“CULPAR O ALUNO PELO INSUCESSO É FALTA DE PROFISSIONALISMO”

Entrevista com o professor brasileiro Deivis Dutra Pothin, que cursa doutorado em Educação na Universidade de Londres

Fonte: Zero Hora (RS)

O Professor brasileiro Deivis Dutra Pothin descobriu uma nova e desafiadora realidade educacional quando decidiu se mudar para Londres em 2004. Graduado em Letras Português/Inglês pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) em 2003, foi buscar aperfeiçoamento na Inglaterra e conquistou espaço como Professor na St Luke’s CE Primary School. Aos 32 anos, cursando doutorado em Educação na Universidade de Londres, ele acredita que o Professor precisa se adaptar aos diferentes perfis dos Alunos e aconselha o Brasil a focar na qualidade. Confira trechos da entrevista a Zero Hora por e-mail:

Zero Hora – No Brasil, a carreira de Professor tem sofrido, ao longo dos anos, uma desvalorização, incluindo questões salariais e também de valorização social. É diferente na Inglaterra?
Deivis Dutra Pothin – A carreira de Professor na Inglaterra é, sem dúvida, mais valorizada se comparada com o Brasil. Existe um plano de carreira bem estruturado, com salários iniciais relativamente atraentes, um plano de previdência complementar compensador e Escolas com excelentes recursos pedagógicos. Um fato interessante é que não há diferença salarial entre níveis de Ensino – por exemplo, Professores recém-formados ganham o mesmo, seja alfabetizando ou lecionando nos últimos anos. A progressão salarial e de carreira depende do desempenho do Professor. Cada vez mais o governo atual tem tentado atrair formandos das melhoras universidades para carreira do magistério. Eles recebem bolsa de estudo e auxílio-manutenção e, depois de formados, aqueles que estiverem dispostos a lecionar matérias com falta de Professores, como matemática, física, química e línguas estrangeiras, recebem um bônus no salário.

Zero Hora – Qual o maior desafio para os Professores na Inglaterra atualmente?
Pothin – Um dos maiores desafios enfrentados pelos Professores ingleses atualmente está relacionado com o plano de carreira. Devido à recessão da economia britânica, os salários estão congelados há cerca de dois anos, a contribuição para a previdência social complementar aumentou, e o governo quer aumentar a idade de aposentadoria de 65 para 68 anos. Outra questão tem sido a sobrecarga de trabalho e o monitoramento constante por parte do departamento de Educação. Escolas com baixo desempenho são monitoradas minuciosamente pelo órgão fiscalizador. Apesar de o objetivo de tais inspeções ser positivo, elas sobrecarregam não apenas o Professor, mas também a liderança da Escola.

Zero Hora – A disciplina, ou a falta dela, chega a ser um problema?
Pothin – A indisciplina é uma realidade principalmente nas Escolas de Ensino médio. O ministério da Educação tem tomado algumas medidas dando mais autoridade aos Professores e diretores. Por exemplo, Professores podem vistoriar mochilas e outros pertences sem autorização do Aluno ou dos pais caso suspeitem que haja drogas, armas ou álcool. Se necessário, Professores também podem fazer uso de contato físico, caso o Aluno esteja colocando outros ou a si mesmo em perigo. No entanto, a indisciplina, na minha opinião, é apenas um sintoma de que algo não vai bem na Escola.

Zero Hora – Depois de conhecer o sistema britânico de Ensino, houve alguma mudança na sua percepção da situação educacional brasileira?
Pothin – Uma das primeiras coisas que aprendi logo que comecei a lecionar aqui é que culpar o Aluno pelo insucesso é falta de profissionalismo e injusto com o próprio Aluno. A mentalidade aqui na Inglaterra é de que é responsabilidade do Professor preparar aulas que sejam interessantes, que desafiem os Alunos e que promovam aprendizado. Outra mudança marcante na minha percepção da situação educacional brasileira é a falta de preparo do Professor e de muitos coordenadores pedagógicos em promover aprendizado de todos os Alunos. Sabe-se que ainda é prática comum em muitas salas de aula brasileiras a cópia ou passar a mesma matéria e atividade para todos os Alunos. Isso gera uma série de problemas: ao planejar a aula apenas para o Aluno mediano, os Alunos com mais dificuldades provavelmente não conseguirão acessar os objetivos, enquanto, aos mais hábeis, sobra desmotivação pela falta de desafios. E a terceira questão que aprendi é a importância da qualidade da liderança no sucesso de todos na Escola. No Brasil, apesar da dedicação de muitos diretores, vice-diretores, supervisores e coordenadores, muitos ainda não têm o preparo técnico necessário para gerir uma Escola.

Zero Hora – Qual a exigência mínima para conquistar uma vaga nas Escolas públicas inglesas?
Pothin – O Professor deve alcançar uma titulação de Professor qualificado, ou seja, apenas completar o curso superior não é o bastante. É preciso passar nos estágios e no primeiro ano probatório depois de formado. Normalmente, os Professores se formam em um bacharelado e fazem uma pós-graduação em tempo integral durante um ano, preparando-se para lecionar. Depois de me formar em Letras na Unisinos, enviei meu histórico Escolar e diploma a uma agência do governo britânico que avalia a equivalência de diplomas estrangeiros. Depois de receber a confirmação de que o meu diploma brasileiro era equivalente a um diploma britânico, as oportunidades se abriram e consegui o visto de trabalho na Escola onde trabalho até hoje.

Zero Hora – O nível de exigência é mais alto do que no Brasil?
Pothin – Como nas Escolas do Reino Unido os Alunos passam automaticamente para a série seguinte no final do ano letivo, cabe ao Professor diferenciar o conteúdo e as estratégias para que todos avancem. Isso pode ser muito complicado para o Professor inexperiente. Digamos que, por exemplo, a turma esteja aprendendo a escrever um conto. Ao planejar as aulas, o Professor deve organizar atividades que permitam ao Aluno com mais dificuldade escrever uma narrativa com uma estrutura mais simples, enquanto que aos mais hábeis, uma narrativa com estrutura e linguagem mais complexas. No entanto, todos os Alunos estarão aprendendo a escrever um conto, mas em estágios diferentes.

Zero Hora – As diferenças sociais e econômicas dos estudantes aparecem na sala de aula?
Pothin – Nas grandes cidades, e especialmente em Londres, muitas Escolas recebem Alunos de famílias muito carentes. Cabe ao Professor planejar aulas e organizar atividades pedagógicas que promovam aprendizado para todas essas crianças. No entanto, uma Escola de qualidade não vê essa dificuldade com a língua ou a situação familiar como empecilho mas como um desafio, oferecendo a essas crianças um espaço seguro para que elas se desenvolvam, aprendam e se socializem. Acho que essa é a grande lição para a Educação brasileira: investir em qualidade, promover aprendizado para todos na sala de aula e não aceitar que a situação socioeconômica dos Alunos limite o potencial de cada um.