O tablet chega à sala de aula

Carolina Mainardes

A educação se prepara para vivenciar um novo tempo: a era dos tablets. O equipamento aos poucos invade as salas de aula no Brasil e deve consolidar mudanças e transformações na forma de ensinar e de aprender. O uso da novidade em sala de aula traz vantagens e, ao mesmo tempo, deixa indagações. Enquanto isso, escolas que já adotam a ferramenta mostram que otablet chegou para ficar.

No Centro Educacional Sigma, localizado em Brasília (DF), o uso do equipamento nas classes já é uma realidade. Um universo composto por alunos do 1º ano do ensino médio trocou os livros didáticos pelo aparelho, que traz o conteúdo do material impresso na versão digital. São 15 títulos disponíveis no tablet. “A implantação do projeto está sendo relativamente tranquila. Os alunos estão gostando muito porque é uma realidade mais próxima da realidade que eles têm em casa”, avalia Rogério Moraes de Carvalho, responsável técnico pelo projeto dos tablets no colégio, cuja clientela é formada por estudantes de classe média e classe média alta. Implantado neste ano, o projeto de utilização dos tablets pelos alunos deve passar por uma avaliação mais aprofundada, com foco no rendimento dos estudantes. Mas mesmo sem essa avaliação nas mãos, os professores têm notado uma empolgação maior dos alunos. “É uma motivação a mais para eles estudarem, porque o tablet não é como o livro, que é estático”, comenta Carvalho.

No Colégio Atual, que fica em Recife (PE), o tablet também está sendo adotado. No entanto, com algumas diferenças em relação ao Sigma. No Atual, são os alunos do segundo ciclo do ensino fundamental que estão levando a tecnologia para dentro da sala de aula. A função do equipamento também é outra. Os tablets não substituem o material didático, mas são usados de forma individualizada, como ferramenta de apoio com uma gama de opções: livro digital, lista de exercícios, laboratórios virtuais, simuladores, animações, filmes e jogos educativos. “Todo processo de implantação de qualquer nova estrutura na área pedagógica é sempre delicado. Mas a educação não poderia estar distante dos avanços tecnológicos, tem que se adaptar à realidade”, salienta Ana Elizabeth Alves Calábria, diretora da instituição. Em comunicado distribuído aos pais no final do ano passado, a direção do Colégio Atual afirma que a utilização dostablets traz várias vantagens, como, por exemplo, intimidade com a tecnologia, mais mobilidade para os estudos e maior satisfação e desenvoltura na aprendizagem.

Transformação

A mudança que o tablet pode levar para o modelo de ensino é foco de estudos e pesquisas. Para muitos especialistas, o uso da ferramenta em sala de aula é algo inevitável. Entretanto, todos defendem a preparação dos docentes e a adequação de conteúdo para o uso da nova tecnologia.

Para o professor doutor José Armando Valente, pesquisador do Núcleo de Informática Aplicada à Educação (Nied) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a implantação dos tablets na sala de aula é positiva, mas, da forma como tem sido adotada nas escolas do Brasil, está complicada. “O currículo foi desenvolvido para o lápis e papel. Essa nova tecnologia modifica muito a forma como o conteúdo é trabalhado na sala de aula. É preciso se pensar num currículo da era digital”, considera. Valente acredita que o sistema educacional deve ser repensado, em termos de tecnologia. “Antes, para elaborar um gráfico de uma função matemática levava-se de duas a três aulas. Hoje, num clique o gráfico está pronto. Como trabalhar com isso é a questão”, comenta.

O pesquisador critica a substituição do livro didático convencional pelo material digital. “Essa passagem está sendo feita de uma forma extremamente burra. Não adianta apenas entregar ao aluno os tablets com as apostilas. Deve-se pensar numa maneira da tecnologia contribuir para o processo de construção do conhecimento”, avalia.

Para preparar os educadores, Valente defende a adoção de um processo concomitante de formação, em que o docente utilize o próprio tablet e, ao mesmo tempo, trabalhe com o aluno em sala de aula. “É necessário que o professor seja desafiado pelo aluno, que tem mais familiaridade com essa tecnologia”, diz. E completa: “o professor não foi formado para essa dinâmica e, sim, para aquele modelo instrucionista, onde ele comanda a aula. O que essa nova ferramenta possibilita é uma abordagem construcionista, onde o aluno deixa de ser passivo e constrói a informação junto com o professor, que passa a ser mais um mediador”, analisa.

Estrutura

A falta de infraestrutura específica nas escolas também é um fator que dificulta a implantação de computadores etablets. “Os prédios não estão preparados. Falta instalação elétrica adequada, pois a escola não foi pensada nem dimensionada para ter essa estrutura”, observa. Valente refere-se às redes pública e privada. “A escola, no geral, não foi projetada para ter essa tecnologia. A diferença é que na rede pública uma adaptação demora ainda mais”, acrescenta.

A consultora da Fundação Lemann, Ilona Becskeházy, acredita que a seleção do conteúdo para utilização no tablet é um ponto crucial. “O que importa é a seleção de conteúdo relevante, instigante e alinhado com os objetivos pedagógicos em pauta, além de perguntas e atividades progressivamente desafiadoras para manter os alunos usando o cérebro, um dos principais objetivos perseguidos pelos estabelecimentos de ensino”, ressalta Ilona, que também é e colunista da Gestão Educacional.

Para Adriana Beatriz Gandin, diretora pedagógica do projeto “iPad na sala de aula”, o uso do tablet na escola “é fantástico, desde que haja um projeto de trabalho bem estruturado”. Para isso, é aspecto fundamental preparar o professor para o uso das novas tecnologias. “A utilização de recursos culturais de docentes e estudantes fará com que uma verdadeira parceria se forme e o interesse pelas aulas tenda a aumentar, pois os alunos se sentirão colaboradores e coautores e não apenas pessoas que recebem material para decorar. Consequentemente, o rendimento escolar tende a melhorar”, analisa Adriana.

Entre as possibilidades de uso dos tablets em sala de aula, ela elenca a utilização de inúmeros aplicativos para o trabalho com conteúdos específicos; a realização de vários tipos de apresentação; pesquisa na internet; elaboração de textos, fotos e vídeos; criação de projetos interdisciplinares e de conteúdos para blogs, entre outras.

Conheça as vantagens do uso do tablet na sala de aula

  • Busca de informações e realização de pesquisas. Não somente na internet, mas também em jornais e revistas;
  • Mobilidade: com o tablet é fácil organizar os alunos em grupos ou sentados em “roda”, no chão ou em espaços abertos, fora da sala de aula. Não é necessário deslocar a turma para o laboratório de Informática;
  • Facilidade de realizar registros: anotações, gravações de voz, filmagens etc.;
  • Diminuição do peso das mochilas com uso de livros e textos digitais;
  • Possibilidade de customização das aulas que podem ser construídas e organizadas de acordo com a realidade de cada série e turma;
  • Segurança: o controle de acesso aos aplicativos e a sites pré-selecionados é mais facilitado do que em um computador;
  • Salvamento automático, evitando perda de conteúdo;
  • Diferentemente de desktops notebooks, o tablet não atrapalha o contato visual entre alunos e professor.

Fonte: projeto “iPad na sala de aula” – direção pedagógica: Adriana Beatriz Gandin

Matéria publicada na edição de julho de 2012 da revista Gestão Educacional. Deixe seu comentário na seção Voz do Leitor.