A formação do leitor

Jane Tutikian: a aposta em políticas e ações de leitura
– Divulgação

A mesma pesquisa Ibope Media Leitores no Brasil destacou também as capitais mineira e gaúcha como as mais bem sucedidas em relação à leitura. Tanto em Belo Horizonte como em Porto Alegre, 41% dos entrevistados contaram um livro devorado no último mês. De acordo com a sondagem, há mais gente lendo nestas cidades que, de modo geral, no País, já que a média nacional de leitores ficou em 33%.

O POVO pediu à diretora do Instituto de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS) e escritora gaúcha, Jane Tutikian, para fazer uma reflexão sobre os motivos do destaque porto-alegrense. Com um prêmio Jabuti de 1984 por A Cor do Azul, Jane foi homenageada na 58ª Feira do Livro de Porto Alegre, realizada no ano passado.(Raphaelle Batista)

O POVO – Que ações foram tomadas, tanto pelo poder público quanto pela própria sociedade, para gerar este cenário positivo em Porto Alegre em relação à leitura e ao livro?

Jane Tutikian – A grande explicação está na vontade política e nas ações efetivas decorrentes desta vontade. Existe um esforço do Estado para isso. Por exemplo, desde o final da década de 70 existe um projeto, o Autor Presente, coordenado pelo instituto estadual do livro, que atende as escolas da rede pública estadual, colocando livros dentro da escola e levando para lá o escritor para conversar com seus leitores. No âmbito municipal, existe programa semelhante, Adote um escritor, que trabalha toda a comunidade escolar, da merendeira ao aluno e que culmina, igualmente, com a presença do escritor. A câmara rio-grandense do livro realiza um trabalho excepcional de incentivo à leitura, com a feira do livro de Porto Alegre (no ano passado, 1 milhão e 700 mil pessoas passaram por lá) e a orientação das feiras dos municípios do interior do Estado. E eu arriscaria dizer que há feiras do livro o ano inteiro, nas diferentes cidades do Rio Grande do Sul. Tudo isso é suficiente? Eu diria que não. Há muito o que ser feito, no Rio Grande do Sul, no Ceará, no Brasil.

OP – Que elementos a senhora acredita serem necessários para que qualquer cidade se torne uma cidade de leitores?

Jane – A única possibilidade de se ter uma cidade leitora é criando políticas e ações de leitura e investindo fortemente na formação do leitor. Nosso início, pode ser uma pergunta simples: quem forma o leitor? A família diz que a responsabilidade é toda da escola; a escola, por sua vez, diz que a criança deve trazer o hábito/gosto pela leitura de casa. Como é que forma a família, se a família, cada vez mais empobrecida, não lê? Como é que forma a escola, se o ensino tecnicista das últimas décadas optou pela compartimentação das disciplinas tirando, com isso, dos alunos, a visão do todo, a capacidade crítica? Qual a fórmula para se transmitir/despertar paixão por aquilo que não se conhece?

O Povo