Capacitação, o caminho para a qualidade

Por Débora Thomé – debora.thome@folhadirigida.com.br

Crédito: Gabriel SallesMaria Teresa Tedesco acredita que um dos impactos da mudança no Enem é incentivar as escolas a refletirem sobre suas práticas pedagógicas

Um recente estudo da consultoria americana McKinsey, chamado “Como os Sistemas Escolares de Melhor Desempenho do Mundo Chegaram ao Topo”, coordenado pela egípcia Mona Mourshed, revela como os líderes dos rankings internacionais chegaram ao topo da Educação. O relatório sintetiza mais de 200 entrevistas e visitas a 120 escolas de 20 países com o objetivo de identificar as razões do sucesso dos países mais bem posicionados no Pisa e os que subiram rápido no ranking. As descobertas foram resumidas em quatro “lições”. Cuidar da formação docente é o segundo mandamento do estudo.
A preocupação com a prática docente é comum aos sistemas de ponta, tanto na formação inicial como na continuada. Tutoria, trabalhos em grupo, cursos sobre as didáticas específicas: existem várias maneiras de criar e disseminar as melhores estratégias de ensino. No momento, os instrumentos de avaliação se tornaram um termômetro de qualidade para a Educação brasileira. A regra é que, muito embora as avaliações não constituam um fim em si mesmo, os números podem esconder ou revelar, dependendo de como são utilizados. Várias coexistem: Pisa, Saeb, Saerj, Prova Brasil e até o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que se consolidou, nos últimos anos, como um grande processo de seleção ao ensino superior do país e se manteve como um fornecedor de dados.
Em todo o país, 59 universidades aderiram ao Enem, sendo que 30 elegeram o exame, que tem como diferencial uma abordagem de avaliação crítica que exige um raciocínio de maior amplitude por parte do candidato, como única forma de acesso. Nos próximos dias 16 e 23 de março, a professora-doutora Maria Teresa Tedesco, que em sua trajetória acadêmica vem se dedicando à linha de pesquisa do ensino voltada para os processos de aprendizagem em Língua Portuguesa, recebe especialistas e professores dos ensinos médio e fundamental para discutir a proposta da matriz de referência do Novo Enem no que tange à tríade habilidades-conhecimentos-atitudes.
A iniciativa visa a discutir a preparação de docentes para lidar com as demandas exigidas pelo exame, bem como orientá-los a empreender práticas de ensino que qualifiquem o aluno para o ingresso no ensino superior e no mercado de trabalho. “O Novo Enem vem mobilizando a nossa sociedade, especialmente, os jovens e suas famílias, pois, hoje, fazer parte desse processo seletivo significa ter possibilidades de acesso às diferentes universidades públicas espalhadas por nosso país. O questionamento, entretanto, é como a escola, diante do ‘novo’ deve agir, considerando seu papel fundamental: ensinar e disseminar o conhecimento básico”, disse Maria Teresa Tedesco.
FOLHA DIRIGIDA — Como vocês formaram esse grupo com a proposta do Seminário Integrado, que discutirá, em dois encontros, propostas da matriz de referência do Novo Enem?
Maria Teresa Tedesco
 – Somos um grupo de professores preocupados não com a questão do Enem propriamente dito, mas com a questão de metodologia, das estratégias que podem ser usadas em sala de aula para desenvolver a capacidade dos alunos. Sou professora de Língua Portuguesa; não adianta o professor de Língua Portuguesa tomar a frente sozinho, porque você tem as quatro áreas, embora as competências sejam todas ligadas. Os colegas professores, que trabalham com metodologias e estratégias, e eu resolvemos oferecer esse seminário no início de março, período inicial do planejamento do professor. São dois colegas do Rio Grande do Sul, uma colega de Brasília que já trabalha há algum tempo com Enem, eu mesma, que trabalho com língua e três professores aqui do Rio.
Que tipo de contribuição vocês esperam trazer com esse encontro?
Achamos que podemos, dessa forma, contribuir de alguma maneira para que o professor possa pensar em novas estratégias. A primeira grande contribuição é fazermos uma reflexão, já que é muito comum os professores, a sociedade, fazer críticas. O Enem é isso, mobiliza tantos mil alunos, tudo o que já vivenciamos em relação a problemas de 2009 para cá. Mas a nossa contribuição efetiva, eu penso que seja uma reflexão a partir do que temos, que é uma matriz de referência de competências, de linguagens e habilidades na área. Vamos refletir sobre de que forma o professor pode trazer esse conhecimento para a sua aula, para o planejamento da sua aula, para tornar o aluno proficiente. Porque embora tenhamos essa questão das habilidades e competências nos PCNs, e já tem 12 anos isso, na verdade, continuamos discutindo se desenvolve habilidades ou não.
Isso ainda não está bem difundido entre os professores, ou, pelo menos, em sua maioria?
Não está. Inclusive temos, na matriz de referência em vigor, uma listagem de objetos de conhecimentos que traduzem o conteúdo curricular. Então, é preciso refletir sobre essa relação: conteúdos, objetos de conhecimento e habilidades e competências.
Pretendem desdobrar esses encontros para outros temas?
Não sei se para outros temas. Na verdade, fizemos um encontro para todos os professores na parte da manhã, no fim da manha para o início da tarde nos dividiremos em grupos de áreas de conhecimento e no sábado seguinte acontecerá o encontro somente sobre redação. Mas qual é o diferencial desse trabalho só com redação? Não queremos só trabalhar com professores de Língua Portuguesa. Nós entendemos que os professores das outras áreas podem dar uma imensa e inovadora contribuição sobre o que é escrever. O tema do ano passado não era um tema afeito à aula de Língua Portuguesa, era um tema afeito sobre conhecimentos gerais. Então, o aluno que teve oportunidade de fazer correlações do trabalho da Geografia, da Sociologia, da História com a aula de Língua Portuguesa teve mais facilidade de realizar esse trabalho. A ideia, depois, é promover encontros menores com professores das diferentes áreas, dentro das escolas ou até mesmo na universidade.
Essa adesão das universidades públicas ao Enem impulsiona os professores a fazer uma grande mudança na metodologia de trabalho? Até que ponto o Enem pode influenciar no ensino-aprendizagem na sala de aula?
Acredito que sim, que esse pool das universidades possa trazer essa perspectiva maior para a questão da reflexão das escolas sobre suas estratégias metodológicas. Mas eu acho que a grande questão não é somente as universidades terem adotado o Enem. Isso é realmente de grande importância, mas é o fato de o Enem se estabelecer no país como um processo seletivo. Não estou querendo dizer neste momento se esta é a melhor metodologia ou não. Acho que isso não é a questão, no meu entender. Não queremos fazer um debate sobre o Enem. Ele não é novo, apesar de seu um Novo Enem; trabalha com essas habilidades que vêm de outras matrizes de referência. É o Novo Enem porque traz uma outra perspectiva de processo seletivo e tal. Então, a partir disso, quais são os procedimentos metodológicos que podem ser incorporados ao fazer pedagógico para que a coisa realmente aconteça, para que nós realmente possamos desenvolver habilidades e competências nesses meninos? Isso é fundamental respondermos.
A organização deste seminário aponta para, ainda, uma falta de preparo dos professores para fazer uso de estratégias para os PCNs em sala de aula?
Eu não diria uma falta de preparo, mas um grande interesse das pessoas em discutir as estratégias pedagógicas. Não acho que seja uma falta, mas exatamente um interesse, uma necessidade de entrar cada vez mais nos foros de discussão, de reflexão. E não somente uma reflexão sobre o objeto em si, mas o que fazemos com o processo de ensinar e aprender de um aluno em pleno século 21, quando as demandas são todas diferentes. O aluno, hoje, precisa entender o que vai ser cobrado dele e precisa verificar quais são as demandas em termos de conhecimento a partir das quais ele será exigido, para que ele possa melhorar sua vida, para que ele possa crescer.
São pontos fundamentais do ensino da Língua Portuguesa que afetam o ensino de todas as outras disciplinas também, como a compreensão de texto…
Com certeza. Neste momento, para março, teremos um foco no Enem, na questão da matriz, processos didáticos, estratégicos e metodológicos. Mas nós queremos discutir, por exemplo, a questão do Saeb. Não como a gente pode preparar o aluno para a Prova Brasil, mas, sim, de que forma a escola pode contribuir para que todo esse movimento de avaliação – positiva ou negativa, e esse seria um outro momento de discussão -, quais são as estratégia metodológicas que podem ser usadas. A pergunta seria: eu desenvolvo as habilidades dos meus alunos só trabalhando na matriz de referência? Eu já te respondo: evidentemente que não. O que eu faço, como isso se mistura com conteúdo? É aí que entra a o que você está falando sobre a Língua Portuguesa. O Enade também é isso: uma prova de conhecimento geral implicando exatamente em saber ler e produzir um texto para aquilo ali. Acho que é uma discussão que, daqui a pouco, os professores universitários também vão querer fazer. Agora, é um pouco diferente porque não é preparar o professor do ensino universitário para isso; estamos olhando para o aluno que vai fazer a prova do Enade.
É uma maneira de alertar os professores que eles podem e devem usar as avaliações a favor do ensino-aprendizado?
Perfeitamente. Acho que as críticas são válidas, acho que podemos ter outras alternativas, sem dúvida alguma. Mas também acho que não podemos ter a posição só de ficar dizendo que não valerá a pena. A partir disso, o que podemos fazer? Porque o “a partir disso” não significa treinar para a prova. Ninguém treina para uma prova dessa natureza. É preciso trabalhar com um redimensionamento dessas habilidades, relacionar com os conteúdos – que são os objetos de aprendizagem – para que você possa reverter positivamente para a formação do aluno.
E a formação do professor, como fica dentro desse panorama?
Trabalho diretamente com a formação de professores no curso de Licenciatura aqui na Uerj, no curso de Letras, no Colégio de Aplicação, com estagiários. Acho que há modificações nesse processo, há um crescimento, mas há uma distância muito grande entre o que se faz na universidade, nos cursos de formação, bacharelados e licenciaturas, e o que é solicitado no mercado de trabalho. Vejo uma grande diferença. Escuto muitas vezes meus alunos falarem que só quando passam pelo estágio prático é que veem o que é, realmente, dar aula. Uma coisa é teorizar, é necessário. Precisamos fazer teoria, nós, professores universitários, também temos que fazer teoria. Mas quem está olhando para a prática, e aí entram as diferentes linhas de pesquisa, linhas de interesse, tem que aproximar esse mercado, esse fazer com a teoria. Eu acho que a universidade está muito distante disso. E não adianta fazer um curso só de metodologia, não é isso, para nenhuma área.
Tem havido um esforço dos governos na implementação de políticas públicas de, principalmente, capacitação dos professores. Como a senhora vê essas ações?
Vejo muito positivamente. Uma das minhas atividades até o ano passado, e provavelmente continuarei isso este ano, foi como consultora da Secretaria Municipal de Educação na área de Língua Portuguesa. A secretaria recebeu os índices do município do Rio de Janeiro. Houve um aumento precioso, não digo maravilhoso, mas foi certamente precioso, que mostra o investimento que se fez na Secretaria de Educação, na figura da secretária Claudia Costin e, evidentemente do prefeito, da política estabelecida. Mas ainda há muita coisa a ser feita. Acho que não dá para parar. Tivemos esses índices, mas eles podem melhorar. É preciso trabalhar muito com a questão da formação. Vejo com olhos muito positivos e acho que precisamos que seja um objetivo nosso fazer um estreitamento entre a universidade e o ensino básico.
De que forma, efetivamente, a universidade pode contribuir para que esse estreitamento seja feito?
As pessoas que têm interesse nessa área, no caso específico do ensino, devem promover encontros, formações, cursos, publicações que estejam voltadas, realmente, para a prática do professor. Essas seriam boas formas de contribuição efetiva para esse estreitamento.
A senhora acha que já está acontecendo uma aproximação maior entre as universidades e os governos, talvez influenciada pelos índices e avaliações da Educação que vêm sendo usados para nortear a melhoria da qualidade de ensino?
Nós não podemos achar que as avaliações resolvem. As avaliações são importantes, como costumo dizer, para iluminar o caminho para as estratégias político-educacionais que nós vamos criar. Se essa dobradinha está sendo feita, acho que a avaliação é bastante válida, isso é fundamental. Não é o que acontece mais com o Enem. O Enem é um processo seletivo que pode nos dizer várias coisas, mas é um processo de seleção que leva os alunos para uma vaga dentro de uma universidade pública, das tantas públicas do Brasil todo. Agora, acho que fazer avaliação pela avaliação realmente não leva a nada. Ao contrário, é estressante para os alunos, que estão sendo experimentados, é estressante para o professor, que tem uma avaliação nova. Eu entendo que a avaliação pode nos encaminhar, em termos mais gerais, para políticas públicas que vão ser instituídas, estabelecidas a partir dos projetos que os governos tenham. Para o professor, por exemplo, não acho que ele tenha que treinar o aluno para fazer a prova A, B, C. Não existe isso.
Folha Dirigida