DO PAPEL PARA A PRÁTICA: PROFESSORA USA ELEMENTOS DA CIDADE PARA ENSINAR MATEMÁTICA

Do papel para a prática: Professora usa elementos da cidade para ensinar matemática - Estudantes aprenderam conceitos numéricos usando pontos turísticos de Joinville (SC)

Pricilla Honorato

“Os números são essência de todas as coisas”. Era o que acreditavam os integrantes da escola pitagórica, fundada pelo matemático e filósofo grego Pitágoras (570 A.C). Expoentes da matemática grega, os pitagóricos explicavam o mundo por meio dos números. Embora essa ideia pertença ao campo metafísico, o contrário – explicar a matemática por meio do mundo – é algo concreto e capaz de solucionar a dificuldade de muitos estudantes com os números.

Não é nenhuma novidade que, para alunos de todas as séries, a matemática sempre foi um mistério cheio de termos e conceitos aparentemente complicados. No entanto, quando se descobre que o abstrato mundo dos números pode ser projetado sobre o cotidiano, a névoa que encobre a confusão de símbolos amontoados nos livros e cadernos pode, finalmente, dissipar-se.

A aproximação entre conceitos e aplicabilidade é decisiva para a assimilação de conteúdos da disciplina. Foi pensando nisso que a professora do Ensino Fundamental Valkiria Grun Karnopp, da Escola Municipal Governador Pedro Ivo Campos, em Joinville (SC), criou o projeto “Joinville e a Matemática”, que garantiu a ela o Prêmio Educador Nota 10, da Fundação Victor Civita, em 2012 (leia mais aqui).

Entre a história e a matemática
Para entender a origem do projeto de Valkiria é preciso, antes, vasculhar um pouco da paisagem da cidade onde ela e seus alunos vivem. Bicicletas, flores e pitorescas casinhas enxaimel formam a paisagem costumeira em Joinville e compõem a história e a identidade cultural da cidade. É justamente a relação desses elementos com a disciplina de matemática que se tornou o desafio levado para a sala de aula pela professora.

O projeto “Joinville e a Matemática” nasceu da mescla entre a história da cidade e a matemática. Para ensinar o conteúdo de geometria plana do 8º ano, a professora tomou por base os elementos com os quais os alunos já estavam familiarizados a vida toda. A ideia de Valkiria era que eles pudessem ir além das resoluções de questões matemáticas e adquirir uma melhor compreensão, tanto da teoria quanto da natureza do problema.

Segundo a educadora, a dificuldade da matemática é superestimada devido à falta de compreensão mais ampla da disciplina. “Os alunos não sabem o porquê e nem de onde vêm aquelas equações e números. Quando sabem essas coisas, fica muito mais fácil solucionar as questões”, define.
Inspiração

Há mais de 70 anos, durante os meses de novembro, as cores invadem Joinville para a chamada “Festa das flores”. Foi nesse período inspirador, durante uma das muitas comemorações que enfeitam a cidade, que Valkiria viu nascer a semente do projeto. “Fui a uma festa onde o hall de entrada estava coberto de flores feitas em dobradura. Fiquei encantada e imaginei por que não utilizar aquilo nas minhas aulas”, recorda-se.

Buscando incrementar o projeto com outros elementos, a professora aproveitou as férias para observar a cidade e suas características históricas e, assim, acrescentou a bicicleta e as casas enxaimel aos temas que seriam base para o trabalho do conteúdo de matemática com sua turma em 2012.

Cálculo e prática
Com base nos três temas escolhidos – bicicletas, casas e dobraduras -, o projeto se consistiu em várias etapas, nas quais os alunos trabalharam conteúdos como polígonos, área, soma dos ângulos internos e externos, círculo, circunferência e o número π.

O projeto exigiu grande envolvimento por parte dos alunos, uma vez que eles deviam pesquisar a história da cidade, escrever relatórios, tirar medidas, fazer cálculos e chegar a soluções. “Foi surpreendente o interesse dos alunos. Foi muito bom ver o entusiasmo deles. Com as atividades, a aula passava voando e os resultados foram ótimos”, conta Valkiria.

A coroação do aprendizado veio com o teste prático. Com suas próprias bicicletas em mãos, os estudantes aprenderam, por exemplo, que ao dividir o comprimento da circunferência da roda pelo seu diâmetro, obtinha-se o número π. Além de testar o cálculo do π com outras medidas de circunferência, Valkiria contou aos alunos que seria possível descobrir quantos metros se percorre com uma pedalada por meio de cálculos com o π. Após trabalharem com os números, os alunos partiram para a verificação e se surpreenderam ao descobrir que os resultados práticos correspondiam aos cálculos.

Casinhas e dobraduras
Depois do envolvimento da turma com a atividade das bicicletas, o próximo desafio foi estudar os polígonos. Valkiria iniciou o conteúdo questionando os adolescentes sobre as propriedades dessas figuras geométricas e, em seguida, para trabalhar ângulos e área, a educadora apresentou as fotos das casinhas enxaimel, construções formadas pelo encaixe de peças de madeira, uma tradição trazida ao Brasil pelos imigrantes alemães.

Essa etapa foi de pesquisas e debates sobre a história das casas e os alunos foram instigados a encontrar a ligação entre as construções e a matemática até chegarem às formas geométricas que aparecem na estrutura, concluindo que há quadrados, retângulos, triângulos e trapézios nelas. O tema foi finalizado com um jogo em que todos deveriam descobrir as propriedades de diversos polígonos baseando-se apenas em fichas que continham lados e ângulos.

O trabalho com origamis foi a etapa final do projeto. As dobraduras em papel serviram para revisão do conteúdo. Cada aluno escolheu um tipo de flor e, no decorrer do trabalho, anotaram ângulos e lados.

Os números: uma vocação 
O amor de Valkiria pelos números está além da facilidade com a matemática. Está no sangue: ela possui três primas e uma tia que também lecionam a disciplina. Por essa razão, a hoje educadora pós-graduada em matemática e com 25 anos de carreira em escolas públicas conta que desde pequena cultivou o sonho de ser professora. “Já no Ensino Fundamental eu sabia que queria ensinar matemática. O sistema de ensino de antigamente era muito diferente, aprendi matemática de uma forma muito abstrata”, lembra.

O talento para os números, os cursos de aperfeiçoamento (como o Gestar, oferecido pela secretaria da Educação) e a dedicação coroaram a carreira da docente várias vezes. Valkiria possui premiações na Feira Catarinense de Matemática em 2003 e em feiras municipais e regionais de matemática, além das participações na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (Obmep), na Olimpíada Brasileira de Matemática (OBM) e na Olimpíada Regional de Matemática de Santa Catarina (ORM). No ano passado, foi a vez do Prêmio Educador Nota 10.

“Ao ganhar (o Prêmio Educador Nota 10), senti-me muito honrada”, brinca a educadora. Ela destaca a importância de reciclagem constante na carreira. “É preciso fazer cursos, se desenvolver, o professor não pode parar no tempo”, afirma.
A professora não esconde a predileção pelo Ensino Fundamental. “Trabalho há 20 anos com adolescentes. Eles são mais difíceis, mas com jeitinho é possível conquistá-los. Aprendi o seguinte: se tem um aluno que está incomodando, tento trazê-lo pra mim. A solução é resgatá-lo”. E acrescenta que o ensino de matemática nessa etapa de ensino é estratégico. “Se você dá uma boa base, lá na frente o aluno terá mais facilidade com os conceitos abstratos. O ensino da disciplina precisa voltar-se não só para a promoção do conhecimento matemático, mas também para mostrar a habilidade em utilizá-lo”.

Após uma longa jornada na Educação, para Valkiria, o segredo da realização na docência está no impacto positivo que se provoca nos estudantes. “Dois alunos meus seguiram carreira em matemática e hoje são meus colegas de trabalho. Isso que é bacana: depois de muitos anos, você sabe que contribuiu para tirar o medo do aluno e que se tornou uma inspiração para ele”.

Para ver um vídeo sobre o projeto da professora, clique aqui.

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