Professores da rede pública de ensino culpam aluno por nota ruim

Pesquisa mostra que 94% dos profissionais do ensino acham que estudante não se esforça e é desinteressado. Porém, 73% admitem que nunca leem livros

Daniella Zanotti
dzanotti@redegazeta.com.br

Três em cada dez alunos do 9º ano da rede pública já foram reprovados pelo menos uma vez. De quem é a culpa, então, dos problemas de aprendizagem e do baixo rendimento em sala de aula? Para os professores, principalmente da família e dos próprios alunos.

Para 96% dos docentes que atuam na rede pública, as dificuldades estão relacionadas à falta de acompanhamento da família; 94% atribuem as baixas notas ao desinteresse e à falta de esforço do aluno; e 70% acham que o motivo é a indisciplina dos estudantes. 

Esses são alguns dados do levantamento feito com base nos questionários da Prova Brasil 2011, aplicada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). No Espírito Santo, participaram alunos, professores e diretores de 1.004 escolas. Os dados foram divulgados pela organização sem fins lucrativos QEdu: Aprendizado em Foco.

Responsabilidade

Os resultados mostram que os professores não se sentem como parte responsável pelo fracasso no desempenho dos alunos. Dados como baixos salários, carência de infraestrutura, ambiente de insegurança e conteúdos curriculares inadequados também não foram levados em consideração pelos docentes. A maioria dos professores respondeu que conta com equipamentos e computadores com acesso à internet.

Foto: Genildo

Genildo

Conselheiro do movimento Todos Pela Educação, Mozart Neves Ramos afirma que creditar a culpa somente aos pais e aos alunos é uma visão equivocada dos problemas da educação. “Se os alunos não aprendem, o maior insucesso é do professor. É preciso levar em conta a qualidade pedagógica da aula, a capacidade de criar empatia com os alunos e de buscar soluções para os problemas em sala de aula. É papel do professor motivar seu aluno e mudar o percurso quando necessário.”

Papel

Mozart ressalta que o professor precisa se enxergar como parte integrante do contexto e cumprir o seu papel. “O professor não pode simplesmente passar o conteúdo sem dar sentido ao que ensina. É necessário relacionar e dialogar com o mundo do aluno, tornando a aula sempre atraente.”

Para o secretário de Estado da Educação, Klinger Barbosa, uma série de fatores influencia na aprendizagem dos alunos, entre eles o grau de participação e de qualificação dos professores.“É preciso levar em conta o envolvimento e o nível cultural da família, o relacionamento dela com a escola, a organização da unidade de ensino, que deve ser dotada de ambiente moderno e confortável e a atratividade do currículo. Mas o professor tem um papel fundamental nesse contexto”, frisa o secretário.

73% dos professores leem pouco

Os hábitos dos professores também foram alvo do levantamento realizado na Prova Brasil 2011. Um dos dados que chamam atenção mostra que 73% dos professores das escolas públicas no Estado não têm o hábito de ler livros em seu tempo livre. Além disso, 68% dos docentes não frequentam museus, e 40% dos entrevistados afirmam que nunca vão ao cinema.

Para o diretor do Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Espírito Santo (Sindiupes) Christovam Mendonça, a falta de hábito de leitura é uma realidade no Brasil, inclusive entre profissionais de outras áreas. Mas não acredita que, entre docentes, o índice seja causado apenas por desinteresse.

“É preciso lembrar que a maioria dos professores trabalha nos três turnos e não tem tempo para ir a bibliotecas, além do fato de os livros serem caros. Há fatores sociais, culturais e econômicos”, salienta Mendonça.

O conselheiro do Todos Pela Educação Mozart Neves Ramos surpreendeu-se com o resultado da pesquisa e diz que falta incentivo. “O custo do livro é alto. Em alguns Estados, as secretarias dão créditos para os professores escolherem os livros em feiras. É uma forma de mudar essa realidade.”

Fonte: A Gazeta