Poder público não tem resposta para a pouca leitura em Fortaleza

Na continuação da matéria de capa, o que dizem os representantes do poder público municipal e estadual sobre a pesquisa que indica que apenas 27% dos fortalezenses leram um livro no último mês

Herança cultural de um Brasil que não lê. Esta é a justificativa encontrada pela jornalista Concy Bezerra, responsável pela Coordenadoria de Políticas do Livro e Leitura (Copla) da Secretaria de Cultura de Fortaleza (Secult), à pergunta-título da matéria de capa. Na entrevista realizada na sede da Secult, na última terça-feira, 29, ela admitiu que, afora a deficiência histórica do País em formar leitores, não tem uma resposta para a questão colocada. “Eu acho que, na verdade, é uma herança do Brasil mesmo. Porque nós temos grandes livrarias, temos uma Bienal (do Livro) que é a terceira do País, feiras de livros que a gente incentiva na capital e no interior”, disse. “Livros existem e políticas de incentivo à leitura e democratização do livro, também. Mas porque as pessoas não leem, eu não tenho como fazer essa análise”, completou ela. 

 

Entre as políticas de estímulo à leitura desenvolvidas pela secretaria, a coordenadora lembrou os editais de publicação de títulos inéditos e fora de catálogo; a atuação dos agentes de leitura em 927 localidades (entre sítios, distritos e comunidades) de 41 municípios cearenses somente no ano passado – exclua-se Fortaleza, já que a capital cearense participa do programa em convênio direto com a União; o Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas, com 194 unidades espalhadas pelo Estado, sob a coordenação e o destaque da Biblioteca Pública Governador Menezes Pimentel. Além disso, ressaltou Concy, a Bienal Internacional do Livro do Ceará também integraria o conjunto de ações de formação do leitor, em nível estadual.

 

Apesar dos vários problemas estruturais da Biblioteca Pública Menezes Pimentel, que não favorece o hábito leitor de quem já costuma frequentar o espaço, como O POVO denunciou em diversas matérias, e do fato de a Bienal do Livro ser um evento voltado, sobretudo, para a venda de livros, para Concy, as políticas estaduais têm tido sucesso no incentivo à leitura. “O saldo é eminentemente positivo”, ela avalia.

 

Pela Secretaria de Cultura de Fortaleza (Secultfor), por enquanto sem um responsável para coordenar os projetos relacionados à politica de livro, leitura e literatura da nova gestão, falou o titular da pasta, Magela Lima. De acordo com ele, “todos os programas estão em fase de avaliação e os projetos que vinham sendo tocados não correm o risco de acabar”. Segundo ele,“o compromisso é seguir o que está fixado no Plano Municipal de Cultura, que é o norte pras políticas do município” (veja quadro sobre a política de livro e leitura do PMC).

 

Programas como o “Agentes de Leitura de Fortaleza”, em parceria com a Fundação Biblioteca Nacional, coordenadora das políticas de leitura em nível federal, também estão garantidos. Magela diz que é fundamental encontrar-se com o coordenador nacional dessas políticas, emboranão haja um prazo para essa reunião.

 

Ainda assim, em breve Fortaleza deve ganhar outras duas bibliotecas. Segundo o último coordenador de livro, leitura e literatura da Secultfor, Urik Paiva, serão duas unidades novas, de pequeno porte e em prédios próprios, nos bairros Autran Nunes (na área da Secretaria Executiva Regional 3) e Conjunto Ceará (Regional 5). A parceria entre o Ministério da Cultura (MinC), por meio do programa Mais Cultura, e a Secultfor garantiu convênio de mais de R$ 800 mil, com 80% da verba vinda do MinC e 20% de contrapartida do município. O valor inclui, além da construção, compra de livros e equipamentos.

 

Órgão em interface com a Cultura na responsabilidade sobre as ações de incentivo à leitura, a secretaria de Educação do Município foi procurada pelo O POVO, mas nem via assessoria, nem via celular pessoal do secretário Ivo Gomes, o contato foi possível. A secretaria de Educação do Estado (Seduc), por sua vez, respondeu por meio de assessoria à solicitação da reportagem. Destacou a presença do Centro de Multmeios nas 174 escolas estaduais em Fortaleza. Segundo a Seduc, o espaço gerencia o processo de leitura por meio de projetos, empréstimos de livros, revistas e uso de outras mídias na escola. Além disso, o Programa Alfabetização na Idade Certa (Paic) seria outra iniciativa da secretaria na formação do leitor fortalezense entre 6 e 7 anos de idade. (RB)

 

Saiba mais

O que diz o diagnóstico que integra o Plano Municipal de Cultura, em vigor desde dezembro de 2012, sobre livro e leitura em Fortaleza:

 

– A fruição e o consumo de bens culturais de natureza literária não fazem parte do cotidiano da cidade.

 

– De modo geral, os eventos literários no Ceará estão tensionados entre uma política de incentivo à leitura e uma política de venda de livros. Alguns possuem atuação muito tímida em relação à mediação da leitura, preocupando-se mais em atender ao mercado editorial.

 

– A recente política de editais de arte promovida pelo Governo do Estado e pela PMF causou impacto profundo na produção de livros da cidade.

 

– Quanto ao mercado editorial da cidade, a maioria das empresas que publica

livros de autores cearenses é do ramo gráfico, e não editorial, ou seja, realiza apenas o trabalho de diagramar e imprimir os livros. Esses estabelecimentos não se preocupam com o processo de distribuição do material produzido.

 

– O projeto de criação da Rede de Bibliotecas Públicas Municipais tem a finalidade de instalar pelo menos uma biblioteca ou sala de leitura em cada regional da cidade. O núcleo dessa rede é a nova Biblioteca Pública Municipal Dolor Barreira, reinaugurada em 2009.

 

– A Biblioteca Pública Menezes Pimentel coordena o Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas do Ceará , composto por todas as bibliotecas públicas do estado.

 

– No plano da legislação, a Lei de Depósito Legal instituiu que cada editora de Fortaleza deposite pelo menos dois exemplares de cada obra publicada no acervo da Biblioteca

Municipal Dolor Barreira.

O Povo