Mudanças em Fortaleza apontam novos desafios

Analisando indicadores sociais da Capital, especialistas apontam caminhos a serem seguidos pelo prefeito

Concentrando 30% da população do Ceará, Fortaleza dispõe hoje de 192 estabelecimentos de saúde públicos e aproximadamente 417 escolas de ensino fundamental para atender 2,4 milhões de habitantes. Na última década, a Capital passou por mudanças, como por exemplo aumento populacional e duplicação da frota de veículos em circulação. As alterações no perfil da cidade trazem também novos desafios. Por isso, especialistas em diversas áreas apontam ações que devem ser priorizadas pelo próximo prefeito para atender demandas do fortalezense.


Uma dificuldade enfrentada no serviço público é a superlotação nos postos de saúde. Especialista diz que número de estabelecimentos corresponde à demanda, mas atenta que é preciso considerar a qualidade do serviço FOTO: JOSÉ LEOMAR

Entre os anos 2000 e 2010, conforme dados do IBGE, a população fortalezense cresceu 14,5%, passando de 2,1 milhões para 2,4 milhões de habitantes. O aumento significa também maior demanda de direitos básicos, como saúde e educação. No que se refere à educação básica, o Município é o responsável pela pré-escola e pelo ensino fundamental, enquanto cabe ao governo estadual garantir o ensino médio. Segundo informações do site da Prefeitura de Fortaleza, a cidade conta hoje com 417 escolas distribuídas nas seis Regionais, além de convênios com outras instituições de ensino.

Apesar do aumento populacional pelo qual a cidade passou na última década, o número de alunos que frequentam escolas ou creches pouco tem aumentado: apenas 2%. Conforme o professor da Unifor, Rosendo Amorim, isso acontece porque Fortaleza tem hoje um problema grave de evasão escolar. Portanto, o próximo gestor da Capital deve estar preocupado com a manutenção dos alunos na escola. “Não temos tanto um problema de universalizar o ensino fundamental. A questão é como conseguir manter o aluno na escola”.

Para ele, o próximo prefeito precisará investir principalmente em escolas em tempo integral. “A escola de um turno é problemática. A escola pública é feita de uma população que precisa de maior assistência. Lanche, almoço, acesso a arte, esporte, laboratório”, afirma. Porém, uma dificuldade para a adoção desse modelo é a atual estrutura física dos equipamentos de educação do município, que não têm como atender a todos os alunos em tempo integral.

Parceria

A Prefeitura atua em parceria com os governos estadual e federal para garantir os serviços públicos de saúde, sendo responsável principalmente pela atenção básica nos postos e nas emergências. Segundo o Cadastro Nacional dos Estabelecimentos de Saúde do Brasil (CNES), nos últimos sete anos, foram criados 59 novos estabelecimentos de saúde em Fortaleza. Isso porque, em 2005, Fortaleza tinha 107 estabelecidos de saúde do Município, 21 do Estado e cinco da União, incluindo hospitais, postos de saúde e centros de atendimento pisicossocial. Atualmente, são 192, sendo 155 gerenciados pela Prefeitura, 32 pelo Estado e cinco pelo governo federal. Para complementar a oferta, existem ainda convênios com hospitais e leitos de retaguarda.

Na avaliação do professor da Unifor, Antônio Silva Lima, pode-se dizer que a quantidade de estabelecimentos públicos de saúde condiz com a demanda da Capital, havendo rede capilarizada e postos de saúde em muitos bairros, mas é preciso considerar a qualidade do serviço.

“A saúde transcende os números, ela é refletida na distribuição e fixação de profissionais, o que nem sempre ocorre nesses estabelecimentos. A dificuldade de acesso decorre não apenas da infraestrutura, mas de profissionais e de recursos complementares”, aponta.

Antônio Silva Lima analisa que o problema da saúde passa pela questão do subfinanciamento: “Há o espaço, mas a manutenção e o custeio não são suficientes”. Para o professor, não basta pensar no número de postos de saúde e de hospitais, mas refletir sobre o funcionamento desses equipamentos. Segundo o professor, Fortaleza concentra usuários que dependem do serviço público, visto que apenas 25% da população têm convênios.

Risco

Para reduzir os gargalos nessa área, Antônio Silva Lima sugere que o futuro gestor de Fortaleza reforce a atenção básica e equipe os postos de saúde para evitar a superlotação nos hospitais, trabalhe o protocolo de classificação de risco do paciente, implante plano de cargos e carreiras para os profissionais de saúde, além de propostas que facilitem a permanência dos profissionais no serviço público, e combine iniciativas da área da saúde a outras intersetoriais. “É difícil melhorar a saúde sem intervir, por exemplo, na questão socioambiental.”, explica.

A questão da acessibilidade também merece ganhar maior atenção durante o planejamento das ações da Prefeitura de Fortaleza. Isso porque, conforme informações do IBGE, o número de pessoas com algum tipo de deficiência duplicou em dez anos. Em 2000, a Capital computava 291.809 pessoas com deficiência. Em 2010, esse número chega a 646.493.

A professora Terezinha Joca, coordenadora do Programa de Apoio Psicopedagógico da Unifor, afirma que a questão da acessibilidade ainda está longe de ser plena em Fortaleza, mas destaca que foram iniciadas mudanças nesse sentido. “As obras já se preocupam com um rebaixamento em respeito à possibilidade de acesso dos cadeirantes. O que ainda existe pouco é a acessibilidade para o cego. Há algumas ações em locais específicos, mas ainda há muito o que fazer. Há também um desrespeito da sociedade”, analisa. Conforme Terezinha Joca, é importante que o próximo gestor, além de se preocupar com obras, promova ações educativas.

“Primeiro, tem que ver as questões a começar pelo Centro da cidade e por outros locais com maior movimento de pessoas, como rodoviária, praças e locais públicos, para que sejam mais acessíveis a cadeirantes e cegos. Os meios de transporte também precisam ser mais fiscalizados. Não basta ter o ônibus com rebaixamento, mas é preciso orientação da população e treinamento de motoristas. Que haja para o cego a parada de ônibus com áudio, avisando quando o transporte está chegando”, sugere.

SAIBA MAIS

População

Cerca de 30% dos cearenses vivem em Fortaleza, cidade que dispõe de 192 estabelecimentos de saúde públicos e aproximadamente 417 escolas de ensino fundamental custeadas pela Prefeitura para atender 2,4 milhões de habitantes.

Evasão escolar

Apesar do aumento populacional de 14,5% pelo qual a cidade passou na última década, o número de alunos que frequentam escolas ou creches pouco tem aumentado: apenas 2%. Segundo especialistas, o futuro gestor precisa pensar ações para evitar a evasão escolar, fator que explicaria os dados do IBGE.

Acessibilidade

A questão da acessibilidade também merece ganhar destaque. Segundo o IBGE, o número de pessoas com alguma deficiência em Fortaleza duplicou nos últimos dez anos.

BEATRIZ JUCÁ
REPÓRTER

Diário do Nordeste