Método busca aliar conteúdos tradicionais e vivência no ensino

No Jardim de Infância Arcoíris, os alunos aprendem a produzir os alimentos, para entender de onde vem a comida. Foto: Divulgação

No Jardim de Infância Arcoíris, os alunos aprendem a produzir os alimentos, para entender de onde vem a comida
Foto: Divulgação

Os alunos do 7º ano da Escola Waldorf Querência, em Porto Alegre, estão ocupados com a aula de euritmia. Enquanto uma professora toca no piano uma melodia de três tempos, a outra guia cerca de 15 jovens, que jogam bastões de uma mão à outra para em seguida passá-los ao colega da frente, ao ritmo da música. “Isso trabalha a motricidade grossa e fina, além de desenvolver uma consciência corporal para se colocar presente no mundo”, explica Cecília Rinaldi, professora do colégio. A aula de euritmia é apenas uma das peculiaridades da pedagogia Waldorf, método de ensino que busca educar os jovens por meio da experiência antes da teoria e com atividades ligadas às artes e à natureza.

“Antes do cérebro despertar, o corpo precisa acordar”, resume perante a turma o professor de classe do 7º ano, Víctor Ardissoni. Nas escolas de pedagogia Waldorf, o docente é encarregado pela mesma turma ao longo dos anos nas primeiras duas horas, ensinando os conteúdos que o ensino regular compartimenta em vários docentes. O restante da aula é destinado para disciplinas à parte, como euritmia, música, teatro, artes plásticas, educação física, trabalhos manuais (tricô, crochê e ponto-cruz), marcenaria – e português e matemática, que são reforçados. Já no ensino médio, apesar de haver professores especialistas nas matérias, ainda há a figura do tutor, encarregado de uma turma.

O conteúdo é trabalhado em ciclos, cuja duração é de aproximadamente um mês. Enquanto os alunos estão no ciclo de história ou de ciências biológicas, por exemplo, vão trabalhar aprofundadamente um tema por meio de músicas, poesia, esculturas, pinturas e debates. Não há livros didáticos, explica Cecília, que é professora de classe do 6º ano. “Trazemos o assunto de maneira viva, contando histórias e mostrando as coisas”, diz.

Um exemplo é a turma do 3º ano, que está estudando o planeta e no começo do ano plantou trigo para acompanhar o crescimento. Após a colheita, no fim das aulas, os alunos farão um pão com a matéria-prima. Assim, quando forem estudar botânica, posteriormente, já terão internalizado o conhecimento. “Todo o ensino se baseia no vivenciar, e não no conteúdo próprio jogado no quadro”, diz Ana Beatriz Weber, professora de classe do 8º ano.

Da mesma forma, chamam a atenção os cadernos dos alunos, totalmente em branco e cujas páginas não estampam sequer uma linha. “Isso não é importante. A espacialidade dos cadernos ajuda a criança a ter controle sobre a própria escrita”, diz Cecília. Os materiais escolares são feitos sempre na tentativa de trazer a natureza para dentro da sala. Há mesas e cadeiras de madeira sem pintura, giz de cera de abelha, pena de ganso e caneta de taquara talhada usados como caneta. O mesmo com os alimentos, cujos ingredientes incluem farinha de trigo integral e buscam evitar produtos industrializados. “A gente busca trazer as coisas verdadeiras para o aluno ter contato, em vez de algo artificial. Isso faz com que a criança viva experiências, e não só use o que o mundo dá pronto”, opina a professora. As mensalidades da Escola Querência variam, do 6º ao 9º o custo é de R$ 900 mensais.

Escola infantil
O Jardim de Infância Arco-íris, que existe há 27 anos, mas só há 10 adota a pedagogia Waldorf, deu origem ao colégio Querência. Da mesma forma, a instituição também busca alimentos mais naturais. Sobre a fama de que escolas Waldorf sejam consideradas “hippies”, a fundadora do jardim, Gislaine Goulart Machado, critica o modelo de sociedade que está em voga. “O que se acha estranho hoje em dia, na verdade não é estranho. Estranho é tomar refrigerante na mamadeira e crianças consumirem comida industrializada, com químicos que desenvolvem alergias. Comida natural não deveria ser considerada estranha”, defende.

Os brinquedos dos pequenos são feitos de pano e dificilmente há um cuja origem seja de plástico. Com mensalidade de R$ 810, a instituição busca, sobretudo, proteger a inocência do aluno, afirmam os educadores. “A gente sempre teve a proposta de preservar a infância. Hoje está se antecipando tudo, querendo que crianças do jardim aprendam conceitos do ensino fundamental. Isso é um ledo engano”, opina Gislaine. “Essa é a época de vivência: primeiro viver a água e o plantio, para só mais tarde estudar conceitualmente, já com referência daquilo que viveu”, reflete.

“Os professores trabalham dentro de uma perspectiva de compreensão do conteúdo, não da técnica”, afirma a coordenadora do curso de Psicopedagogia da PUC-SP Neide Noffs. “Eles são partidários da solidariedade e do amor, com o próprio fato de a família estar seguidamente na escola, acompanhando o filho. Isso faz com que essa pedagogia seja mais transcendente do que as outras, vendo o homem integral e solidário”, analisa.

Ensino médio
No ensino médio do Colégio Waldorf Michael, de São Paulo, os alunos continuam a ter um currículo diferente. Além das aulas que já existiam no fundamental, a instituição, cuja mensalidade é de R$ 1.729 a partir do 9º ano, oferece tecnologia mecânica (em que se constrói uma bicicleta de alumínio), agrimensura (topografia), desenho geométrico, astronomia, primeiros socorros, culinária, projetos sociais, coral, ensino religioso (onde se estuda a história das religiões), inglês, alemão e espanhol.

Os irmãos Miguel, sete anos, e Luiza, 14 anos, estudam no 1º e no 8º ano, respectivamente. A mãe, Katia Geiling Cruz, jornalista, afirma que a escolha por uma instituição com essa metodologia se deu porque o ritmo do aluno é respeitado. “Os professores esperam as coisas se frutificarem. Não há cobrança de competição e tudo é muito bem embasado”, afirma.

Em relação à entrada no ensino superior, ela não acredita em que os filhos estarão em desvantagem ao prestar o vestibular. “É claro que a quantidade de conteúdo que eles recebem, em relação a uma escola super ‘conteudista’, é menor. Mas a qualidade é muito maior. E nós não temos esta pressão de que nossos filhos entrem na faculdade com 17 anos, porque isso não quer dizer que eles vão se dar bem na vida. Não temos essa neurose, pois temos uma outra visão do que é amadurecer”, reflete Katia.

Mauro Pompeo Porrino, professor de matemática, desenho geométrico e agrimensura da instituição, explica que ainda há diversas viagens durante o ano para vivenciar o conteúdo. Matérias como geografia agrária, biologia marinha e astronomia contam com várias saídas de campo. Para o professor, que também é tutor do 9º ano, toda a abrangência garante que a pedagogia Wardorf não saia perdendo em relação a outros métodos. “Em termos de conteúdo programático, muitas vezes é até mais do que é pedido no vestibular. Mas como a forma de trabalhar é diferente, o aluno se apropria do conteúdo de uma forma muito mais pessoal, sem massificação. O aprendizado é mais aprofundado”, opina.

Cartola - Agência de Conteúdo - Especial para o Terra
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