Educação para a morte

Diante da morte, o homem sempre se perguntou: de onde venho, o que faço aqui e para onde irei? Desde os tempos mais remotos, a morte o coloca diante de questões existenciais de maior profundidade.

Há, no entanto, um despreparo filosófico, religioso, psicológico e pedagógico para lidar com esse fenômeno tão presente em sua vida, embora seja a coisa mais certa e universal que existe.

Com efeito, todas as respostas, até aqui, são insatisfatórias e pecam pela incompletude, tanto no domínio da ciência como no das religiões. Contudo, é possível examiná-las sob diversos ângulos e perspectivas, procurando entendê-las para além de meros conceitos teóricos. Esse processo de ensino-aprendizagem no mundo científico, embora seja referenciado desde os primórdios, é um campo de estudo relativamente novo.

Até a primeira metade do século XX o assunto ainda era tratado como tabu no meio acadêmico. Os primeiros avanços datam de 1959 com trabalhos desenvolvidos por Elisabeth Küble-Ross. No Brasil, os passos iniciais foram dados pela psicóloga Wilma Costa por volta de 1970 e algumas universidades vêm abordando a matéria, nos cursos de psicologia e enfermagem, mas pouca ou nenhuma escola de medicina encampou o tema.
O nome tanatologia – com que se define a ciência que estuda a morte e o processo de morrer em todos os seus aspectos: religioso, biológico, social, antropológico, forense, etc., deriva do deus grego tânatus que, na mitologia, era a própria personificação da morte.

Podem ser citados exemplos de grandes vultos da antiguidade como mestres inigualáveis no assunto. Conta-se que, quando o Júri de Atenas condenou Sócrates à morte, sua mulher correu aflita para a prisão, gritando-lhe: “Sócrates, os juízes te condenaram à morte”. O filósofo respondeu calmamente: “Eles também já estão condenados”. A mulher insistiu em seu desespero: “Mas é uma sentença injusta!”. E ele perguntou: “Preferias que fosse justa?”. A serenidade de Sócrates constituiu extraordinário método pedagógico para a morte.

Com igual propriedade, Cícero, o maior orador e jurisconsulto da História de Roma, lecionava: “Que há de mais natural para um velho que a perspectiva de morrer? Quando a morte golpeia a juventude, a natureza se rebela. Assim como a morte de adolescente me faz pensar numa chama apagada sob um jato d’água, a de um velho se assemelha a um fogo que suavemente se extingue… E é desde a adolescência que convém se preparar para o desprezo da morte. Sem essa preparação, nenhuma serenidade é possível”.

Ademais, como entender a tranquilidade de Cristo diante da crueldade e da injustiça a que foi submetido se não levar em consideração um preparo educacional evolutivo em relação a morte? É preciso, pois, oficializar o estudo interdisciplinar da morte, com a inserção de disciplina específica, no currículo escolar, cuja didática deve ser feita, sem proselitismo e discriminação, sem negligenciar os avanços no campo da ciência e da espiritualidade.

O Estado – CE