Ele estuda, ela estuda

Melina Pockrandt

Caminhando pela Escola do Bosque, em Curitiba (PR), vemos pequenas turmas de ensino fundamental, formadas apenas por meninos e com professores homens. Durante a entrevista da reportagem com o diretor, um grupo de alunos do 3º ano vai para o refeitório, com toda a energia natural da idade, alguns correm pela escada, mas acalmam o ritmo ao verem o professor. Continuando a caminhada, atravessamos algumas dezenas de metros de mata nativa e chegamos à Escola dos Mananciais. Localizada no mesmo terreno e administrada pelo mesmo grupo da Escola do Bosque, a instituição é apenas para meninas. Ao verem o gestor, as alunas correm para abraçá-lo e contar sobre o formigueiro que encontraram. “A diferença entre eles é visível e, em um ambiente homogêneo, os alunos têm toda a liberdade de desenvolver seu potencial e expressar seus interesses e habilidades, sem críticas ou comparações”, comenta Valdir Fernandes, diretor de formação das escolas do Bosque e dos Mananciais.

Fernandes se refere, principalmente, às diferenças no processo educacional que se percebe entre meninos e meninas. Segundo o diretor, cada sexo responde de uma forma ao estímulo recebido. “Na alfabetização, por exemplo, a parte do cérebro destinada às habilidades linguísticas permite às meninas mais facilidade pa­ra ler e escrever nos primeiros anos escolares. Os meninos requerem uma atenção diferenciada. Em uma sala mista, as comparações são inevitáveis e os garotos criam certa rejeição a essa disciplina, por não se adequarem como as garotas. O professor, por outro lado, acaba tendo que nivelar os alunos, o que geralmente ‘atrasa’ as meninas e exige muito dos meninos”, avalia.

O doutor em Neurofisiologia e professor de neurociência aplicada à educação, Amauri Betini Bartoszeck, confirma essa diferença em indivíduos entre 7 e 17 anos e comenta que o mesmo acontece na área do cérebro destinada às noções espaciais, a qual influencia diretamente o aprendizado da Matemática. Só que, nesse caso, quem apresenta maior facilidade são os meninos. “Enquanto as meninas desenvolvem mais cedo a habilidade motora fina, tornando a sua grafia mais eficiente, os meninos utilizam com mais intensidade o hipocampo, facilitando as tarefas espaciais e o aprendizado de matemática e álgebra, por exemplo. Os garotos têm maior facilidade com a abstração, enquanto as garotas precisam de uma abordagem mais concreta, que utilize itens com os quais estão familiarizadas”, explica. Bartoszeck ressalta que ambos têm a mesma capacidade de aprender, mas que é importante que haja uma abordagem personalizada para garantir um processo de aprendizado mais eficiente. “É preciso oferecer o mesmo tipo de instrução, mas de forma diferenciada.”

Para Fernandes, não levar em conta essas diferenças cognitivas pode resultar em meninas com dificuldades nas ciências exatas e meninos com pouco interesse pelas ciências humanas. Dados apresentados no I Congresso Internacional sobre Educação Diferenciada, que aconteceu em Barcelona (Espanha), em 2007, mostram como esse cenário é diferente entre os alunos de educação separada por sexo.

Entre os alunos de escolas separadas por sexo é muito pequena a diferença entre meninos e meninas que escolheram cursar disciplina optativa de Matemática. Já entre os alunos de escola mista, o número de garotas interessadas nessa disciplina é menos que a metade de garotos. No mesmo congresso, foi avaliado também o interesse dos alunos pela disciplina de Letras (no caso, alemão) e os resultados são similares: há uma diferença mínima entre alunos e alunas provenientes da educação diferenciada por sexo, mas entre os estudantes de escola mista, há um interesse muito maior das meninas. O estudo foi realizado em Rheinland-Pfaz, na Alemanha.

Segundo o Ministério da Educação (MEC), existem hoje no Brasil 254 escolas só para meninos e 183 instituições de ensino apenas para meninas. No mundo, segundo dados apresentados em 2009 no II Congresso Latino-Americano de Educação Diferenciada, são mais de 210 mil escolas diferenciadas por sexo, que atendem a mais de 40 milhões de alunos. “Esse é um modelo que tende a crescer. Não é retrocesso, é uma proposta de vanguarda”, avalia Fernandes.

Outras vertentes

Marília Carvalho discorda. Professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP) e especialista em educação e relações de gênero, ela afirma que as escolas diferenciadas por sexo são herança da tradição religiosa em que a docência ficava a cargo de padres e freiras e os valores morais ditavam ser inadequada a convivência entre jovens dos dois sexos. A abertura ao sexo oposto nas escolas confessionais começou na década de 1970 e, para a pesquisadora, principalmente, por pressão do mercado e das mudanças de costumes ocorridas desde então. “Essa pressão decorreu também da convicção das famílias de setores médios da população de que não havia motivo para manter seus filhos e filhas em colégios diferentes.” Segundo Marília, não há qualquer justificativa pedagógica, nem houve debates pedagógicos sobre essas mudanças. A educadora também questiona os argumentos biológicos que são levantados como forma de justificar a separação. “Estudos da área médica, feitos por neurologistas e psicólogos que buscam se despir de pressupostos, mostram que não há tais diferenças a priori: elas são sempre uma resultante da combinação do desenvolvimento físico com as oportunidades, exigências e pressupostos que temos para cada sexo.”

O Colégio Padre Antônio Vieira, no Rio de Janeiro (RJ), que até 1992 era exclusivo para meninos, tornou-se misto por questões logísticas. Para a diretora Vera Rudge Werneck, a rotina atual é facilitada se os pais podem manter seus filhos em uma mesma escola. Apesar de não ter percebido nenhum prejuízo do ponto de vista pedagógico e disciplinar com o ingresso das meninas na escola, Vera avalia que a separação também pode ser benéfica. “O ideal seria que houvesse convivências ocasionais e separações também ocasionais. Assim, o processo de ensino poderia especializar-se cada vez mais, procurando atender a todas as peculiaridades de cada sexo, com maior atenção possível”, comenta.

Essa proposta de uma escola em que há meninos e meninas mas na qual cada sexo aprende separadamente é uma das ideias do médico e educador Leonardo Amaya, professor nas Universidades de Rosário e de La Sabana, em Bogotá, Colômbia. “As principais vantagens da educação diferenciada não estão nas escolas separadas por sexo e, sim, na aprendi­zagem específica. O ambiente escolar é um local essencialmente social e o que meninos e meninas fazem fora da zona específica de aprendizagem não prejudica o processo de ensino”, afirma. Amaya ressalta, entretanto, que a escola não deve ser o único espaço de convivência social e que as crianças precisam ter convívio em outros locais. “Basta analisar as consequências do bullying quando a escola é o único local de relações sociais”, acrescenta.

No caso da Escola do Bosque e Mananciais, em Curitiba, não há interação entre meninos e meninas, pois se baseiam em um modelo formatado na Espanha. “São duas escolas separadas e independentes, onde os conteúdos de ensino são os mesmos. O que propõem são métodos de aprendizagem diversos para conseguir explorar mais plenamente a igualdade entre homens e mulheres, não para atentar contra ela”, afirma Fernandes. O diretor ressalta, ainda, que essa é uma opção pedagógica, com objetivos acadêmicos.

Curiosamente, a separação por sexo não é, necessariamente, a primeira característica avaliada pelos pais que optam pela escola curitibana. Ney José Kloster, que tem uma filha no 2º ano da Escola dos Mananciais, afirma que escolheu a escola por outras razões, como a formação integral das crianças e a concepção da família como o centro responsável pela educação. “No princípio, a educação diferenciada não foi o mais importante, mas após um ano e meio vejo grandes benefícios. Notei que é uma forma de facilitar a educação para a minha filha. Hoje já não abro mão da educação diferenciada”, comenta.

A professora Marília Carvalho não questiona os resultados acadêmicos das escolas diferenciadas por sexo, mas avalia que a escola tem um papel muito maior do que simplesmente formar bons alunos. “A escola não pode visar apenas bons resultados em testes: ela é um espaço fundamental de aprendizagem de cidadania, respeito, convivência igualitária entre as diferenças e, entre elas, as diferenças de sexos. Como fazer isso em escolas separadas?”, analisa.

Matéria publicada na edição de outubro de 2011 da revista Gestão Educacional. O que achou deste texto? Deixe sua opinião na seção Voz do Leitor.