É preciso perder o medo mútuo entre escola e autistas

Profissionais da educação e da saúde defendem a escola como uma das grandes forças para o bom desenvolvimento do portador da Síndrome de Asperger

“Ainda existe uma grande dificuldade da escola regular para lidar com a neurodiversidade”, declara a médica Fátima Dourado. A afirmação foi sentida nas angústias dos pais e portadores de Asperger ouvidos pelo O POVO. “O mais difícil de tudo é encarar a escola. Não existem profissionais treinados para receber as crianças”, diz uma das mães. “A escola tem um modelo padrão de tudo para seguir. É doloroso saber que os seus filhos não são bem aceitos”, desabafa um pai.

A Política de Proteção dos Direitos de Pessoa com Transtorno do Espectro Autista, sancionada pela presidente Dilma Rousseff na última semana de dezembro de 2012, prevê punições aos gestores de escolas que se recusarem a matricular alunos com autismo. A rejeição pode provocar multas aos diretores, e, em caso de reincidência, a perda do cargo. A lei, batizada de Berenice Piana, em homenagem à autora do projeto apresentado no Congresso, também mãe de autista, fala ainda acerca da participação da sociedade em todas as etapas da política: desde a implementação até o controle da execução das ações.

 

Para os pais de crianças e adolescentes com Asperger, a lei é importante, embora a grande preocupação seja ainda a forma como a escola conduz o processo de ensino-aprendizado deles.

 

A professora da Faculdade de Educação (Faced) da Universidade Federal do Ceará (UFC) Rita Vieira defende que, apesar do medo dos pais, é importante matricular a criança na escola. “Nenhuma criança deve ficar de fora da escola, que tem a obrigação não somente de aceitar, mas de cuidar da melhor maneira e com as particularidades necessárias ao bom desenvolvimento dela”, diz Rita, que é phd em psicopedagogia e pesquisadora no campo da inclusão escolar.

 

A psicomotricista Clarissa Leão reforça que no ambiente escolar, os “aspis” costumam apresentar bom desempenho nas primeiras séries e podem inclusive aprender a ler sozinhas. A médica Fátima Dourado completa que crianças com Asperger não apresentam deficiência intelectual e precisam da convivência com os seus pares cronológicos para o desenvolvimento acadêmico e social.

 

Inclusão nas públicas

A pesquisadora Rita Vieira afirma que a escola pública municipal está mais à frente no processo de inclusão do que as escolas particulares da Capital. “Existe, hoje, na maioria das escolas, professores treinados pela Universidade que atuam em salas de recursos multifuncionais, responsáveis por realizar atendimento em educação especial. No caso dos autistas, eles são orientados para agir no processo de socialização e interação”.

 

A professora Rita diz é possível perceber, cada vez mais, um fluxo de pais que mudam os filhos da escola particular para a pública em busca de melhor acolhimento. “As escolas de maneira geral ainda deixam muito a desejar no aspecto da inclusão. Porém, a concepção de incluir ainda é mais falha na rede particular do que na pública; pelo menos, na rede municipal. Poucas particulares conseguem fazer isso de fato. Na públicas, o processo já andou mais”, defende a acadêmica. (Sara Rebeca Aguiar)


Dicas de livros, filmes, sites e serviços

 

Livros

Olhe nos meus olhos

Síndrome de Asperger no ensino fundamental

Asperger no feminino

Tudo sobre a Síndrome de Asperger

Compreender a Síndrome de Asperger

A Síndrome de Asperger

Autismo e Cérebro Social (Fátima Dourado)

 

Filmes

Meu nome é Khan

Ben-X

Adam

Loucos de Amor

Mary & Max

Muito além do jardim

 

Sites

www.autismobrasil.org

www.apsa.org.pt (o site da Associação Portuguesa de Síndrome de Asperger – Apsa é considerado um dos melhores sobre o assunto. Além de ricas informações sobre a síndrome, traz guias para pais e professoras. A página disponibiliza ideias de atividades em sala de aula, um grande apoio aos professores. Há também mais dicas de livros e filmes).

 

Saiba mais

A Síndrome de Asperger é reconhecida, hoje, como um dos transtornos do espectro do Autismo. Foi descrita pela primeira vez em 1943 por Hans Asperger, pediatra austríaco. Ele descreveu características comuns como isolamento social, linguagem precoce e formal, grande dificuldade na comunicação não verbal, incluindo gestos e expressão facial, desajeitamento motor e fixação em assuntos não usuais.

 

Onde se informar

Centro Internacional de Análise Relacional (Ciar)

Realiza trabalhos que objetivam desenvolver o potencial do ser humano, elevando sua qualidade de vida socioafetiva e profissional. Presta serviços nas áreas de terapia, educação e saúde.

Endereço: Rua Monsenhor Catão, 1.179, Aldeota. (Fortaleza-CE)

Telefone: (85) 3244 1779

Site: www.ciar.com.br

Casa da Esperança

Realiza trabalho com crianças e jovens autistas. Possui equipes multiprofissionais para atendimento. É credenciada ao Sistema Único de Saúde (SUS). Faz parte de um movimento mundial de luta pela saúde, educação e dignidade de pessoas autistas.

Endereço: Rua Francílio Dourado, 11, bairro Água Fria.(Fortaleza-CE)

Telefone: (85) 3081 4873

Site: www.autismobrasil.org

O Povo