Enem: um ‘país’ maior que o Uruguai

Com 5,7 milhões de inscritos, exame só é menor que vestibular da China e provoca impacto nas escolas

Alunos do colégio Dínamis, em Botafogo, fazem simulado para o Enem
Foto: Paula Giolito

Alunos do colégio Dínamis, em Botafogo, fazem simulado para o Enem Paula Giolito

RIO — Uma prova do tamanho de um país. Mais de 5,7 milhões de pessoas realizarão o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) neste fim de semana, em 140 mil salas de 1.612 municípios do Brasil. O número de inscritos equivale à população da Nicarágua e supera a do Uruguai (3,4 milhões). Algo em torno de 400 mil fiscais atuarão nos locais de aplicação. Trata-se do maior exame público do país, e o segundo maior processo de seleção para ensino superior do mundo. Só perde para o vestibular da China.

Cerca de 48 mil malotes com 11,5 milhões de cadernos de provas estão sendo distribuídos. Este ano, dez mil desses malotes terão lacres eletrônicos contra fraudes. Os dispositivos registram quando as provas são lacradas na gráfica e o momento da abertura nos locais do exame. O cuidado é bem-vindo, para evitar falhas de anos anteriores. Milhares de vagas em universidades e institutos federais estão em jogo.

O Enem começou há 15 anos, com 157 mil inscritos, e se tornou um gigante, não só em números como também no impacto que causa no ensino médio. À medida que foi crescendo, mais e mais colégios adaptaram sua forma de lecionar ao conteúdo cobrado no exame do MEC. Estar bem colocado no “ranking do Enem” virou obsessão para escolas, que aplicam simulados nos moldes da prova antes mesmo de o aluno chegar ao ano do vestibular. Algumas realizam aulas com até três professores, totalmente voltadas para o conteúdo interdisciplinar do Enem.

Mas essas mudanças no programa letivo não significam melhoria no ensino, segundo o professor e pesquisador José Carlos Rothen, do Departamento de Educação da Universidade Federal de São Carlos, em São Paulo. Além disso, pondera ele, o movimento em direção ao conteúdo do Enem ocorre muito mais nas escolas particulares, aumentando o abismo entre realidades de ensino das redes pública e privada.

— Aproximar o conteúdo do que é cobrado no Enem não significa qualidade de ensino. Quando a escola se modifica em função de uma prova, considero preocupante. Estará formando alunos para responder a questões de um teste, e não para lidar com o mundo — critica ele.

A maioria dos alunos (e suas famílias) se sentem mais confortáveis numa escola sintonizada com o Enem, já que todos almejam um bom desempenho no exame. Na rede QI, as disciplinas de Biologia, Física e Química recebem abordagem focada menos em conteúdo e mais em raciocínio, assim como as questões do MEC. O pH contratou uma empresa para treinar os professores com base na Teoria de Resposta ao Item (TRI), metodologia que atribui pesos e níveis de dificuldade às questões do Enem. Já o Colégio Dínamis incorporou o exame a suas avaliações trimestrais. O resultado da prova conta como a última nota do 3º ano.

— Conseguimos fazer o aluno entender que estudar para a escola e para o Enem são a mesma coisa — explica Raphael Barreto, coordenador de ensino médio do Dínamis.

Coordenadora pedagógica do ensino médio do Colégio Sagrado Coração de Maria, a professora Rosa Xavier critica o fato de ter que encurtar o calendário por causa do Enem:

— Como a prova é aplicada antes do término do ano letivo, muitas vezes temos que correr com o conteúdo para dar conta de tudo.

Já a diretora-executiva da ONG Todos pela Educação, Priscila Cruz, acha que a prova do MEC vem apresentando uma constância no conteúdo. Para ela, o Enem exige mais raciocínio e o entrosamento com notícias atuais.

— Os que alcançam as melhores notas são aqueles que aprenderam mais — opina ela.

Mas Priscila vê uma sobrecarga de funções agregadas ao processo. O Enem foi criado como forma de acesso à universidade, mas também como avaliação do ensino médio. Ainda que reúna alunos de várias realidades, o exame falha em criar um diagnóstico escolar, avalia ela.

— O Enem vive uma crise de identidade. Quem passa pelo teste são alunos com perspectiva de entrada na faculdade. O resultado acaba sendo melhor do que se a participação fosse obrigatória. Muitos não fazem a prova. Num modelo ideal, essas pessoas não ficariam fora.

Se o Enem fosse um país, teria algumas características semelhantes ao Brasil. A proporção de pretos, pardos ou indígenas, por exemplo, é de 54% dos inscritos. Perto dos 51% da população brasileira que declaram pertencer a essas raças. Além disso, 80% dos candidatos que concluíram o ensino médio este ano cursaram escolas públicas. Mas a “nação” do Enem tem muito mais mulheres do que homens. Enquanto no Brasil elas são 51,5% da população, no exame do MEC representam 59%.

— De certa forma, isso mostra uma democratização da educação. As mulheres, depois de muitos anos de privação, estão tendo um grande acesso ao ensino superior. Por outro lado, também indica que os homens estão ficando para trás e isso não é bom — comenta o professor de Ciência Política do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (Iesp) da Uerj João Feres Júnior.
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