

A questão, diz Miller, é que cursos universitários não são a única forma de fazê-lo. Livros e DVDs também funcionam e são muito mais baratos. Charles William Eliot, que foi reitor de Harvard entre 1869 e 1909, não tinha nenhum problema em admitir que uma pessoa podia obter uma educação de primeira apenas lendo os livros certos. Não foi por outro motivo que ele decidiu editar a coleção Clássicos de Harvard.

Hoje, em tempos de internet, que dá acesso gratuito a vídeos com palestras de alguns dos melhores professores do planeta em todas as áreas, pode-se perguntar por que um aluno racional pagaria para assistir a aulas de mestres piores.

Em algum grau, as empresas já descobriram que a formação pré-moldada dos cursos superiores não satisfaz às suas necessidade e investem cada vez mais em programas internos de treinamento.

Calma, não estou recomendando nem sugerindo que troquemos os vestibulares por testes de QI, dinamitemos as universidades e revoguemos as exigências de titulação. Ainda acredito na meritocracia e creio que o sistema acadêmico, embora encerre uma série de problemas e vícios, mais funciona do que não funciona. Mesmo assim, de vez em quando, é bom parar para questionar seus postulados, como faz Miller. O mundo é um lugar repleto de paradoxos e incongruências. Seria uma surpresa se não os encontrássemos também na vida acadêmica.

Hélio SchwartsmanHélio Schwartsman é bacharel em filosofia, publicou “Aquilae Titicans – O Segredo de Avicena – Uma Aventura no Afeganistão” em 2001. Escreve na versão impressa da Página A2 às terças, quartas, sextas, sábados e domingos e às quintas no site.