Violência muda rotina em escolas

Em quase todos os colégios visitados pela reportagem, a tensão e o medo são sentimentos que fazem parte do dia a dia escolar
– FOTO: EDIMAR SOARES

A parada do ônibus era longe da escola. Por isso, a professora precisava caminhar entre becos e ruelas até chegar ao colégio onde trabalha, no bairro Cristo Redentor. Foi numa dessas passagens que a mulher de 35 anos foi tomada de surpresa. “Dois rapazes estavam com aqueles gorros (balaclava) e me seguraram por trás, pedindo para eu passar a bolsa”, revive a educadora. Quando a mulher obedeceu, virou-se e um dos jovens a reconheceu. “Ele gritou: ‘Solta! Ela foi minha professora’. Agradeci a Deus por ele ter sido meu aluno. E fiquei muito triste com a situação”, conta.

O POVO visitou 10 colégios, sendo seis municipais e quatro estaduais, nove deles em zonas de conflito em Fortaleza. Em quase todas as unidades, a tensão e o medo são sentimentos que fazem parte do dia a dia de professores, funcionários e alunos.

Passados alguns meses, a professora que quase foi assaltada no Cristo Redentor não consegue mais andar sozinha pela cidade. O marido sempre a acompanha para onde quer que vá. “Eu sei de toda a situação social deles. Sei dos exemplos que eles têm em casa. Mas essa consciência não diminui o meu medo”, diz.

Outras histórias

Em novembro último, o recreio tinha acabado havia nem cinco minutos e começou o instalar de papoucos secos. “É bala! É bala! Foi bem uns cinco (tiros). Foi todo mundo pro chão. Eu comecei foi a chorar”, relembra a menina de 16 anos, aluna de uma escola municipal no bairro Jangurussu. A professora teve de conter os alunos. “Ela ficou mandando a gente se abaixar. Foi ruim. Queria nem vir pra escola no dia seguinte”, conta outra aluna, também de 16 anos. Tiros interrompidos e se ouviu o grito de um jovem, da calçada.

Quando a professora se deu conta, o mar de sangue vinha de um adolescente que tinha sido seu aluno anos atrás, na mesma escola. “Fiquei em choque. Como é que pode? Parece que o rapaz estava passando aqui perto quando esbarrou com os inimigos, de outra gangue. Ele levou um tiro e foi levado pro IJF (Instituto José Frota). A gente fica triste de não ter conseguido mudar a vida dele”, descreve a professora.

As histórias de violência são tantas que se repetem. Na calçada de uma escola estadual no bairro Cristo Redentor, o horário de entrada e saída é controlado por um vigilante atento, de chave na mão. “Dá é raiva. Queria ficar um pedacinho aqui fora”, reclama Daniel, aluno do 2º ano do ensino médio. O vigilante “coloca” os meninos pra dentro e, após o último aluno entrar no colégio, tranca o portão. O contato da unidade com a rua é somente um pequeno quadrado, pelo qual passa uma mão. “Tem que ser assim, porque aqui é muito perigoso. Mataram um cabra ali na esquina, mês passado”, narra o vigilante.

Do outro lado da cidade, numa escola estadual do Jangurussu, os professores chegam e vão embora de comboio, por conta da insegurança. Depois de uma série de assaltos, os educadores solicitaram um ônibus que os levassem do terminal até o colégio. “Depois que a Seduc enviou o ônibus, não fomos mais assaltados”, afirma a professora de Português.

Saiba mais

O POVO visitou 10 escolas, sendo seis municipais e quatro estaduais, nos bairros: Cristo Redentor, Goiabeiras e Pirambu, na Regional I; Antônio Bezerra, na Regional III; Conjunto Ceará, Granja Portugal, Bom Jardim, na Regional V; e Jangurussu, Curió e José de Alencar, na Regional VI.

O Povo