A dimensão cultural da leitura

E a cidade de Fortaleza com isso tudo? Nossa realidade não é muito distinta em relação à média do Brasil, mas chega a ser mais crítica. A fotografia de nossa cidade em relação ao IDH, Ideb ou a proporção de analfabetismo não é das mais bonitas. No ranking do IDH, em dados de 2008, somos a 18ª capital com índices de 0,786, distinta de Florianópolis, na terceira posição com 0,875. No caso do Ideb somos a 17ª capital no ranking com 4,2 do 1º ao 5º ano e de 3,5 do 6º ao 9º ano. Os dados são de 2011. Embora tenhamos avançados bem nos últimos cinco anos, ainda estamos abaixo da média nacional que é de 5,0 para os anos iniciais e mais distante ainda de Florianópolis que assume a primeira posição nos anos iniciais com 6,0. Em se tratando dos quadros de analfabetismo, Fortaleza é a sétima capital com maior proporção de analfabetos de 15 anos em diante, com uma taxa de 6,9%, enquanto que a capital catarinense está no topo com apenas 1,9% de analfabetos nessa mesma faixa etária. E, agora, para borrar mais ainda a nossa fotografia, ocupamos a última posição na pesquisa de hábito de leitura realizada pelo Ibope Media em um ranking de nove capitais. Segundo esta pesquisa, nossa média de leitura de livros é 27% de leitores. Ou seja, sete em cada dez fortalezenses não leram um livro sequer nos últimos 30 dias. Pena que Florianópolis não esteja contemplada nesta pesquisa de hábito de leitura. Minha aposta é que ela superaria Porto Alegre (primeira com 41%), considerando seus índices de IDH, Ideb e a proporção de analfabetos.

Desculpe-me se amolei você, caro leitor, com todos estes números enfadonhos. Mas nossa conversa passa por estas estatísticas. No entanto, reafirmo que os números sozinhos de leitores ou de livros lidos nos dizem pouco. Daí a importância de relacionarmos os indicadores de leitura e de comportamento leitor com outros indicadores sociais, educativos, culturais e econômicos e, assim, estabelecermos uma abordagem mais ampla. Caso tivéssemos mais caracteres disponíveis para este artigo, certamente poderíamos fazer algumas analogias relacionadas ao consumo cultural e ao perfil de acesso da população brasileira aos bens e serviços culturais e de como isso pode ter impactos nos indicadores de leitura. Em que medida, por exemplo, uma cidade que tem uma rede efetiva de bibliotecas públicas, teatro, museus, cinemas afetam positivamente na formação de leitores.

Por fim, deixo uma boa provocação para os secretários de cultura e de educação e, quiçá, para o prefeito da cidade. Por que não pensarmos em uma grande e bonita meta de fazermos de Fortaleza, uma cidade de leitores? Por que não construímos com uma ampla participação da sociedade o Plano Municipal de Livro e Leitura, estabelecendo metas que possam alterar esta fotografia que vimos aqui, articulando os programas de acesso ao livro, de promoção da leitura, de formação leitora, de incentivo à criação literária e acadêmica, de fomento para as pequenas editoras e livrarias da cidade? Claro que tudo isso deve partir do reconhecimento, incentivo e da articulação com os projetos de promoção da leitura desenvolvidos por organizações civis da cidade. Que tal pensarmos também em um grande programa de formação de pais (famílias) e de professores leitores? O fato é que estou cada vez mais convencido de que a melhoria da qualidade de educação passa pela formação de leitores cidadãos. Mas não uma formação instrumental e funcional. Falo da dimensão cultural e subjetiva da leitura. Aquela que nos faz mirar o mundo de maneira mais autônoma, crítica e inventiva. Aquela que nos faz capazes de reinventarmos uma cidade. E aí, que tal reinventarmos uma Fortaleza através da leitura plural? (Fabiano dos Santos)

O Povo