Por que os fortalezenses não leem?

DÁRIO GABRI EL, 4/10/2007

O mês de janeiro mal se despediu e o universitário Kennedy Ribeiro, 25 anos, já terminou de ler A arte de amar, do poeta Ovídio. E este não foi o único título que o estudante de Filosofia atravessou ao longo dos últimos trinta dias; some ainda as leituras acadêmicas. “Sempre tenho algum livro pra ler, às vezes não dou conta de duas, três leituras ao mesmo tempo, como muita gente faz, mas tenho sempre algum livro à mão”, diz ele, que não vê a hora de concluir o curso para se dedicar com mais frequência à densidade de Clarice Lispector ou à leveza de Luís Fernando Veríssimo, seus autores prediletos junto de Drummond. 

 

Kennedy é um espécime raro, ao menos em Fortaleza. Se houvesse participado, estaria no grupo dos 27% de fortalezenses que disseram ter lido um livro no último mês à pesquisa Ibope Media “Leitores no Brasil”, noticiada por O POVO no dia 25 de janeiro. A sondagem mostrou o índice mensal de leitura entre habitantes de nove capitais brasileiras, incluindo suas regiões metropolitanas, além de cidades do interior de São Paulo e das regiões sul e sudeste. O resultado da capital cearense foi o pior: 73% dos entrevistados afirmaram não ter lido sequer um livro em trinta dias. A (baixa) média nacional de leitores foi de 33%, de acordo com a pesquisa. Belo Horizonte e Porto Alegre ostentam o melhor desempenho do País, empatando em 41% no número de pessoas que leram ao menos um exemplar ao longo de um mês.

 

Sozinha, a pesquisa não é capaz de sustentar a ideia de Fortaleza como uma cidade desprovida de leitores. Mas serve como indicativo de uma situação que não surpreende os estudiosos do tema, nem positiva nem negativamente. Para o historiador da literatura Humberto Pinheiro, apesar do mau desempenho da cidade não ser fato novo, o número pode até ser encarado com otimismo. “Se fizermos uma comparação com o que décadas passadas poderiam apresentar para Fortaleza, acredito que veríamos um processo crescente do número de leitores. Hoje, de uma maneira geral, nunca se leu e escreveu tanto”, argumenta.

 

Mesma opinião da professora Ana Célia Clementino Moura, do curso de Letras da Universidade Federal do Ceará (UFC). Para ela, em geral, está se lendo mais. “Agora, o que estão lendo?”, questiona.

 

Para pesquisadores como a professora do departamento de Ciências da Informação da UFC, Ana Maria Sá, no entanto, a pesquisa atesta a ausência de uma cultura leitora motivada por falhas nas iniciativas políticas relacionadas ao tema. “Por mais que o Brasil tenha uma política de leitura e que seja uma política de Estado, eles (os governantes) estão com muita dificuldade”, avalia. Preocupar-se em criar mais espaços de leitura e em preparar pessoas para incentivar o apreço pelo ato de ler (inclusive professores) são algumas das ações que, para Ana Maria Sá, seriam mais eficazes que campanhas publicitárias em prol da leitura ou mesmo a aquisição isolada de livros.

 

“Nas próprias escolas há uma dificuldade. Os professores mesmo não são bons leitores, as bibliotecas são poucas e não são boas, quando existem”, sublinha ela. À frente de um projeto de bibliotecas comunitárias no Conjunto Ceará, Ana Maria Sá é enfática: “as bibliotecas comunitárias surgem da falta das bibliotecas (públicas), com muito sacrifício. A gente tenta, mas na realidade não supre (a necessidade)”. Outro problema apontado pela professora é a não valorização do bibliotecário – profissional responsável pela gestão da informação, pelas práticas de leitura, pesquisa, entre outras atribuições.

 

Biblioteca e leitura

Processos educacionais que, historicamente, engessaram a relação dos alunos com a leitura compõem outro grande entrave para a formação de uma cultura leitura, segundo Tadeu Feitosa, outro docente do curso de Ciências da Informação da UFC. E, neste caso, Fortaleza não está sozinha. “Vivemos uma herança maldita onde a leitura no Brasil sempre esteve atrelada aos sistemas ordenadores da escola, que sempre exigiu as leituras escolhidas por ela e sempre vitimou os alunos leitores com as sanções impostas pela sala de aula. Ler para ser sabatinado, para preencher fichas de leitura, para dar conta de tarefas escolares quase sempre punitivas”, analisa ele. “Se for pra ler só pra fazer uma prova, nem eu gostaria de ler”, corrobora a professora Ana Célia.

 

O leitor do começo deste texto é um exemplo positivo também nesse aspecto. Embora na escola a leitura tivesse uma característica de obrigação, foi lá, por meio de uma professora de literatura que o deixava livre para escolher os títulos infanto-juvenis pelos quais tivesse interesse, que o apreço de Kennedy pelo livro se consolidou. “A coleção Vaga-lume (desde 1972 lançada pela editora Ática) foi fundamental pra minha inclusão dentro do universo da leitura. Foi através dela que fui despertando para o prazer que a leitura provoca”, conta ele.

 

“Falta a Fortaleza um imaginário de leitura que historicamente só podemos encontrar nas bibliotecas, que sempre foram o principal meio difusor de leitura”, continua Tadeu, criticando o número de bibliotecas públicas da cidade e “suas políticas que sempre deixaram a desejar”. Conforme o professor, a biblioteca tem por função difundir a leitura de forma diferente da empregada nas escolas. De forma menos pedagógica, mais próxima das práticas leitoras cotidianas. O que Humberto Pinheiro chama de “banalização do livro”. “Sua presença como algo comum, sem qualquer fetiche, fora, inclusive, de uma cultura do ornamento, do sagrado. O livro como algo ordinário”, explica ele.

 

A universitária e vendedora de livros Alana Linhares, 22 anos, sente falta de mais iniciativas de incentivo à leitura, nas ruas, nos ônibus, “em meio ao corre-corre que todo cidadão enfrenta diariamente”. Para ela, falta dissociar o livro do espaço da escola e disseminar a ideia de que a leitura é “intrínseca” à vida. “Em São Paulo existem máquinas de vendas de livros nos metrôs e são livros com preços bastante atrativos. E tá ali, em pleno metrô, em plena correria”, diz ela, ressaltando as quatro bibliotecas Embarque na Leitura, do projeto “Ler é saber”, desenvolvido desde 2004 pelo Instituto Brasil Leitor (IBL) em parceria com o metrô paulistano.

 

Antes de chegar aos espaços públicos de Fortaleza, porém, Tadeu atenta para os efeitos, da ausência de uma política de leitura na capital. “A falta de bibliotecas é um sinal explícito de que nossos governantes e nossas políticas educacionais sempre tiveram uma noção limitada e defeituosa do que seja a leitura e suas infinitas práticas leitoras como formadoras de sujeitos, antes de se reduzi-los apenas a educandos”, afirma.

O Povo