Fortaleza ainda tem 130 mil analfabetos

THATIANY NASCIMENTO
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Para deslocar-se a qualquer lugar de Fortaleza a dona de casa Maria José Rogéria da Silva, necessita de companhia. Para formalizar qualquer contrato ou aquisição, também. Esses, são apenas alguns dos ônus de quem aos 56 anos de idade não saber ler nem escrever. Na mesma condição, encontram-se outros 130.090 fortalezenses, segundo o estudo “Aspectos Educacionais de Fortaleza”, do Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (Ipece), publicado terça-feira (20), no livro “Perfil Socioeconômico de Fortaleza”, que compara os índices da área entre 2000 e 2010.

Há mais de 40 anos, um problema na visão retirou Maria da escola. Embora, na época, ela já tenha passado pelo período de letramento, a alfabetização não teve êxito. “Passei seis anos da minha vida completamente cega. Depois, quando voltei a enxergar confesso que não me interessei mais pelos estudos e segui para o trabalho”, contou. Doméstica, babá e diarista, foram algumas das funções desempenhadas por Maria, que aos 19 anos casou e desde então desistiu, completamente, da ideia de regressar ao sistema de ensino. Junto a ela, outras centenas de mulheres, que em 2010 representavam 53,8% do total da população analfabeta na Capital.

PEQUENA REDUÇÃO
Conforme o documento, em 2000 o número de analfabetos era superior a 154 mil pessoas. Na década, a redução foi de 3,15%, já que em 2010 os residentes de Fortaleza sem instrução, representavam 6,85% da população. De acordo com a técnica do Ipece, responsável pelo estudo, Luciana Rodrigues, as informações foram obtidas a partir dos Censos 2000 e 2010, do Índice de Desempenho da Educação Básica (Ideb) da Prova Brasil/Saeb nos anos de 2005, 2007, 2009 e 2011.

Luciana explicou que o estudo verificou que em 10 anos, Fortaleza foi a sétima Capital que mais reduziu o número de analfabetos. Porém, a Cidade ainda possui uma das maiores taxas de analfabetismo entre as capitais, ocupando também a sétima posição no ranking negativo. Para Luciana “Além de verificar ‘um lento declínio’ nos índices de analfabetismo na Cidade, foi possível perceber que a população jovem também padece com o problema, pondo em xeque a argumentação que somente a população idosa é atingida por esta condição”.

Porém, Luciana admite que o estudo não mensurou exatamente os elementos que justificam a persistência da problemática na Cidade. De acordo com ela, nos próximos dias, o Ipece deverá apresentar um novo mapeamento que levou em conta a distribuição da população analfabeta nos bairros de Fortaleza, a fim de nortear o desenvolvimento de políticas públicas, de forma localizada, pelo Poder Executivo.

O Estado-CE

FORTALEZA ALFABETIZADA
Em nota, a Secretaria Municipal de Educação (SMS) informou que tendo em vista a necessidade de resolução do problema, a Prefeitura desde o início deste ano desenvolve em parceria com o Governo Federal o programa “Fortaleza Alfabetizada”, que tem como público alvo, pessoas com mais de 15 anos que não tiveram a oportunidade de estudar. Atualmente, segundo a SMS, o programa conta com 1.450 turmas e beneficia cerca de 24 mil alunos.

Os estudantes, de acordo com a Pasta Municipal, têm aulas à tarde e à noite, em escolas públicas e espaços da sociedade civil, no curso que dura seis meses. O Fortaleza Alfabetizada, que formou os primeiros 3.200 alunos em outubro utiliza o método cubano de alfabetização de jovens e adultos “Sim, eu posso”, que segundo a nota, diferencia-se dos demais métodos por sua efetividade em reduzir o tempo de alfabetização.