PROTAGONISTAS DA MUDANÇA

Protagonistas da mudançaAlunos aprendem a amenizar conflitos cotidianos e contribuem até para aperfeiçoar a infraestrutura escolar por meio de um sistema de assembleias

Pricilla Honorato

“Escola é, sobretudo, gente”, afirmou Paulo Freire. O microuniverso por ela representada reproduz muitas das relações que os pequenos cidadãos em formação vão encontrar, quando adultos, do lado de fora. É na escola que aprendemos a lidar com regras, a respeitar a diversidade e a administrar conflitos. É nela, também, que começamos a entender por que é preciso ter cuidado com o patrimônio de uso comum.

O trabalho com esses conceitos extrapola a sala de aula. E o caminho democrático é, sem dúvida, o melhor a seguir. Por ele, seguiu a equipe pedagógica da Escola Municipal de Ensino Fundamental Francisco Cardona, em Arthur Nogueira, interior de São Paulo. O grupo adotou um sistema de assembleias, nas quais estudantes e professores ganham voz, participam das decisões e, muitas vezes, resolvem problemas que, no modelo anterior, tomavam tempo e energia preciosos da equipe de gestão. As visitas dos alunos à diretoria eram frequentes. Um, dois, três, quatro alunos por dia. Os casos, sempre semelhantes: pequenos conflitos de relacionamento que os professores e os inspetores não conseguiam administrar e que, portanto, necessitavam da intermediação dos gestores.

Implementado em 2011, o projeto recebeu o sugestivo nome de “Minha Escola, Minha Vida” e foi vencedor da categoria gestão escolar do Prêmio Victor Civita Educador Nota 10, em 2012 (leia mais aqui).
Quando todos têm vez
O projeto nasceu e foi desenvolvido sob a gestão da então diretora Debora Del Bianco Barbosa Sacilotto. A ideia das assembleias foi sugerida pela professora Ariane Tagliaferro Molina, do Ensino Fundamental. E floresceu com o envolvimento de toda a equipe pedagógica, alunos e funcionários.

As assembleias foram constituídas como reuniões democráticas, onde todos têm direito à palavra, e servem como fórum para resolução dos problemas pela via da argumentação. “No lugar de sanções e de convocações aos pais, partimos do princípio que devemos ouvir nossos alunos, pois, muitas vezes, a revolta, o desespero e o medo se escondem atrás de atitudes inadequadas”, explica Debora.

Foram criados dois tipos de assembleia: de classe e de docentes. Assim como os alunos, os docentes têm a oportunidade de fazer suas críticas e pensar em soluções. Para Débora, os encontros tornaram-se um canal de comunicação pelo qual todos ajudam na gestão escolar expondo suas necessidades. Aquilo que a diretoria muitas vezes não percebia no cotidiano da escola começou a ser trazido à pauta pelos docentes e alunos e resultou em melhorias para todo o grupo. Críticas, ideias, reclamações e sugestões são registradas por todos, de forma anônima, em bilhetinhos depositados em um simpático saquinho colorido.

A leitura das mensagens abre as assembleias. A diretora explica que é essencial a ordem para garantir que as criticas sejam discutidas, soluções sejam sugeridas e por fim, o mais importante, os avanços sejam reconhecidos. Para a educadora, o grande desafio para a implantação de assembleias é ter coragem de dar abertura. “Nessas reuniões você deve estar pronto para ouvir coisas de que não vai gostar”, sintetiza.

Aprendendo a criticar 
As primeiras assembleias de classe foram realizadas com alunos do 1º ano do Ensino Fundamental, da turma da professora Ariane. As crianças de 6 anos de idade, muitas ainda não alfabetizadas, expuseram suas opiniões e sugestões em roda sob a supervisão de Ariane. “Fiquei apaixonada ao ver crianças tão pequenas propondo soluções”, relembra a diretora. Em pouco tempo, as assembleias foram expandidas para todas as turmas e passaram a ser realizadas no período das aulas de ética e cidadania.

Para que os estudantes compreendessem o funcionamento e o conceito dos encontros, os professores trabalharam com o livro “Fugindo das garras do gato” de Choi Yun Jeong, no qual um grupo de ratos consegue se livrar de um gato depois de muita deliberação. Também foram apresentados vídeos sobre assembleias escolares ocorridas na Escola Comunitária de Campinas.

Agentes da transformação
Além de ser um espaço para trabalhar os conflitos interpessoais típicos da escola, as assembleias abriram espaço para sugestões que envolvem a administração da escola. “Os alunos se tornaram mais confiantes quando perceberam que podiam criticar aquilo com o que não concordavam”, conta Debora.

Com base nos questionamentos da turma sobre a infraestrutura, a diretoria pode dirigir o orçamento para as reais necessidades dos estudantes, considerando pontos de vista que até então não eram evidentes. Pela voz dos alunos, o ambiente escolar viveu uma transformação.

O protagonismo trouxe resultados. Entre as reinvindicações estavam a aquisição de garfos para o refeitório (antes, os alunos usavam apenas colheres), o desligamento das luzes que permaneciam acesas na quadra mesmo fora do período de aulas, colchonetes nas aulas de educação física e o combate ao desperdício de comida. Levados à diretoria, os levantamentos foram resolvidos dentro das possibilidades da escola. Uma classe propôs à diretora que se criasse uma avaliação semanal do estado dos banheiros, baseada na avaliação do espaço ao final de cada período. Os estudantes do turno melhor avaliado receberiam gelatina no lanche como recompensa.

“Depois de uma conversa com a nutricionista municipal, responsável pelo cardápio escolar, de um rápido estudo para saber se teríamos verba para a compra das gelatinas e disponibilidade de pessoal para fazer as avaliações, chegamos a um acordo e passamos a fazer a premiação mensalmente e não por semana, como era a primeira sugestão dos alunos”, lembra Debora.

O bullying foi outro importante tema debatido. Por meio de vídeos e livros, o assunto já havia sido tratado nas aulas de ética e cidadania, mas não de modo efetivo. Durante as assembleias, os alunos se sentiram respaldados para falar de comportamentos que consideravam agressivos e, para a surpresa de todos, percebiam que não estavam sós, que havia outros casos. “Se antes os alunos temiam falar abertamente, por meio dos bilhetes anônimos eles se sentiram encorajados”, afirma a diretora.

Estreitar laços
Outra importante ferramenta do Minha Casa, Minha Vida é o Livro de Autoavaliação, no qual cada aluno se expressa em relação à própria participação. O livro é levado para casa a cada bimestre. Nele, os alunos registram as ações positivas ou negativas. E os pais escrevem seus comentários. “Percebemos que eles colocaram no livro muito sentimento, com palavras jamais ditas pessoalmente para seus filhos”, conta Debora. Com isso, a equipe gestora conquistou a aproximação de pais que, por falta de tempo, não conseguiam acompanhar de perto a vida escolar dos filhos.

O segredo é o diálogo
“Nunca quis ser professora”, explica Debora, que há mais de 23 anos trabalha com Educação. Já atuou como professora, coordenadora pedagógica, gestora escolar e, atualmente, está na secretaria de Educação de Artur Nogueira. O sonho de se tornar uma educadora, na verdade, pertencia à sua mãe – e foi o desejo dela que impeliu a jovem a cursar o magistério. “Aos 16 anos, quando entrei pela primeira vez em uma sala de aula, eu me apaixonei. Hoje sei que nasci pra isso – é minha vocação. Amo estar com as crianças e pensar junto à equipe como faremos para o sucesso de todos.”

Debora garante que não escolheu entre a carreira de docente e gestora. Segundo ela, tudo foi questão de abraçar as oportunidades. Em 2000, enquanto lecionava para turmas de Educação Infantil e Fundamental, a então professora foi convidada pela diretora da escola a exercer o cargo de coordenadora pedagógica. Dois anos e meio depois, foi a vez da secretaria de Educação convidá-la para o cargo da direção.

“Gerir não se aprende em cursos. Só aprendemos a ser coordenador ou diretor, isto é, gestor, na prática”, explica. Ela lembra que exercer vários cargos na hierarquia escolar e ter convivido com as realidades da escola pública e privada foram ingredientes fundamentais para evoluir como gestora. ”Em minhas ações, tento me colocar no lugar do outro, de um professor ou de um funcionário, pois não quero correr o risco de ser uma gestora autoritária que exige o impossível da sua equipe. Só cobro o que é possível”.

Com o projeto “Minha Escola, Minha Vida”, Debora aprendeu que gestão baseia-se em ouvir. “Preciso ouvir as pessoas. Preciso da participação de todos. Para gerir uma escola, preciso do olhar do aluno, dos pais, dos funcionários, dos professores”.

A gestora acredita que é preciso construir um ambiente escolar harmonioso onde toda a comunidade escolar fale a mesma língua – e, segundo ela, o segredo para tal construção reside no diálogo constante. “Todos têm capacidade de criar soluções para os problemas da escola. Até mesmo os pequenos articulam opiniões”.

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