57% têm vigilância armada

Das 625 escolas públicas em Fortaleza, 360 possuem vigilantes armados, o que representa 57,6% do total. O POVO levanta a discussão sobre a real necessidade de vigilância armada em escolas

Na Escola Estadual de Educação Profissional (EEEP) Professor César Campelo, conhecido popularmente como UV 5, no Conjunto Ceará, o clima de apreensão agora decora a paisagem. “Aqui sempre foi um lugar muito tranquilo. Depois da morte do vigilante, minha mãe não quis que eu viesse para a aula na segunda. Ficou com medo”, conta uma aluna de 16 anos, do 1º ano do curso de Secretariado. No último dia 18, o vigilante da escola, Carlos Antônio Dutra, de 46 anos, foi morto por assaltantes que teriam tentado roubar sua arma.

Dados das secretarias Municipal (SME) e Estadual (Seduc) da Educação apontam que mais da metade (57,6%) das escolas públicas da Capital usam vigilância armada como proteção. São 186 unidades da Prefeitura, de um total de 451 escolas. Já entre as do Estado, todas as 174 têm proteção através de armas. O POVO levanta a discussão de como a violência acaba interferindo no cotidiano dos alunos e professores. E da real necessidade do uso de armas por vigilantes das escolas.

Pelo menos quatro vigilantes foram mortos nas portas de escolas municipais e estaduais de Fortaleza, em 2012. Os dados foram levantados pela reportagem a partir de notícias publicadas na imprensa. Em três dos casos (nos bairros Conjunto Esperança, Antônio Bezerra e Novo Mondubim), o motivo dos assassinatos foi a reação das vítimas às tentativas de roubo das armas, conforme apontou a Polícia.

A questão de se colocar proteção armada em escolas em áreas conflituosas da Capital é polêmica. O argumento de quem é a favor do armamento baseia-se no aumento da criminalidade. Já para os contrários à ideia, a arma pode ser um alvo que atraia assaltantes.

O canadense Jacques Terrien, doutor em Educação e professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), diz que a questão tem duas facetas: a primeira, a da necessidade de segurança; e a segunda, a da escola como espaço de liberdade. “Nas condições atuais da sociedade, se você não se precaver, você acaba sofrendo as consequências. A segurança se tornou uma necessidade. O problema é o muro de proteção ao redor da escola”.

“É muito difícil dizer se é bom ou ruim ter armamento. Porque hoje as escolas têm de zelar pelos equipamentos e, principalmente, pelas pessoas. (O armamento) é algo que se deve evitar, mas em determinadas situações pode ser obrigatório”, defende Terrien. A obrigatoriedade do armamento, no entanto, tem de ser provisória. “É um meio para que o ambiente possa estabelecer novamente, ou pela primeira vez, a paz. Quando ela for alcançada, o armamento deve ser interrompido”.

Cultura de paz

O sociólogo e pesquisador do Laboratório de Estudos da Violência da UFC, Marcos Silva, concorda com Terrien e aponta que, para a cultura de paz ser alcançada, é necessário empenho, principalmente, do poder público. “É preciso abrir as portas da escola, para que a comunidade entenda que o espaço é para o seu benefício também. É importante ter uma quadra que a comunidade use para esportes, ter laboratórios com horários programados para a população, que se usem os pátios para reuniões das associações de bairro. Fazer da escola uma utilidade. Assim, a comunidade passa a respeitá-la”, pontua.

ENTENDA A NOTÍCIA

A justificativa da Prefeitura e do Governo do Estado para manter vigilantes armados nas escolas de Fortaleza é de que é uma precaução necessária para manter a segurança das pessoas e para preservar os equipamentos.

Saiba mais

A presidente do Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação do Ceará (Sindiute), Gardênia Baima, afirma que os professores ainda estão em processo de discussão e ainda não chegaram a um consenso sobre o tema. Baima defende, no entanto, que a prioridade seja dada para alcançar a cultura de paz nas escolas.

A Escola Professor César Campelo, no Conjunto Ceará, é conhecida como UV 5 por conta dos termos usados na época da construção dos conjuntos habitacionais. A área onde foi erguido o colégio foi a Unidade de Vizinhança número 5, por isso, UV 5.

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É o número de vigilantes mortos nas portas de escolas

em 2012

57%

É o percentual de escolas públicas na Capital que contam com vigilância armada

Angélica Feitosaangelica@opovo.com.br

O Povo