“A minha segunda chance”

Em unidades socioeducativas visitadas pelo O POVO, histórias de adolescentes que aprendem já muito cedo que ainda há um trecho muito maior de vida pela frente. Agora aprendem como pode ser o lado bom – FOTO: GABRIEL GONÇALVES e EDIMAR SOARES

O rapaz quer ser pai de família. A menina, cantar. Sem liberdade hoje, projetam a vida adulta melhor que a juvenil

Adolescentes que geralmente só são notícia ao serem apreendidos ou quando as rebeliões estouram nos centros educacionais – por culpa dos fatos, da imprensa ou de quem não os cuida como deveriam -também têm grandes exemplos a dar. Por mais que duvidem, e sabem da pecha, muitos dos que já roubaram, usaram drogas, até mataram, também se recuperam. 

No caso de Ana, de 17 anos, ela que foi ao juiz. Pediu ajuda, quis se privar da própria liberdade. “Não estava mais aguentando”. De tanto crack, cocaína, maconha, injetável, álcool. Usava de tudo e o que o namorado oferecesse. Desde os 13. Roubava, “até me prostituí”.

Na entrevista, não chegou a contar tudo: viu a amiga, igualmente mergulhada na drogadição, ser estuprada e depois morta. Vislumbrou ali o próprio fim. Hoje, Ana é referência para as demais meninas do Centro Educacional Aldacir Barbosa, no bairro Antônio Bezerra.

Parou dessa vida no dia 8 de fevereiro de 2012, quando chegou à unidade. Abstinente, o vício lhe deixou tremeliques nas mãos. Ela agora ri contando isso. “Se Deus quiser vou ser cantora”, chora, e depois ri de novo: “ou dançarina”. Também borda, costura, pinta. Já está no quarto dos seis meses recolhida em semiliberdade tecendo seu projeto de vida.

“A primeira eu perdi”

No Centro Educacional Patativa do Assaré (Cepa), no Ancuri, Afonso, 17, está encarcerado há nove meses porque matou um outro rapaz, em 2011. “Mas nunca roubei”. Serão dois anos ali. “Isso aqui é a minha segunda chance. A primeira eu perdi”.

As gírias do tempo de gangue não saíram de sua fala. “Só aprendi desgraça e fiz o mal. Ouvia muito conselho e não seguia”. A liberdade perdida lhe ensinou. Enquanto espera a hora da saída, Afonso trabalha na oficina de metalmecânica do Cepa. Recebe cerca de R$ 350 por mês. Na verdade, dinheiro depositado num fundo da unidade e que terá direito justamente quando sair. “Quero montar família, ser pai de uma família”.

Os internos do Cepa, que no início deste mês eram 144 (para 60 vagas), todos têm a mesma idade. E casos quase idênticos. Mário, 17, também matou. Antes, já assaltou, usou drogas. E seguia o que seus amigos fizessem. Está na unidade há um ano, privado de ver o filho de oito meses prestes a aprender a andar. Como interno, tornou-se pai. Quando a namorada estava grávida, foi apreendido pelo homicídio.

“Quero ser como pai tudo o que não tive do meu. Quero pra ele o carinho que não tive”, conta. O que lhe faltou virou lição. “Se eu faço planos? Acabar o sofrimento da minha mãe”. No Cepa, Mário aprende a ser operador de máquina. Quer a profissão. “Tem jeito, sim. É só querer”.

No Centro Aldacir Barbosa, as adolescentes não sofrem a lotação do Cepa. E quase todas as internas participam de praticamente todas as atividades oferecidas: artes, dança, corte e costura, higiene e beleza. “Três daqui saíram pro time de futsal feminino do Cuca da Barra do Ceará”, conta a diretora Elisa Barreto.

O diretor do Patativa do Assaré, Fernando Barroso conta que todo o saneante usado nas demais unidades socioeducativas é fornecido pela fábrica que há no centro. O gargalo, além da superlotação, é ainda a falta de professores desde abril último – em processo de lotação pela Secretaria da Educação. Com sala de aula funcionando, talvez houvesse ainda mais histórias boas a contar.

ENTENDA A NOTÍCIA

Os nomes dos adolescentes citados nesta matéria são fictícios. Pela lei, são preservados de qualquer identificação. Para ouvir suas histórias, O POVO obteve autorização do Juizado da Infância e da Juventude.

Cláudio Ribeiro
O Povo