Qual profissional as escolas carecem?


FOTO: ANERSON SANTIAGO / O ESTADO

THATIANY NASCIMENTO
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Entre dezembro de 2012 e janeiro deste ano, a Escola Municipal de Educação Infantil Tereza D’Ana, localizada no José Walter, foi roubada uma vez e furtada outras três. Desde fevereiro do ano passado, a instituição, que não possui seguranças, conta apenas com dois porteiros, quando deveriam ser quatro. No último dia 25, dois dias depois da última ocorrência no local, o anúncio feito pelo titular da Secretaria Municipal de Educação (SME), Ivo Gomes, de uma possível substituição dos porteiros por seguranças em todas as escolas da rede municipal, reacendeu o debate sobre os mecanismos de combate e prevenção à violência no ambiente escolar em Fortaleza.
Conforme a presidente da entidade cujos porteiros terceirizados são vinculados atualmente, Sindicato dos Empregados em Empresas de Asseio e Conservação do Ceará (Seeaconce), Penha Mesquita, no encontro com a categoria, o secretário garantiu que, na atual gestão, os profissionais serão substituídos por seguranças, armados ou não. A aplicabilidade da medida, segundo Penha, embora já acertada, de acordo com o que foi explanado na reunião, estaria sendo estudada pela SME para que seja decidida como se dará a substituição em cada unidade.

Hoje, dos 4.000 porteiros terceirizados das escolas, vinculados a sete empresas diferentes, cerca de 1.000, que atuam no turno da manhã, estão cumprindo aviso prévio. O prazo para desligamento dos profissionais é o dia 18 deste mês. “Como as escolas ficarão, nós não sabemos. O secretário foi muito enfático quando disse que haverá a substituição. Mas, não garantiu como essa lacuna será preenchida por enquanto. Então não há como sabermos se a substituição será gradual ou toda de uma vez”, explicou ela.

AUSÊNCIA DE PORTEIROS
No José Walter, na Escola que abriga 380 crianças, DVDs, televisores, aparelhos de som, merendas, um botijão de gás, cadeiras e até as facas da cozinha foram subtraídas durante os assaltos. O local, de acordo com a diretora Marta Rocha, há um ano, padece com a falta de dois porteiros. “Temos dois profissionais, mas, dia sim, dia não, ficamos sem porteiros porque eles trabalham em regime de plantão. Para controlar a entrada e a saída, nos revezamos na atividade. É desvio de função, mas, as professoras ajudam”, contou.

No local, o porteiro Elizeu de Farias, que há seis atua na Escola, demonstra preocupação por não saber qual serão as próximas medidas tomadas pela SME. No final de janeiro, ele foi demitido e menos de dois dias depois readmitido na instituição. “As coisas estão muito incertas. Eles me demitiram e depois me chamaram. Acho que perceberam que a escola não podia ficar sem ninguém. Já sofremos com esses roubos, imagina se eu não fico aqui. É muito triste”, avaliou.
Para a presidente do Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação (Sindiute), Gardência Baima, a possível adoção da medida, pela atual gestão, tenta, justamente, evitar que tais problemas cresçam. “É preciso que tudo seja encaminhado da maneira mais planejada possível, pois, o segurança não pode ser aquela figura que atrai para as escolas, pessoas que irão ‘buscar’ as armas carregadas por eles”, ponderou.

“QUEBRA DOS ESPAÇOS SEGUROS”
Se chegamos ao ponto de cogitar a substituição de porteiros por seguranças, armados ou não, no ambiente escolar, o coordenador do Laboratório de Estudos da Violência (LEV) da Universidade Federal do Ceará (UFC), César Barreira, avaliou que a medida é preocupante, justamente por refletir “a quebra dos espaços seguros”. “É uma situação triste e sintomática. A escola é essencialmente um lugar de liberdade de produção, de vivências e acaba ocupada também por este violência, que hoje é difusa”, argumentou.

De acordo com ele, na possível “troca”, há que se observar a necessidade que cada instituição apresenta especificamente, além de respeitar as adequações da atividade de segurança ao local onde ela é realizada. “A relação do porteiro é muito mais integrada com a comunidade escolar do que a do segurança. A imagem é muito simbólica dentro das instituições e é preciso prezar pelo respeito as essas adequações. O próprio uniforme dos vigilantes não pode ser ostensivo e evidentemente a prática tem que ser condizente com o ambiente que ele está”, defendeu.

O pesquisador também ressaltou que é preciso compreender que “toda violência dentro da escola, reflete as práticas exteriores a este ambiente”, portanto, as medidas de garantia de segurança e combate à violência devem estar aliadas a ações/programas que garantam a mudança efetiva também das áreas que o equipamento está inserido.

O Estado – CE