Educação oferece novos estímulos

Além das tradicionais aulas de escrita e leitura, muitos pesquisadores trabalham outras abordagens com alunos

A alfabetização, segundo Paulo Freire, “está envolvida com a prática de ler, de interpretar o que leem, de escrever, de contar, de aumentar os conhecimentos que já têm e de conhecer o que ainda não conhecem, para melhor interpretar o que acontece na nossa realidade”. A reflexão do estudioso, considerado um dos maiores educadores do País, resume exatamente o momento de transição em que vive o ensino da língua portuguesa no Brasil.

A Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro, que teve Ana Letícia como uma das vencedoras, trabalha os gêneros linguísticos como estratégia para o aluno fazer da escrita instrumento de intervenção no mundo

Em vez de um ensino concentrado no aprimoramento da gramática, da norma culta e da ortografia, há cerca de dez anos, pesquisadores têm insistido em uma outra abordagem para trabalhar a questão da leitura e da escrita, com maior aproximação do tratamento com gêneros linguísticos. É o que trabalha a Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro, uma iniciativa do Ministério da Educação (MEC) e da Fundação Itaú Social, com a coordenação do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec).

Com o intuito de qualificar profissionais para que eles trabalhem de maneira cada vez mais profunda o estímulo à leitura e à produção de textos em sala de aula, a Olimpíada, que neste ano chega à terceira edição, trabalha com quatro gêneros linguísticos: poema, crônica, memórias literárias e artigo de opinião.

Linguagem

Mônica Franco, diretora de Formulação de Conteúdos Educacionais da Secretaria de Educação Básica do MEC, explica que com os gêneros linguísticos se consegue trabalhar com o que circula. “Dessa forma, você tem uma melhor apropriação da linguagem escrita. A pessoa só se apropria quando consegue utilizá-la em seu cotidiano”, frisa.

Todos os 184 municípios cearenses aderiram à Olimpíada. Foram 7.988 professores e 279.850 alunos inscritos em todo o Estado, de acordo com a Secretaria da Educação do Ceará (Seduc). Desse total, nove ficaram finalistas e duas alunas saíram vencedoras, ambas do município de Alto Santo, localizado há 243 km de Fortaleza.

Na última segunda-feira, os 152 finalistas receberam a premiação em evento realizado em Brasília. Ana Letícia Oliveira Dutra, 12 anos, aluna da professora Gisélia Bezerra Gomes, que teve duas alunas premiadas, foi vencedora com o poema “Quero pintar de verde o meu sertão”. Em seu texto, ela fala de um pincel que vai pegar emprestado do Senhor para colorir o seu sertão. “Quando as gotinhas caírem e o verde se espalhar. O feijão, o arroz e o milho do chão vão poder brotar. E a fartura, porém, vai mudar o meu lugar”, diz um trecho do poema.

Com apenas 12 anos, Alexandre Machado Teixeira dá verdadeira aula de cidadania com o poema “Jangurussu, um bairro especial”. De forma simples, o jovem transforma em palavras sentimentos, percepções e o seu entendimento de mundo. O texto fala dos cidadãos que trabalham noite e dia em busca do ganha pão. Dos homens, mulheres e crianças que humildemente procuram sustento e alimentação. E relata que, mesmo em meio ao lixo e à poluição existe a esperança, que faz bater forte o coração.

Sonho

“Até que o poema ficou legal”, comentou o garoto, enquanto brincava de futebol, em plena Praça dos Três Poderes, em Brasília. O passeio cultural fazia parte da programação oferecida aos finalistas da Olimpíada. Apesar de ter boas notas, seu sonho é ser jogador de futebol profissional. Ele conta que é das categorias de base e que passa por uma fase muito boa como capitão.

Em relação ao momento de transição em que vive o ensino da língua portuguesa, Liduina Medeiros, representante do Ceará no Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed) para assuntos ligados à Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro, comenta que as universidades já estão preparando o professor para isso. Ela acrescenta que não mais se trabalha a gramática pela gramática. “A ideia é que o aluno interaja com o sentido do texto, que ele dê a sua opinião e faça a sua relação de mundo”, destaca.

Idevaldo Bodião, professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Ceará (UFC), explica que durante muito tempo alfabetizou-se por letras e sílabas. “Letras compõem sílabas e sílabas compõem palavras”, cita. Ele diz que a criança, desde o começo, não aprende letras, mas palavras, que estão contextualizadas e têm um sentido em determinado contexto.

Trabalhar com gêneros literários é estratégia utilizada pela Olimpíada para que o aluno faça da escrita uma importante forma de comunicação e um instrumental de intervenção no mundo. “Cada gênero tem especificidades e linguísticas, mas também traz contribuições de funções da escrita como função de comunicação. Esse é outro ganho muito importante que está sendo introduzido na formação escolar”, frisa Isabel Santana, gerente da Fundação Itaú Social.

Alunos

279 mil estudantes de todos as cidades do Ceará se inscreveram na Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro, conforme a Seduc

LUANA LIMA
REPÓRTER

Diario do Nordeste