Paradigmas holísticos e o sertão do Ceará

Duas escolas do município de Pedra Branca, Sertão Central cearense, obtiveram a 12ª colocação entre as escolas públicas do Brasil, com a nota 8,1. Poderíamos tentar encontrar explicações para tal fenômeno nos planos que aquele município tem para a educação. Porém, as outras escolas municipais não se destacam como as duas premiadas. O que ocorre, então, nessas escolas? Busquemos pistas explicativas nas ciências naturais, já que as sociais parecem insuficientes para alcançar o fenômeno.

Segundo O POVO em 19 de agosto, chama-nos a atenção um cartaz estampado em uma das escolas: “Nenhum de nós é tão inteligente quanto todos nós juntos”. Frase que parece singela e óbvia não fossem a complexidade e a revolucionária força paradigmática que encerra. Viver a essência desta frase significa sair de um paradigma dominante de individualismo e competitividade para ingressar em um outro paradigma emergente de cooperação e solidariedade.

As últimas descobertas das ciências naturais inutilizaram velhas dualidades e certezas construídas pelo conhecimento racional, fundamentado na física mecanicista e no pensamento linear cartesiano, ainda dominante. A cooperação que a frase sugere, que poderíamos imaginá-la própria do mundo social, humanizado, é também do mundo biológico. Os estudos afirmam que nossos corpos são constituídos por cooperativas de células, isto é, há uma continuidade entre biológico e social. Fala-se da biologia do conhecimento, que é, por natureza, amorosa.

O conhecimento racional, por ser analítico e fragmentado, tende a ser egocêntrico e competitivo, enquanto o conhecimento intuitivo, por ser holístico, é solidário, vê a floresta além da árvore. O princípio da realidade, que aquelas escolas enxergaram, é o todo, em criativa construção, por força do quântico princípio da incerteza.

De acordo com a reportagem, há uma prática dialógica de cumplicidade na comunidade escolar. Isto revela que a cooperação entre a ciência/arte/pedagogia e o senso comum pode vencer desafios, destruir os falsos e excludentes paradigmas da competitividade, ao mesmo tempo em que cria os sustentáveis paradigmas da solidariedade. A escola cidadã ainda é o único caminho.

Luiz Carlos Díógenes

lucadiogenes@hotmail.com

Diretor do Sintaf-CE e mestrando em Direito Constitucional

O Povo