Da ribeira do rio das onças ao mundo

Ele nasceu na ribeira do rio das onças. Eram os inícios do abril de 1921. Havia lá uma jovem urbe, mesopotâmica, decantada do povoado dos jaguares, no que temos hoje como Limoeiro do Norte. Faleceu Lauro de Oliveira Lima, o jaguar da educação brasileira. Batam os sinos de todas as capelas e reconheçamos que ficamos menos inteligentes.

 

Cidade de 60 mil habitantes, Limoeiro deveria estar em luto cívico e educacional. Seria um mês de seminários e tertúlias nas escolas, na Academia Limoeirense de Letras e institutos acadêmicos de nível superior voltados para o debate das ideias daquele conterrâneo que, aos 91 anos, morreu no dia 30.

 

Refiro-me ao grande educador e intelectual alencarino, homem do mundo, Lauro de Oliveira Lima. A ribeira do rio das onças é título dado a um dos seus livros esquecidos pelos seus próprios cidadãos. Dedicado ao Limoeiro, não economiza palavras. Mas diz o que precisava ser dito. Os professores de hoje deveriam animar, em prosa e verso, em cada esquina da princesa do vale jaguaribano, a revolução teórica e metódica do grande mestre. O projeto é ler os 30 livros publicados por Lauro com debates abertos a pais e alunos. O mesmo deveriam fazer os secretários educacionais de Fortaleza e do Estado do Ceará.

 

Lauro foi um dos maiores internacionalistas cearenses, embora personagem de um mundo que no mundo de hoje seja rarefeito. Construiu um feixe de teorias e ciências em torno da educação que liberta. Ele lembra ao homem comum que há alguma chance de avançar por meio de postura crítica e estudiosa. Ele não gostava de migalhas, nem de esmolas, nem de bolsas da preguiça. Lembra minha própria avó, com a qual dialogou: Dona Maria Sombra. Lauro não nutria muita amizade pelas classes pudentes que se mantém, mesmo com discurso açucarado e falsos abraços, à distância do povo.

 

O velho professor representou a consciência crítica da educação nacional, ao lado de Paulo Freire e Anísio Teixeira. Com ele o Ceará do sertão foi ao mundo. Difícil transitar na América Latina ansiosa por um projeto de educação cidadã sem os ensinamentos dele. Todos o conhecem. Na Argentina

da busca democrática, e ainda nos anos do declínio das ditaduras, o método de aprendizagem de Lauro era regra. Quem confirmou isso, Eduardo Viola, professor titular de Relações Internacionais da Universidade de Brasília, ficou espantado que sua literatura de formação na militância argentina tivesse sido forjada por um gênio do sertão brasileiro.

 

Salve Lauro de Oliveira Lima! Era melhor que Piaget uma vez nosso. Foi o Paulo Freire sem meios. Relembro outro momento. Aquele do inventor do projeto acadêmico e institucional da Universidade de Brasília, o prof. Anísio Teixeira, símbolo da modernização universitária brasileira. Impressionava Teixeira a força telúrica e as propostas avançadas de Lauro. As ideias dele acerca da aprendizagem da criança e do método do conhecimento do imprevisível, como lembrou na semana passada a professora Ana Iório, neste jornal, são chaves do tamanho do mundo.

 

As ideias críticas e revolucionárias de Lauro, testadas em vários laboratórios do mundo, explicam porque algumas nações prosperam, criam cidadanias, desenvolvimento sustentável, na linguagem de hoje. Soltem os jaguares de uma vez!

 

José Flávio Sombra Saraiva

jfsombrasaraiva@gmail.com

PhD, professor titular da UnB e pesquisador 1 do CNPqo

O Povo