Pesquisadores discutem como lidar com a questão das drogas em sala de aula

“Nunca existiu um mundo livre das drogas.”

Flávio Aquistapace

Por ser multideterminado – com implicações para o corpo, a mente e as relações sociais –, o fenômeno do uso das drogas desafia pais e educadores. Em pleno século 21, ainda é muito difícil não esbarrar em respostas simplistas, reduzidas ora ao proibicionimo ora ao viés permissivo.

“Nós não vamos acabar com as drogas. Nunca existiu um mundo livre das drogas”, adverte o professor e psicólogo, Marcelo Sodeli, presidente da Associação Brasileira Multidisciplinar de Estudos Sobre Drogas (ABRAMD).

I Seminário de Proteção Escolar

O debate entre especialistas ocorreu durante a mesa “Álcool e outras drogas na escola: dimensão do problema e procedimentos”, realizada em São Paulo durante o I Seminário de Proteção Escolar, na última semana de agosto.

Ele defende que é inerente ao sujeito provar, desde a infância, diferentes estados de consciência. “Basta observar a alegria que uma criança experimenta ao torcer as correntes de um balanço e depois sair andando tonta do brinquedo.”

Para resistir à vulnerabilidade social, reflete o psicológo, a escola deveria assumir o papel que lhe cabe, ou seja, ensinar a pensar. “É fundamental ensinar a fazer escolhas que façam sentido, sobretudo para si mesmo”. Dessa forma, argumenta, aprende-se ao invés do medo o cuidado consigo.

A proposta é que o professor adote para cada sala de aula, a cada ano, uma dinâmica própria de prevenção, levando em conta as respostas daqueles que são o alvo da ação. “Reduzir vulnerabilidades passa por pensar estratégias que sejam específicas de acordo com cada grupo ou turma”, defende.

Diferenças

A falta de receituário para lidar com o assunto exige de educadores e pais atenção redobrada. “Antes de tomar qualquer decisão, é preciso verificar se há abuso no consumo, seja qual for a substância”, alerta a psiquiatra e pesquisadora Camila Magalhães Silveira, que atua na unidade de dependência química da Universidade de São Paulo (USP).

Camila explicou que existem diferentes graus de uso. De um lado, a abstinência. Na outra ponta, a dependência química. A capacidade de viciar também muda entre as substâncias. No caso do álcool, do total de consumidores, por volta de 3% dos usuários desenvolvem dependência. No Brasil, a idade média para o primeiro gole é de 15 anos, segundo a médica.

“Enquanto a dependência para o crack é extremamente rápida, para o álcool chega a levar de nove a dez anos para se instalar. Segundo dados recentes da Organização Mundial da Saúde (OMS), o álcool é a substância que mais mata no mundo, se consumida de forma abusiva.

Uma das saídas, aponta ela, é detectar precocemente a fim de diminuir os impacto, sobretudo quando se trata de crianças e adolescentes. Quanto mais cedo o contato, maior é o risco de dependência. “Postergar o contato com a droga é fundamental, porque é na adolescência que acontece a maturação do funcionamento cognitivo, da fala, da atenção e da memória”, adverte.

Saúde

Mudar o foco: no lugar da droga, ressaltar a promoção da saúde. Do enfoque estritamente médico, pensar na participação e corresponsabilidade do sujeito nos cuidados consigo mesmo. Esta é a perspectiva do psiquiatra e especialista em dependência química, Dartiu Xavier. “Ao invés da droga, tratar da qualidade de vida”, afirma.

Xavier levanta dados históricos para demonstar as consequências das políticas proibicionistas. Segundo ele, na época da Lei Seca estadounidense – proibição da comercialização de álcool em todo o país, ocorrida entre 1920 e 1933 –, por volta de cem mil pessoas morreram ao consumir a substância por via endovenosa. Como o acesso era muito mais difícil, quem conseguia queria experimentar pela forma mais intensa, o que invariavelmente levava as pessoas à morte.

Como alternativa, Dartiu apresenta a política de redução de danos, voltada a diminuir os prejuízos biológicos, sociais e econômicos do uso de drogas – inclusive as lícitas. “Cerca de 65% dos dependentes não conseguem abandonar a droga. Mas muitos conseguem mudar a maneira de consumo, tornando-a menos prejudicial e prosseguindo em uma vida produtiva e criativa, sem que a droga seja um impedimento”, explica.

Focar no indivíduo, na consolidação dos seus vínculos sociais, pode ser uma boa estratégia a ser adotada pelas escolas. “Um adolescente mal na própria pele é um prato cheio para se tornar um dependente. Mas, se ao contrário, ele estiver fortalecido, mesmo que experimente, o mais provável é que se torne um usuário ocasional de droga”, conclui.