Uma forma diferente de trabalhar a Educação Física

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Cecília Mariano: “O atletismo nas escolas há muito tempo vem sendo colocado em segundo plano”

Por Renato Deccache – renato.deccache@folhadirigida.com.br

A Educação Física está presente no currículo de boa parte das escolas brasileiras. Apesar disto, boa parte de nossos estudantes passa toda a vida escolar sem ter acesso a modalidades esportivas importantes, em especial as que envolvem os esportes individuais.

A falta de quadras poliesportivas e outros recursos contribui. Mas, o fundamental é a cultura que ainda impera de trabalhar com os esportes coletivos, em especial, os que utilizam da bola, como o futebol, por exemplo. É o que destaca a professora Cecília Mariano, autora do livro “Educação física – o atletismo no currículo escolar” (Wak).

Para a especialista, a qualidade do trabalho com a prática esportiva entre jovens e crianças melhora muito quando modalidades diversas são trabalhadas. “Diversificar as modalidades esportivas é proporcionar ao aluno um campo vasto de pesquisa motora, fazendo das aulas de Educação Física um espaço de aprendizagem, desenvolvimento e descoberta.”

Pós-graduada em Psicopedagogia e Gestão, Orientação, Supervisão Escolar e Psicomotricidade, Cecilia Mariano, nesta entrevista, analisa o trabalho com a educação física nas escolas, indica ações para a melhoria da qualidade do trabalho com esta disciplina, apresenta estratégias para o trabalho lúdico com o esporte na escola, mostra que é possível explorar atividades físicas na educação infantil, entre outras questões.

FOLHA DIRIGIDA — Que avaliação a senhora faz do trabalho com a educação física nas escolas brasileiras? A disciplina é bem trabalhada ou há problemas?

Cecília Mariano — Vejo que, de um lado, persiste a Educação Física tradicional baseada no desenvolvimento dos esportes coletivos e, do outro, uma Educação Física Escolar que vem crescendo comprometida mais amplamente, indo além da especificidade, inserindo novas propostas, novas tendências na Educação Física brasileira e nova forma de tematizar o ensino. É possível sairmos da rotina da Educação Física que transformou muitos profissionais da área em professores conformados com o sistema. Betti (1991) cita uma expressão interessante quanto ao esporte: “O esporte é aquilo que se fizer dele”. Assim, vejo que a “Educação Física Escolar será o que se fizer dela”. Os professores são responsáveis pelo sucesso e insucesso das aulas e da aquisição do conhecimento dos alunos.

Que contribuições o trabalho com a educação física é capaz de trazer, além de melhorar a forma física dos estudantes?
A Educação Física Escolar não deve ter a preocupação no aprimoramento e no desenvolvimento das diversas habilidades em si, mas sim em relação às atividades concretas do universo da cultura corporal, compreendendo a expressão corporal enquanto linguagem. Os alunos precisam fazer uma leitura do mundo, não apenas na aquisição gráfica dos sinais, mas também ler e interpretar as ações motoras.

O que poderia ser feito para melhorar a qualidade do trabalho com a Educação Física em nossas escolas?
Chamo a atenção para o esporte educativo, aquele que leva o aluno à aprendizagem e aquisição de novos conhecimentos, através de trocas de experiências coletivas e individuais e principalmente o respeito à cultura que o aluno traz consigo, aprendendo pela compreensão sobre os movimentos realizados nas atividades esportivas e recreativas. Quando direcionamos a Educação Física Escolar para o esporte de competição empobrecemos o currículo escolar, permanecendo na mesmice do cotidiano, onde em busca de resultados, massageamos o ego de alguns e praticando a exclusão de alunos aparentemente não habilidosos ou que não correspondem às expectativas dos professores. Com isso, a Educação Física deixa um rastro de adolescentes frustrados e desacreditados, como se fossem produtos que não passaram pelo controle de qualidade, levando-os ao abandono precoce dos esportes e consequentemente ao abandono da atividade física.

Acredita que o país está efetivamente aproveitando a realização de grandes eventos esportivos, nos próximos anos, para incentivar a Educação Física e a prática de esportes entre jovens e crianças? O que é preciso fazer para colocar em prática esse incentivo?
Os grandes eventos esportivos no Brasil e no mundo evidenciam o esporte competição e os seus resultados, sendo uma manifestação de interesses social, cultural, político e econômico, o que não faz a Educação Física mais ou menos atraente nas escolas. A grande tarefa da transformação didático-pedagógica dentro das escolas brasileiras é aumentar sua atratividade e sua a compreensão, “porque fazer, como fazer, quando fazer e como melhorar esse fazer”, com diferentes estímulos e diferentes formas de adquirir o conhecimento. O incentivo seria oportunizar para a criança o acesso aos esportes que estão no programa do currículo da Educação Física Escolar, inserido nos Parâmetros Curriculares Nacionais, juntamente com dança, ginástica, jogos e lutas. Porém, o que se observa é que as modalidades esportivas de maior prestígio nacional dentro das escolas e da própria sociedade são as coletivas e têm como objeto central a “bola”.

Seu livro é específico sobre Atletismo no currículo escolar. Como avalia o trabalho com esta modalidade nas aulas de Educação Física? Quais as vantagens disto?
O atletismo nas escolas há muito tempo vem sendo colocado em segundo plano, dando espaço aos jogos coletivos que grandiosamente vêm sendo difundidos entre os profissionais da área que atuam principalmente de 6º ao 9º anos e ensino médio. Essa modalidade, como qualquer outro esporte, deve ser vista no espaço escolar como movimentos naturais que o ser humano executa, independentemente de técnicas e treinamentos. Porém é possível pensar na adaptação e interpretação recreativa, mesmo não negando a tendência ao rendimento e competição que o atletismo provoca na sua essência. O atletismo é a modalidade base, da qual parte a maioria das modalidades esportivas. Os exercícios são um meio excepcional para aumentar a capacidade física geral. Com eles desenvolve-se e aperfeiçoa-se as qualidades físicas básicas: força, velocidade, resistência, flexibilidade e agilidade.

Como trabalhar de forma lúdica o atletismo? Pode nos exemplificar algumas estratégias?
O jogo, a brincadeira, a descoberta, a experimentação e a compreensão são caminhos que levam desde os primeiros anos de escolaridade até o final do ensino médio ao conhecimento do esporte, acreditando que é possível jogar, brincar e reconstruir de forma lúdica o atletismo indo ao encontro de suas técnicas específicas se for do interesse do aluno. Proponho que no âmbito escolar ele seja estudado também em pequenos grupos, onde a socialização estimulará a comunicação, fazendo com que os alunos com seus diferentes repertórios motores, vivenciem o “perder” e o “ganhar” que estão implícitos e explícitos nesta modalidade esportiva. Gosto de trabalhar com grandes temas por faixa etária, evoluindo a aprendizagem de forma lúdica como: educação infantil – “Descobrindo o atletismo”; ensino fundamental do 1º ao 5º ano – “Brincando com o atletismo”; ensino fundamental do 6º ao 9º ano- “Crescendo com o atletismo”; ensino médio – “Atletismo em nossas vidas”.

As escolas, de maneira geral, têm espaços apropriados para a prática da Educação Física? Que diferença isto faz na realização de um trabalho adequado?
Primeiro precisamos definir o que seriam estes espaços apropriados para a prática da Educação Física. Se pensarmos em quadras poliesportivas, um grande número de escolas brasileiras encontram-se sem esta alternativa. Penso que a quadra é mais um espaço alternativo e que os professores junto com seus alunos podem procurar espaços internos e externos da escola, encontrando outros recursos alternativos como gramados, praças, praias, pátios, etc. Um professor comprometido com uma educação de qualidade irá com certeza buscar parcerias, adaptar espaços e materiais para que a aprendizagem e as descobertas aconteçam. Os resultados virão como consequência de um trabalho conjunto entre escola, professor e aluno através de uma pedagogia de participação mútua onde o respeito ao pensamento e à criação deve estar presente.

Mesmo sem espaços adequados, há como trabalhar, de forma interessante para os alunos, com o atletismo na parte de Educação Física? Como?
Professores e alunos devem ser estimulados a adaptar espaços, construir e desenvolver equipamentos alternativos. Para as aulas de atletismo, os equipamentos e instalações alternativos improvisados devem ser adaptados para o uso dos alunos em tamanhos, pesos, alturas e distâncias para todas as faixas etárias. A maioria dos materiais pode ser reaproveitada, encontrados no próprio lixo que produzimos e na própria natureza. O professor pode solicitar a participação dos alunos na coleta e na construção, integrando os pais e a comunidade neste processo. Podemos citar algumas possibilidades como: construir para as corridas simples e de revezamento bastões, blocos de partida com pedaços e tocos de madeira; para arremessos de peso poderemos usar meias com areia; para lançamento de martelo poderemos usar garrafas descartáveis ou sacos plásticos com areia; para lançamento de dardo podemos usar varas de bambu ou cabos de vassouras; para realizar salto em altura, usamos um suporte de madeira com elástico e tanques de areia ou gramado.

Há uma concentração muito grande em algumas modalidades esportivas, como o futebol? Que problemas isto traz?
A cultura brasileira utiliza-se da bola como instrumento de comunicação interpessoal e de expressão, indicando a problemática mais de natureza cultural, que social ou econômica. Na medida em que muitos entendem cultura como expressão do intelecto e esporte como bola, o atletismo passa a ser menos estudado nas escolas brasileiras. Os esportes deveriam considerar seus fundamentos básicos, o seu jogar propriamente dito até seu enraizamento social e histórico, passando pela significação cultural. Nessa perspectiva o aluno não saberá apenas praticar uma modalidade esportiva, mas também o que é praticá-la, por que e como praticá-la e com quem praticá-la. O esporte escolar não pode ficar restrito aos movimentos tecnicista que o compõe, precisa ir além de sua especificidade, precisa alcançar objetivo maior, ou seja, que integre os alunos, que os faça refletirem e sentir prazer na realização do esporte.

É importante a diversificação das atividades relacionadas à Educação Física? Por quê?
Sim. Diversificar as modalidades esportivas é proporcionar ao aluno um campo vasto de pesquisa motora, fazendo das aulas de Educação Física um espaço de aprendizagem, desenvolvimento e descoberta, onde os alunos possam transformar com autonomia e liberdade esses conhecimentos, dando oportunidades para que reflitam taticamente e tecnicamente sobre jogos e esportes diversos. Ensinando os esportes pela compreensão e propondo atividades que sejam compatíveis com o nível de habilidade dos alunos, através de desafios táticos, eles são levados a obter sucesso durante todo o processo de aprendizagem, sentindo-se competentes a cada passo. Para isso o professor pode e deve modificar os esportes, alterando regras, espaços e equipamentos, criando um ambiente desafiador, que leve os alunos a melhorarem suas habilidades e a rapidez nas tomadas de decisões diante de situações problemas.

É possível trabalhar a Educação Física desde a creche e a pré-escola? De que forma fazer isto?
As crianças se movimentam desde que nascem, adquirindo cada vez mais o controle sobre seu próprio corpo, familiarizando-se com a imagem corporal, explorando as possibilidades de gestos e ritmos corporais. Para isso é preciso proporcionar uma diversidade de experiências, enriquecendo seu repertório motor de maneira lúdica. A Educação Física muito tem a contribuir na Educação Infantil. Os primeiros jogos de regras são valiosos para o desenvolvimento de capacidades corporais de equilíbrio e coordenação e trazem às crianças a oportunidade das primeiras explorações motoras, desenvolvendo atitudes de cooperação para com o grupo. Cabe à escola assegurar e valorizar em suas aulas de Educação Física, jogos e brincadeiras que contemplem a progressiva coordenação dos movimentos e o equilíbrio das crianças, utilizando recursos de deslocamento, explorando diferentes espaços e diferentes materiais de manipulação desenvolvendo atitude de confiança nas próprias capacidades motoras.

Nas turmas de ensino fundamental e médio, também seria necessário uma abordagem mais teórica da Educação Física, além da realização de atividades práticas? Por quê?
Nesta faixa etária os alunos já são capazes de estudar as modalidades esportivas com mais orientações, pesquisas e movimentos mais próximos das técnicas. Os jovens e adolescentes neste momento da escolaridade, traçam um perfil forte em busca de afirmação pessoal e identidade, cercados de dúvidas, conflitos, desejos, expectativas e inseguranças. Quase sempre influenciados por modelos externos, levando-os a questionar a autoimagem e principalmente as capacidades físicas. O jogo em seu sentido integral é o mais eficiente meio estimulador das inteligências nesta faixa etária, a proposta é jogar para aprender e não aprender para jogar; compreender os objetivos e não repetir fundamentos específicos, levando os alunos à autonomia tanto para o esporte como para apreciação deles. Não só as crianças jogam pelo prazer do jogo; adolescentes e adultos se assemelham às crianças quando jogam pelo prazer da atividade em si. Dessa forma a teoria e a prática se aproximam de maneira suave levando ao crescimento e desenvolvimento do individuo.

Com as escolas cada vez mais preocupadas com bom desempenho dos alunos no Enem e com o ingresso no mercado de trabalho, a Educação Física tem perdido espaço nas escolas? 
Acredito que a Educação Física sempre terá seu espaço nas escolas necessitando apenas de uma proposta transformadora, levando em conta aspectos culturais e sociais da sua clientela. Uma Educação Física verdadeiramente escolar que seja capaz de mostrar-se interessante, motivadora e versátil, apresentando aos alunos outros caminhos e possibilidades dentro das atividades físicas e que atendam melhor às necessidades dos alunos. O trabalho que proponho não tem a intenção de alterar o significado do conteúdo escolar. As transformações ocorrerão em relação às limitações físicas e técnicas dos alunos para realizar determinados movimentos. Deve-se enfatizar o prazer e satisfação do aluno em movimentar-se, pois a tarefa da escola não é treinar o estudante, mas levá-lo a conhecer os esportes de forma atrativa e compreensiva, incluindo a efetiva participação de todos.

Folha Dirigida