Impacto das escolas em tempo integral ainda deve ser tímido

Especialistas analisam que as propostas de Roberto Cláudio são fundamentais, mas não contemplam toda a rede

As escolas em tempo integral têm sido vistas nacionalmente como alternativa para melhorar a qualidade do ensino público. Apostando nisso, o prefeito eleito de Fortaleza, Roberto Cláudio, prometeu implantar o tempo integral em 48 escolas municipais. Especialistas na área avaliam que a ação é fundamental, mas ponderam que, ao final dos quatro anos do mandato, caso a promessa seja cumprida, ainda serão tímidos os reflexos na educação da Capital. Isso porque, além de a medida não contemplar parcela significativa da rede municipal, são muitos os desafios para a implantação.

Para Eloísa Vidal, a implantação do tempo integral pressupõe ações ainda não contempladas no plano de governo de Roberto Cláudio FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Enquanto o governo Luizianne afirma que o tempo integral já começou a ser implantado nas escolas da cidade, Roberto Cláudio discorda em razão do modelo adotado. Essa discussão é importante porque dela depende a eficácia da ação para a melhoria da aprendizagem.

Conforme especialistas entrevistados pelo Diário do Nordeste, o modelo a ser implantado deve priorizar a ampliação do tempo de aprendizagem e não apenas o horário do aluno na escola. Além disso, deve vir acompanhado de uma série de ações complementares, que envolvam mapeamento de escolas, reformas, melhoria da gestão escolar e contratação de professores.

Ocupar

O professor André Haguette, da Universidade Federal do Ceará (UFC), afirma que o tempo integral não deve servir apenas para ocupar os alunos com esporte e lazer, mas ser pensado no sentido de aumentar o tempo letivo e viabilizar, de fato, o acompanhamento pedagógico dos alunos.

Segundo justifica, um grande problema da educação hoje é porque o tempo de aprendizagem dos alunos não passa de duas horas por dia em razão de feriados, atrasos dos professores e outras atividades no horário da aula. “O perigo é de ter uma escola em tempo integral, e o problema continuar. O aluno ficar oito horas na escola e aprender somente por duas”, alerta.

A professora Eloísa Vidal, da Universidade Estadual do Ceará (Uece), também acredita que é fundamental ampliar o tempo pedagógico e, consequentemente, o aprendizado dos alunos. “Você não pode confundir escola em tempo integral com ampliação do tempo pedagógico. Não basta só aumentar atividades. As escolas têm que vir acompanhadas por aumento do tempo pedagógico. Ele (Roberto Cláudio) ainda não disse como vai fazer isso”, pondera.

André Haguette lembra que o prefeito eleito prometeu implantar 39 escolas em tempo integral, mas ressalva que a quantidade é pequena diante da necessidade da Capital. “Isso não é quase nada. Vai ter um efeito muito limitado. Eu digo isso vendo a necessidade, mas ele (Roberto Cláudio) está certo porque não é possível fazer isso em todas as escolas. Vai ser mais uma experiência piloto para ser melhorada depois”, acredita.

Para Eloísa Vidal, se as 39 escolas em tempo integral forem realmente implantadas, o impacto na Capital ainda não vai ser grande, porém pode ser um marco inicial expressivo para melhorar a qualidade do ensino. “Se o que ele implantar não for política de governo, mas de estado, poderemos alcançar êxito”.

Disciplinas

Para Eloísa Vidal, a implantação das escolas em tempo integral pressupõe ações que, segundo ela, ainda não estão bem contempladas no plano de governo de Roberto Cláudio, como aumento do número de professores, ampliação da rede física, mudança na carga horária das disciplinas. “Se os meninos da manhã vão ficar o dia todo, para onde vão os da tarde?”, questiona.

A professora sugere que seja feito um estudo detalhado nos bairros para ver quais escolas podem ser ampliadas e os locais onde há terreno público para novos equipamentos. “Há um problema porque a rede escolar de Fortaleza não foi planejada. Primeiro a pessoas formaram os bairros e depois é que as escolas chegaram, ocupando não o espaço adequado, mas o que tinha”. André Haguette concorda que é preciso adaptar as escolas para implantar o tempo integral.

Conforme Eloísa Vidal, a gestão municipal tem como prestar um grande serviço à educação, apostando também no pioneirismo. Ela explica que existe a alfabetização na língua materna, matemática e científica, porém no Brasil essa terceira ainda não está sendo discutida. “Em uma sociedade informatizada como a nossa, é preciso pensar nisso. É um tema que ninguém está levantando. Podemos ficar no século XX, quando o mundo vive o século XXI. Fortaleza pode pensar nisso e ser pioneira”, afirma.

SAIBA MAIS

Rede municipal

447 escolas formam a rede de ensino de Fortaleza. Segundo a gestão da prefeita Luizianne, 221 delas funcionam em tempo integral, com modelo adotado do Ministério da Educação . Através do programa Mais Educação, a unidade escolar escolhe suas atividades, conforme seu projeto pedagógico.

Implantar

Roberto Cláudio entende, porém, que não há efetivamente escolas em tempo integral na Capital, mas apenas atividades em horários diferentes da aula normal. Ele pretende implantar o tempo integral em 39 das 447 escolas de Fortaleza.

Aprendizagem

Especialistas apontam que, para a escola em tempo integral repercutir na qualidade do ensino, é preciso ampliar o tempo de aprendizagem.

BEATRIZ JUCÁ
REPÓRTER

Diário do Nordeste