Estagnação no ensino privado

Por Renato Deccache – renato.deccache@folhadirigida.com.br

Crédito: DivulgaçãoImagem de sala de aula: em todos os segmentos, ensino privado não atingiu as metas do MEC

Um cenário comum evidenciado nas avaliações educacionais realizadas no país, nos últimos anos, é o da distância entre o desempenho de alunos das redes pública e particular. Em relação ao Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), divulgado no último dia 14, o quadro não foi diferente. A diferença entre o indicador nas escolas públicas e privadas é de até 1,3 décimos, no caso dos dois segmentos do fundamental.

No entanto, um sinal de alerta para o setor privado também veio dos dados do Ideb. Nos três segmentos em que foi avaliada, a rede particular não atingiu as projeções de evolução do MEC para este ano. Além disso, dos 27 estados da federação, 11 conseguiram superar a expectativa de evolução no ensino médio.

A posição da Federação Nacional das Escolas Particulares (Fenep) é de que, a partir do Ideb, não há condições de fazer uma avaliação mais precisa sobre até que ponto as escolas privadas efetivamente alcançaram ou não objetivos pré-estabelecidos. A afirmação é de Claudia Costa, presidente do (Sinepe-RJ), que representa donos de instituições de educação básica em dezenas de cidades do Estado, e que participou de uma reunião da Federação no último dia 17, no Rio.

“Posso falar em nome de nosso sindicato e da federação nacional: o Ideb nem esclarece para a escola particular quais os critérios que ele utiliza, ou quantas escolas participam, para chegar nos resultados que chega. O Ideb não nos revela nada, a não ser o peso que a escola particular tem na qualidade do ensino no Brasil”, salientou.

A despeito das críticas ao índice, dirigentes educacionais do setor acreditam que o fato de as metas não terem sido atingidas este ano pode ser um reflexo de problemas enfrentadospor escolas particulares. Para Victor Notrica, presidente do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino do Rio (Sinepe-Rio), é preciso levar em conta que o Ideb de 2011 para o ensino médio é calculado a partir do desempenho de alunos que, nos anos de 2007 e 2009, estavam no ensino fundamental, que apresentava problemas, principalmente na rede pública. “São alunos que já vinham de escolas com Ideb baixo. Eles chegaram ao ensino médio com deficiências muito sérias.”

Outro problema que afeta as instituições privadas, segundo o educador, é a frequente mudança na legislação. A mais recente foi a alteração no formato do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), à qual muitas instituições ainda se adaptam. “A diretriz pedagógica de cada escola, que era livre, ficou bitolada com o modelo do Enem”, comentou Victor Notrica, que apontou outra dificuldade.

“Há também o problema da inadimplência, que existe na maioria das escolas privadas de ensino básico. Para cumprir seus compromissos, a instituição se vê obrigada a recorrer a empréstimos bancários, onde o custo do dinheiro é muito maior que a multa por atraso de pagamento.”

Um dos diretores do Sinepe-RJ e membro do Conselho Estadual de Educação do Estado do Rio de Janeiro, Luiz Henrique Mansur aponta outros aspectos que, segundo ele, dificultam o trabalho no setor privado. “A qualificação dos profissionais de educação no país não é satisfatória. Nossos bons professores, normalmente, são feitos dentro da escola, com investimento em treinamento, em preparação.”

Segundo o especialista, há aspectos externos às escolas mas que também acabam por influenciar no aprendizado. A falta de envolvimento das famílias com a educação dos filhos seria um desses fatores. “A estrutura das famílias é muito diferente e isto tem implicado em um desinteresse dos estudantes e em um apoio a esse desinteresse por parte das famílias. E isso, de alguma forma, repercute no desempenho dos alunos da rede privada nas avaliações do MEC.”

Lógica imediatista pode ser
causa da estagnação, diz educador

Mestre em educação e doutor em educação ambiental, o professor Marcos Barreto, vice-diretor da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense (UFF), aponta causas que considera mais estruturais para o fato de as instituições privadas de ensino não terem atingido as metas do Ideb. Para o educador, uma lógica de formação imediatista, pautada em objetivos como preparação para Enem, vestibulares e concursos para escolas de referência ou para cumprimento de metas específicas pode estar na raiz da dificuldade de evolução da qualidade no setor, apontada pelo índice do MEC.

“Grande parte das escolas privadas que tenho visto estão se rendendo a modelos educacionais mais preocupados com a cultura pós-moderna, hegemônica hoje, no sentido de garantir sucesso rápido para seus alunos, uma trajetória social vitoriosa, empreendedora, etc. Com isso, acabam liquefazendo os saberes mais importantes, que demandam um trabalho mais artesanal, menos rápido e menos preocupado com resultados e metas”, destacou o especialista.

O educador salientou que há instituições de ensino que até mercantilizam suas práticas pedagógicas. Segundo ele, para evoluir a um patamar além do que as instituições particulares, na média, já estão, e chegar, por exemplo, onde encontram-se as melhores do país, é necessária uma outra lógica de trabalho educacional.

“Escolas que adotam uma postura mais preocupada com metas e resultados mutilam e tornam mais medíocre o trabalho escolar. A partir de uma visão como esta, dificilmente a instituição de ensino terá um trabalho do porte, por exemplo, das escolas federais, que, em geral, têm Ideb mais alto”, analisou o professor Marcos Barreto. Ele, porém, lembra que o setor privado de educação é diverso e que muitas escolas adotam uma lógica diferente da que criticou.

“Existem escolas que mantêm, às vezes até aguerridamente, projetos pedagógicos mais diferenciados e qualificados, que valorizam os professores, criam uma relação mais saudável com os pais. Tudo isso faz com que estas escolas tenham boa qualidade.”

Folha Dirigida