Por uma educação para a sustentabilidade sem fronteiras

Por Alessandra Moura Bizoni – alessandra.bizoni@folhadirigida.com.br

Crédito: Zenite MachadoExposição reúne trabalhos de vários tipos, na área de educação ambiental

No momento em que o mundo inteiro volta seus olhos para o Rio de Janeiro e se debruça sobre as discussões em torno da sustentabilidade — que além das questões ambientais engloba a inclusão social e novos modelos, como a economia verde—, educadores unem forças para articular ações nos cinco continentes.No contexto da Rio+20, a Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável, que termina na sexta, 22, foi lançada, na semana passada, no Planetário da Gávea, a Rede Planetária do Tratado de Educação Ambiental. Tendo como ferramenta as novas tecnologias, a rede internacional pretende sistematizar as discussões e trocas de experiências educacionais voltadas para a sustentabilidade. A cerimônia foi marcada por um ato simbólico que reuniu a autora do tratado, Moema Viezzer. e Willison Júlio da Silva Pereira, de 14 anos, aluno da Escola Municipal Professor Rubens Berardo, primeiro colocado no concurso cultural “Construindo um novo planeta”, promovido pelo Instituto Ayrton Senna.

A II Jornada Internacional do Tratado de Educação Ambiental surgiu em 2008, com a criação de uma Secretaria Executiva voltada para defesa dos princípios do Tratado de Educação Ambiental. Em 2009, no Fórum Social Mundial em Belém do Pará consolidou-se com a criação de um Comitê Facilitador Internacional, órgão responsável por implementar a Rede Planetária do Tratado de Educação Ambiental.

Coordenadora geral do Instituto Supereco, Andrée de Ridder Vieira informou que a exposição “Construindo o futuro que queremos”, montada no Planetário da Gávea, reúne trabalhos de escolas públicas e particulares e instituições elaborados em jornadas locais de educação ambiental,  realizadas em todo o Brasil. “Uma de nossas preocupações é mapear as boas práticas de educação ambiental realizadas não apenas no espaços formais, mas nos espaços comu-nitários e nos espaços de iniciativa socioambiental para que possamos colher as melhores experiências e capilarizá-las”, explicou Andrée de Ridder Vieira.

Segundo Denise Alves, membro do Laboratório de Educação Ambiental e Políticas Públicas da Universidade de São Paulo (USP) e membro secretaria executiva II Jornada Educação Ambiental, hoje, a legislação educacional do Brasil, no que diz respeito às questões de sustentabilidade, es-tá amparada nos princípios definidos no Tratado de Educação Ambiental, em 1992. “A Jornada é uma caravana de ambientalistas que já trabalhavam com educação antes da Rio 92. A partir de 2008, retomamos o tratado, visando a criação dessa rede planetária”, explicou.

Além de participar das atividades da Cúpula dos Povos, representantes da II Jornada de Educação Ambiental estão presentes na agenda oficial de eventos paralelos, dentre os quais, a elaboração do capítulo de educação dos Tratados da Sociedade Civil Rio+20: “Os tratados dos Povos para a Sustentabilidade”.

“Nossas ações colocam em prática a construção de redes de educação ambiental, em diálogo com representantes de diversas partes do mundo. Queremos partir do conhecimento de cada grupo e, com base nisto, discutir juntos e construir planos de ação”, acrescentou Sheila Ceccon, do Instituto Paulo Freire.

Princípios básicos
surgiram na Rio 92
O Tratado de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis e Responsabilidade Global foi criado ao final do Fórum Internacional de ONGs e Movimentos Sociais do Fórum Global Rio 92. Elaborado por educadoras e educadores de vários países do mundo, tornou-se referência para a educação ambiental no mundo inteiro.

Na ocasião, lembra Tereza Moreira, representante da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão do Ministério da Educação (Secad/MEC), uma presença marcante foi a do educador Paulo Freire.

“Paulo Freire participou do encontro em 1992, na Tenda 6, no Aterro do Flamengo. E causou impacto ao afirmar que é o homem quem dá sentido a natureza. Os animais fazem parte da na-tureza, mas o homem é o único que têm consciência de sua condição. Éramos 600 educadores. Aprovamos o Tratado de Educação Ambiental que teve desdobramentos no Brasil e em vários países”, afirmou Tereza Moreira.

Representante da II Jornada de Educação Ambiental no GT Educação Rio+20, Monica Simons, que também integra o Conselho Internacional de Educação para Adultos (Icae), salienta que os princípios do Tratado de Educação Ambiental são pertinentes e que a proposta da Rio+20 é definir ações para aplicá-los efetivamente.

“Queremos enriquecer o Draft Zero, qualificando as discussões sobre uma educação verdadeiramente transformadora. A cultura pela paz faz parte disso. Nosso plano não é revisitar o tratado, os princípios já estão dados. O desafio é fazer com que os princípios num plano de ação possam se concretizar”, observou.

Coordenadora da Organização Não Governamental Brahma Kumaris no Brasil, órgão vinculado à Organização das Nações Unidas (ONU), Luciana Ferraz ressalta a necessidade de novos paradigmas na educação. Segundo a educadora, é preciso eliminar o intervalo entre o que as pessoas propõem e aquilo que fazem.

“Buscamos a congruência entre o que sabemos que é ideal para o planeta e aquilo que fazemos no dia a dia. Não pode haver uma educação ambiental correta e verdadeira, se a pessoa se preocupa em apenas separar o lixo, mas trata as pessoas com discriminação no ônibus na escola. Esse novo paradigma é fundamental. E um dos princípios é a mudança dessa visão de uma sociedade de consumo para uma sociedade de outro tipo de relação com a natureza. A sociedade consumo vai sempre ter poucos com muito e muitos sem nada”, concluiu.

Serviço
http://tratadodeeducacaoambiental.net/index.php?menu

Qual é a educação que precisamos
para o mundo que queremos?

Socióloga e educadora ambiental, Moema Viezzer participou ativamente da elaboração do Tratado de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis e Responsabilidade Global na Rio 92. Passados 20 anos da divulgação do documento, a ativista coordena a II Jornada Internacional de Educação Ambiental, cujo objetivo é institucionalizar uma rede planetária de educadores ambientais, a fim de disseminar as melhores práticas e articular políticas do setor.

Num momento em que ativistas do mundo inteiro se reúnem no Rio de Janeiro,  Moema Viezzer ressaltou que a educação ambiental precisar sair dos bancos das escolas para se tornar uma realidade concreta na vida cotidiana. “Temos que manter a educação ambiental nas escolas. Mas as famílias, o em torno das escolas, o mercado devem abraçar os princípios da educação ambiental”.

Nesse sentido, a coordenadora da II Jornada Internacional de Educação Ambiental assinalou a pertinência do mote da campanha do Tratado de Educação Ambiental: somos todos aprendizes. “A ideia de que ‘somos todos aprendizes’ é muito profunda e nos remete à necessidade de nós, pessoas adultas, revisarmos as nossas ideias e repensarmos a nossa geografia mental para que a educação seja o pano de fundo de nossa vida cotidiana”, completou a socióloga.

Considerada uma das principais idealizadoras do Tratado de Educação Ambiental, Moema Viezzer destacou, ainda, a mudança de paradigma necessária à educação do século XXI, ao qual os princípios de sustentabilidade precisam estar integrados.

“Se não tivermos crianças que se eco-educam, não teremos líderes capazes de responder às demandas desse mundo que queremos. Se não tivermos legisladores eco-educados ficaremos com um ‘gap’ entre o que se ensina nas escolas e o que acontece. Todo mundo deve se sentir aprendiz da sustentabilidade. A alfabetização de crianças e a educação de adultos devem ser ‘ecologizados’. A educação não pode mais ‘não ser’ socioambiental, caso contrário, não será educação”, concluiu a educadora ambiental.

Armazém da Utopia – Prossegue até a sexta, 22, em cartaz no Armazém da Utopia, no Pier Mauá, o projeto Drive-In Rio. Fruto de parceria do Instituto Cultural da Dinamarca e do programa Cultura e Sustentabilidade, do Ministério da Cultura, a mostra reúne performances, efeitos de audiovisual, artes cênicas, animação, design e vídeo mapping.

Iniciativa do coletivo Wunderkammer Latin America, o projeto agrega artistas do Rio de Janeiro, de São Paulo e da Dinamarca. Ao todo, há 16  carros, estando 14 localizados no interior do Armazém da Utopia e dois do lado de fora, visíveis para quem passa pela Avenida Rodrigues Alves.

As apresentações acontecem das 21h30 à meia-noite, logo após as sessões da peça “Havana Café”, ambos com entrada gratuita. Integrando a agenda da Rio+20, os temas do evento são ligados à ecologia e à sustentabilidade.

Serviço
www.driveinrio.com
Armazém 6 – Cais do Porto: Av. Rodrigues Alves, s/n, Centro.

Notas
O futuro das mulheres em debate – Acontece na terça, 19, o encontro “O futuro que as mulheres querem: cúpula de líderes sobre a igualdade de gênero e o empoderamento das mulheres para o desenvolvimento sustentável”. As atividades serão realizadas das 9 às 18 horas, no Riocentro.

Representantes de governos, chefes de delegação das Nações Unidas, sociedade civil e setor privado irão debater a situação das mulheres no mundo. Diretora-executiva da ONU-Mulheres, Michelle Bachelet fará os discursos de abertura e de encerramento do encontro, que destacará as estratégias e os programas que fomentam a igualdade de gênero e o desenvolvimento sustentável. Todos os eventos da ONU Mulheres serão transmitidos ao vivo pela internet.

Serviço
www.unwomen.org
http://j.mp/unwomenrio

O futuro que nós queremos – O Museu de Arte Moderna (MAM) abriga, até o dia 22, o espaço “O futuro que nós queremos”. Desenvolvida junto à Cúpula dos Povos, a iniciativa busca mobilizar a população para participar da conversa global lançada pela ONU chamada “O futuro que nós queremos”. No Brasil, a ação ganhou um novo conceito, transformando-se na campanha “Eu sou Nós”, que convida as pessoas a abrirem mão de sua individualidade e começarem a pensar coletivamente.

O público poderá deixar suas mensagens sobre o futuro do planeta tirando fotos ou gravando mensagens que ficarão no site da campanha, que conta com o apoio de centenas de brasileiros como o ex-jogador Ronaldo, o cantor MV Bill, a modelo Gisele Bündchen, o escritor Paulo Coelho, o artista plástico Vik Muniz e o arquiteto Oscar Niemeyer.

Serviço
www.ofuturoquenosqueremos.org.br
www.onu.org.br/rio20
Museu de Arte Moderna: Av. Infante Dom Henrique, 85, Parque do Flamengo.

Espaço livre

Sustentabilidade falada

Muito se tem falado sobre sustentabilidade, sobre preservação ambiental, usando o enorme músculo de publicidade das emissoras de tevê, gastando somas elevadas de dinheiro simplesmente para dizer “Estamos falando sobre sustentabilidade”. A pergunta que fica é: realmente estamos praticando sustentabilidade?

Os governos aparentam estar mais preocupados em mostrar ao povo que estão tratando do assunto do que realmente buscar soluções efetivas para os problemas em questão. A sustentabilidade deve ser aplicada no dia a dia: nas escolas, nos governos municipais e até nas famílias.

E isso só será possível através de uma nova postura em que se prioriza o futuro sustentável e não o lucro. Enquanto tivermos governos que se “deitam” com empresas, teremos a sustentabilidade relegada a eventos como a Rio+20.

Entenda: não estou dizendo que não temos feito nada a esse respeito, mas a verdade é que temos feito muito pouco — exemplo disso é o baixo investimento governamental em energias renováveis e o esforço, menor ainda, em incentivar estudantes e cientistas em pesquisas sobre desenvolvimento sustentável.

Sustentabilidade parece ser o tema da moda, mas deve ser assunto de suma importância em todo processo da produção de qualquer produto em nosso mundo, uma vez que já somos capazes de entender as possíveis consequências de uma exploração desenfreada dos recursos naturais.

A cada intervalo da programação da televisão, vemos propagandas sobre sustentabilidade, futuro do planeta, preservação. Mas, e em outras épocas, por que não ocorrem tantas propagandas a esse respeito? A dica é “precisamos falar sobre o que estamos falando”.

Mas falar não é o suficiente, precisamos de mais ação, ação imediata. Como diria o afamado primeiro ministro inglês Winston Churchill: “É inútil dizer estamos a fazer o possível. Precisamos de fazer o que é necessário.”

Johnatan da Mata, estudante de Ciências da Computação da Universidade do Mato Grosso   (UFMT), 23 anos.

Anexos

Título Data Tipo

19/06/2012 PDF

Folha Dirigida